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Ex-traficante e ex-dependente químico, João freqüenta há três meses um dos grupos dos Narcóticos Anônimos (NA) do Rio de Janeiro. Para os mais chegados, que acompanharam de perto sua acidentada trajetória, exibe com orgulho a ficha de inscrição do NA. Nesta primeira entrevista, ele fala ao Viva Favela sobre a hierarquia e o sistema de promoção no tráfico – “um trabalho como outro qualquer” -, diz que a maioria das bocas ‘demite’ as crianças quando esse pedido é feito pelos pais, e confirma: quem está mandando hoje no comércio de drogas é a nova geração. “Tem garoto aí de 16 anos que já é dono de boca-de-fumo. E não tem essa história de dar preferência a garotos ‘de menor’ porque a punição deles é mais leve. Eles estão invadindo porque essa molecada está mostrando mais serviço que os mais velhos”, diz João. Ele entrou para o tráfico em 1992. Tinha 26 anos – “idade em que a maioria já morreu”. Amigo de infância do ‘dono do morro’, era de extrema confiança e já começou no alto escalão da venda de drogas, como subgerente. Já sabia o que era trabalho formal, como fiscal de uma empresa. Mas costumava faltar o trabalho para participar de assaltos a banco. Nessas ocasiões, um amigo do escritório batia o ponto para ele. “Era a minha fachada. Se alguém desconfiasse, eu tinha o cartão para provar que estava trabalhando”. Quando começou no tráfico, estava desempregado há dois anos e meio. “Estava passando por uma fase difícil. Achei que essa era a maneira mais fácil para eu me levantar mais rápido e conseguir meu objetivo, que era refazer a casa da minha mãe. Nessa época, eu recriminava muito meus dois irmãos mais novos porque não aceitava que os dois se envolvessem com o crime. Achava que por ser o mais velho, eu deveria me envolver e eles não. Preferia colocar o meu pescoço à prova e tirar o deles. Achava que a responsabilidade de dar um conforto maior a minha mãe era minha." Na sua família, conta, os três filhos homens entraram e saíram do tráfico. O irmão mais novo “se envolveu muito cedo e fez muita besteira na vida”. Depois casou, teve dois filhos e “se acalmou”. Hoje mora longe e trabalha como pedreiro. Já o irmão do meio se afastou do tráfico por pressão da mulher: “Graças a ela ele agora tem um trabalho honesto”. Boca demite, se pais pedirem Segundo o ex-traficante, já houve uma “idade certa” para se começar no tráfico. Hoje, vale tudo. “Na minha época de garoto, com 15, 16 anos, se a gente passasse perto de algum cara que estivesse fumando, ele dava uns tapas na gente e ainda ia fazer queixa para os nossos pais. Nós tínhamos que ficar bem longe deles. Hoje em dia você vê menor de 10,12 anos plantado em uma boca, cheirando cocaína. Não tem mais limite. O limite é ‘fez bonito? então está formado’.” João conta que o papel dos pais é decisivo, na maioria das vezes: “Aqui e em algumas outras bocas é assim. Se você está na boca e o seu pai ou sua mãe conversa com o responsável e diz que não quer seu filho nessa, os caras vão mandar ele para casa. Às vezes dá certo. O problema é que quando os pais não querem, o filho quer mais ainda e continua insistindo até o pai desistir. Se o pai não for pedir nada, o menino vai ficando. Ele está trabalhando direito e não tem porque mandar ele embora. Se o pedido for feito, tem que ser respeitado. Só que não é muito comum os pais fazerem o pedido, não”. Com grife, mas sem liberdade A sedução do consumismo funciona como ímã para os jovens. “Ali é aquela vida fácil. Tipo assim, você não é envolvido, mas o colega dele é e está andando com um tênis bonito, bermudão da Ciclone, uma camisa da HD, enfim, na moda. E ele está como? Com um chinelo de dedo todo rasgado, uma bermuda toda