A volta do "Monstro do Mesmo"
Quem é você? - gritou o presidente Lula.
- Eu sou o Mesmo! - respondeu a voz. No fundo do corredor do Palácio
da Alvorada, uma massa nebulosa girava sobre si mesma, como um fantasma-bailarino.
D. Marisa já dormia, Brasília também.
- Já é tarde da noite, não há ninguém
aqui... Quem é você? - gritou o presidente para a nuvem.
- O Mesmo, o Mesmo! - respondeu o abantesma.
Lula pensou: "É um pesadelo..."
A voz adivinhou:
- Não sou um sonho. Sempre estive aqui, esperando. Eu estive
aqui com Collor, estive com FH. Agora com você... Eu volto sempre.
Eu sou o Mesmo...
O fantasma tinha vagos contornos humanos, rostos mutantes, olhos, bigodes
em meio a névoa.
- Que você quer de mim? - balbuciou Lula, com os gelinhos do uísque
tilintando em seu copo.
- Eu vim aqui agradecê-lo, pois você já chegou aonde
eu quero: no mesmo, no mesmo... Quero te saudar porque já tive
medo de você... como uma Regina Duarte do além... Eu achei
que seu governo ia mudar o país, me senti ameaçado, acreditei
que havia um resíduo ético nos petistas e que você
detinha um grão de romantismo idealista. Achei que iam aprofundar
as mudanças democráticas, fiquei com medo que você
aperfeiçoasse o Plano Real, fizesse reformas no Estado, cortasse
despesas etc... E aí, eu tremi de medo dentro de meu pântano;
saí de meu torpor, farejei o ar, inquieto, mas agora estou calmo.
Graças a Deus, você só teve a esperteza inercial
de manter a política do FH com o Palocci, mas não mexeu
em nada, não mudou nada e foi organizando esta zorra, esta bela
congestão institucional que temos agora, que coroa minha volta
triunfal. Eu estava dormindo há muito tempo no bolso do jaquetão
do Sarney e, agora, saí aliviado.
- Mas eu sou o povo no poder, eu sou o novo!
- Que "novo", presidente... ( e a massa girava com um ruído
de gargalhadas ) que novo... você... perdão... o senhor
é um alpinista social, o único pobre que subiu na vida
nesse governo, o senhor era a esperança popular e agora é
só um símbolo vazio... Quando eu vi a fome dos petistas
invadindo o Estado como uma porcada magra no batatal, quando eu vi que
não havia programa, Deus seja louvado, que vocês se perdiam
em discussões vazias e não sabiam administrar nada...
eu sosseguei...
- Mas eu vou ser reeleito...
- Tomara, presidente... aliás, voto no senhor... E sua reeleição
será uma bela vitória do atraso nacional, apoiado por
massas que não entendem o que o senhor significa e pelos intelectuais
que não conseguem se livrar de seu feitiço...
- Por que eles me amam tanto?
- Eles são fascinados por sua sagrada ignorância, sua carinha
barbuda, porque você aplaca suas más consciências,
porque você é um conceito que eles não conseguem
superar: um vago populismo estatista com tintas socialistas... o senhor
é a tara dos intelectuais... E eu só tremi de novo quando
surgiu o Roberto Jefferson. Aí, eu entrei em pânico dentro
do jaquetão do Sarney: "Pronto! O povo vai descobrir a verdade
! E eu, o atraso endêmico, eu, o Mesmo, serei desmascarado!"...
Mas você foi perfeito... Aliás, que grande ator você
é, presidente!... Os mensalões lhe batiam como insetos,
os sanguessugas mamavam, as cuecas inchavam, e você conseguiu
segurar tudo no mais grandioso cinismo, como um Ademar, um Quércia...
Juro: eu fiquei com orgulho quando você declarou que "não
sabia de nada..."
- Ah... bondade sua...
- Claro que não foi só você que fez meu jogo...
Quando pintou a verdade do Jefferson, o sistema todo se agitou e me
defendeu - a paralisia dos tribunais oportunistas me defendeu, a sordidez
dos deputados me defendeu absolvendo criminosos, os votos secretos corporativos,
os depoimentos cínicos, o Severino, todos me defenderam contra
o mundo que Jefferson revelou, e eu respirei de novo, vendo que tudo
continuaria como sempre foi...
E, hoje, temos um país deprimido e impotente para reagir, assistindo
ao maravilhoso festival de mentiras, onde nada de bom acontece nem consola;
em suma, um país perfeito para mim, pegajoso, inviável
para sempre... Vocês conseguiram paralisar o progresso que se
anunciava: a moralização política, um funcionamento
republicano e democrático. Você revigorou o personalismo
populista de um getulismo tardio que vem aí... Parabéns...
- No segundo mandato... eu...
- Vai fazer o quê, no segundo mandato? Contrariar o PMDB, o Calheiros,
o Sarney?... Ora... presidente... V.Exa. não tem vocação
para o martírio... Você... o senhor é jeitoso, sabe
nadar no pântano, ao contrário do Collor, que "queria"
ser banido. Aliás, seu governo e o do Collor são parecidos,
só que você substituiu um PC do Collor por uma matilha
de PCs. O senhor é um Collor do povão, e por isso ninguém
tem coragem de lhe impichar , e olha que o Collor saiu por muito menos,
hein, na boa, na moral, presidente, desculpe...
- Como assim?
- Assim como os comunas acham que os fins justificam os meios, o senhor
pensa: "Eu justifico os meios!" O senhor quer ser eleito acima
dos poderes e gostaria de ser um chávez cordial, um chávez
aceito pelos bancos, pelo Bush... O senhor quer o êxtase da aceitação
total, e vale tudo para isso. O senhor vai substituir o atraso tradicional
por um atraso travestido de novo, um programa que será um vago
ensopadinho de slogans populistas com um estatismo inchado e falido.
E, no seu segundo governo, vai crescer o quisto sebáceo do empreguismo,
do aparelhamento do Estado-mamãe, com os 40 mil cargos dos petistas
que jamais largarão essa boca... Você é meu herói!...
- E você? Quem é você?
- Eu sou o orgulho de não ter sentimentos, sou a inércia
primitiva do Brasil. Tenho a grandeza da vista curta, a beleza dos interesses
mesquinhos, tenho a sabedoria dos porcos e das toupeiras. Eu sou aquilo
sem nome que transforma tudo que é público em privado.
Eu não sou uma mosca na sopa do país, não. Eu sou
a sopa brasileira.
Dito isso, a "coisa" parou de girar e sumiu como um pequeno
tornado no fundo do Alvorada.
Lula tomou um golão, foi dormir e sonhou, sorridente, com o Bush
e Chávez, que gostavam tanto dele...
Arnaldo
Jabor
"O que mais preocupa não é
nem o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem caráter,
e dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio
dos bons."
Martin Luther King