furreca. O que começa a passar na mente dele? Meu pai e minha mãe não têm condições de me dar isso, mas olha só como meu amigo está andando depois que entrou para a boca-de-fumo. E o que o moleque faz? Ele vai e se envolve. Na realidade ele nem gosta. Mas está vendo dinheiro, está andando bonitão. No fundo, se botar a cabeça para funcionar, vai ver que aquilo ali não serve para ele. Vai começar a ver que não tem mais liberdade para andar no asfalto tranqüilo, vai começar a perder noite de sono, vai ter que viver fugindo da polícia e andar sempre com uma arma na mão. No início ninguém pensa nessas coisas, só depois é que a gente vê. Mas aí não dá mais para voltar atrás.“ Começar de baixo O tráfico é um trabalho igual a qualquer outro. É fora da lei, mas é um trabalho. Você tem que mostrar tua cara todos os dias, porque se você não mostrar tua cara vão querer saber o porquê. E você tem que ser sujeito homem, de caráter. Não pode vacilar, tirar onda com os outros. Tem que ser honesto em tudo que você faz, porque se vacilar nas atitudes, no que você fala e, pior, nas suas contas, você vai ficar visado e aí qualquer coisa que acontecer pode sobrar para você. Tem gente que já se encaixa no tráfico com uma posição. Mas o certo é você começar de baixo. Por exemplo, começar fazendo um “adianto”. Ir à padaria comprar um negócio, dar um recado. Começa como um office-boy. Dali, se for um moleque que sempre trabalha certo, nunca diz não e nem nunca faz cara feia, pode passar à vigia ou então ser apadrinhado por alguém e nem parar na boca. Se for apadrinhado, toda semana ele vai ter o dinheiro dele, vai estar sempre perto do padrinho e vai passar a ser os olhos do padrinho, para contar tudo. Se acontecer isso ele deu sorte. Vai subir mais rápido e vai se arriscar menos. Os que não são apadrinhados começam diferente. Eles vão levando as atividades serinho, serinho. Vamos supor que eu o coloque naquele posto de atividade (de vigilância ou de venda) lá em baixo. Mas aquele é um posto ruim, onde ninguém gosta de ficar porque é um posto morto e não passa ninguém e não tem com quem conversar. Tem outro posto onde ficam dois ou três que é melhor, a hora passa mais rápido. Então se a gente põe um garoto num posto ruim e toda vez que vai olhar ele está lá é porque ele é confiável e ele já pode subir um pouco, mais um degrau e passa a ser um vapor. Se ele fizer sempre a conta dele direitinho, tanto da maconha quanto da cocaína, sem faltar nada, é bom. Porque o tráfico é sinistro. Se você presta conta certa hoje, amanhã e depois de amanhã, mas daqui a uma semana faz a conta faltando um centavo, talvez seja até aceito por estar faltando um centavo. Mas têm muitas bocas-de-fumo que não aceitam e “os cara” de repente podem até acabar com a tua vida. Você tem que tomar muito cuidado, mais cuidado com o dinheiro dele do que com o teu. Porque o teu já é, se você gastar todo, o problema é teu. Mas o do patrão tem que ir certo." Olho grande "Então o moleque é vapor. Depois ele passa a vender. Aí ele já pode ser segurança do patrão. Onde o patrão está ele tem que estar no bonde. Sendo que ele tem o dia certo de plantar na boca, então ele ganha dois dinheiros, uma merreca que o patrão dá todo fim de semana e o do dia dele na boca. No meu caso eu já não plantava mais na boca. O patrão colocava outro no meu dia e eu supervisionava o trabalho dele. Mas eu tinha que estar sempre junto dele. No crime tem muito o que a gente chama de “derrubação de governo”, que é o olho grande. Às vezes a gente não sabe que vai ganhar uma posição, mas tem gente que sabe e quer atrapalhar. Depois de vender, o garoto pode chegar a ser um subgerente da boca. No escalão eu cheguei até subgerente da boca. Tem um subgerente em cada boca e tem o gerente que coordena os subgerentes. Normalmente tem quatro gerentes. Dois subgerentes na maconha, que é do gerente-geral. Tem o subgerente da maconha de R$ 2, que vem toda cortadinha, e o subgerente da maconha de R$ 5, que já vem em tabletinho e o cara tem que cortar em casa. E dois gerentes da cocaína. Um é o subgerente, que era eu, e o outro é o gerente-geral, que é o dono da maconha e tem que fazer as contas com o patrão. Eu fazia as contas com o gerente-geral e depois ele levava as contas para mostrar para o patrão. Aqui tem só uma boca porque o patrão tem muito medo de ser roubado nas contas e com uma boca só é mais fácil de controlar. O roubo acontece assim: vamos supor que foi passado para ele que fizeram trinta cargas de cocaína. Cada carga tem 130 papelotes, mas às vezes não foram 30 cargas, foram 40. As outras dez cargas que não foram contadas ficam para o cara que vendeu, o dinheiro não aparece nas mãos do patrão e nem nas contas dele. Assim, tendo uma boca só, fica mais fácil para ele controlar tudo. Ele sabe quanto de cocaína tem guardado e quantas cargas foram feitas. É mais difícil de enganar.” Caretice traz credibilidade Hoje em dia quem está mandando é a nova geração. Tem muitos mais velhos que já estão formados no crime, mas não têm uma posição. Por quê? Porque eles acham que por serem antigos na boca podem fazer e acontecer. Os novos respeitam a posição. Se você não respeitar a posição tu não vai a lugar nenhum. Não tem que entrar numa de debater com um superior a você, porque você vai ser mandado embora. Tem muitos antigos que não querem saber de nada, só querem saber de se endoidar. Eu tenho um amigo aí, que é forma antiga, que começa a beber cachaça, da cachaça vai para a maconha e a cocaína. E eu estou vendo que você não é de usar nada, muito mal de vez em quando você bebe uma cervejinha, vou confiar mais em você. Fumar, já é, mas e a cocaína? A cocaína te derrama, derrama teu bolso. A cocaína é cara e se ela for boa, quanto mais você tem no bolso, mais você gasta. Vamos supor, o papelote custa R$ 10, e é da boa. Você pede um e toma uma cervejinha. Daqui a pouco você manda pegar mais um, mais um, mais um. Quando você vai ver, já pegou 5 e já gastou R$ 50. Se você estava com R$ 100 no bolso, já está com trinta e pouco, por quê? E a cerveja que você bebeu? Tudo isso é descontado. Se eu tenho que escolher entre você que fuma e muito mal toma uma cerveja e ele, que fuma bebe e cheira pra caramba, eu não posso colocar ele nessa “responsa”. Para colocar ele, prefiro colocar você. Hoje em dia é mais fácil pegar uma posição quem não usa nada. No crime tem muito disso. O dono daqui do morro, por exemplo, só bebe uísque. Mas quem toma conta mesmo é o gerente de confiança dele. Só que esse gerente só fuma e bebe refrigerante, não é nem cerveja. A maior parte dos responsáveis por boca-de-fumo por aí, poucos usam alguma coisa. Isso acontece porque quando você pega uma posição que é forte, você tem que ter cabeça, não pode se deixar levar por nada, sua atitude tem que ser própria. Você tem que estar ligado em tudo, tem que saber de tudo. Não pode ouvir só aqui, tem que ouvir os dois lados e fazer uma análise para saber quem está certo e quem está errado para saber qual a punição que você vai dar. E para saber disso tudo você não pode estar doido, porque se você estiver doido, pode tomar uma atitude errada. E se tomar uma atitude errada vai ser chamado à atenção pelo outro e vai ficar ‘queimado’. É por isso que tem muitos que usam droga pra caramba, mas depois que pegam uma ‘responsa’, param. * nome fictício, a pedido do entrevistado http://www.vivafavela.com.br |
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