Edição 0101 - 30 de Dezembro de 2005
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A INSEGURA VIDA DOS AGENTES DE SEGURANÇA PÚBLICA

O aumento da criminalidade nos grandes centros urbanos brasileiros nas últimas décadas fez surgir uma enorme quantidade de pesquisas científicas sobre a violência. A quase totalidade se dedica a estudá-la a partir da perspectiva da vítima. Alguns poucos penetram no submundo do crime, revelando a engrenagem perversa que alimenta o terror. Raros, no entanto, concentram seu foco sobre os agentes responsáveis diretos pela segurança pública, os policiais.

A assistente social Verônica do Couto Abreu, mestra pela PUC-RJ e professora do departamento de Serviço Social, Centro Sócio-econômico da UFPA, coordena um projeto inédito em sua área acadêmica sobre o perfil do policial civil no Estado do Pará. O trabalho começou em 1997, quando os policiais civis paraenses se mobilizaram em torno de questões importantes para a categoria, como melhorias salariais e segurança no desempenho de atividades.

A mobilização, liderada pela associação e sindicato dos delegados do Estado do Pará, se intensificou com o assassinato do delegado Mário Tadeu do Couto Abreu, no município de Tailândia. Alvejado por bandidos que praticavam assalto na cidade, o delegado não usava colete à prova de bala no momento da diligência. Mário Tadeu do Couto Abreu era irmão da pesquisadora.

Atingida diretamente pela violência, Verônica do Couto Abreu acompanhou a mobilização das delegacias e seccionais, constatando a falta de segurança dos policiais no exercício do trabalho de prevenção e repressão ao crime. Foi neste contexto que vislumbrou a possibilidade de fazer um estudo científico sobre a violência. Considerando a amplitude do tema, direcionou seu olhar para o agente promotor da segurança pública, o policial, mas pela ótica da sua dimensão humano-social.

A pesquisa buscou traçar o perfil do policial civil paraense e levantar as condições de trabalho e vida, através da experiência dentro e fora do ambiente policial. O objetivo maior foi contribuir para a elaboração de uma política de valorização humana do profissional.

Durante dois anos, estudantes do curso de Serviço Social, sob coordenação da pesquisadora, coletaram dados funcionais em prontuários policiais, entre os quais escolaridade, composição familiar, punições, elogios e transferências. O acesso dos dez primeiros estagiários aos dossiês em poder da Delegacia Geral, de início encontrou alguma resistência, em função, principalmente, do ineditismo do tema. "De fato, houve resistência, afinal era a universidade penetrando num ambiente oculto, que nunca fora alvo de nenhum estudo", lembra Verônica Abreu.

Foram consultadas 2.240 fichas de um universo de 2.332, ou seja, a pesquisa trabalhou com dados funcionais de 96% da categoria policial, composta de investigadores, delegados, escrivães, motoristas, papiloscopistas, peritos criminais, médicos legistas e auxiliares técnicos. Além da consulta aos dossiês, os estagiários também realizaram entrevistas com os policiais em seus ambientes de trabalho.

A compilação dos dados mostrou que a Policia Civil do Pará é, na sua grande maioria, formada por jovens do sexo masculino, com faixa etária entre 28 e 39 anos. A maior incidência de tempo de serviço se dá na faixa entre quatro e dez anos. Há um equilíbrio entre solteiros e casados. O ensino superior só é exigido aos delegados. Para as demais categorias, o ensino médio completo.

A idéia disseminada de que o corporativismo da Polícia protege o policial de punições caiu por água abaixo após a consulta aos dossiês individuais. No ano de 1998, por exemplo, 49% dos policiais foram punidos com suspensões e repreensões, sendo que 1,8% desses receberam mais de 13 suspensões. Entre os suspensos, o maior contingente, 839 policiais (37,5%), recebeu punição de uma a quatro vezes, enquanto 792 (35,4%) receberam repreensão verbal de uma a três vezes.

Analisando o quadro corretivo, Verônica Abreu afirma que tanto suspensão como repreensão possuem apenas caráter punitivo, "não se vislumbrando mudar o comportamento do policial através de um trabalho educativo". Ao mesmo tempo em que tira o policial do local de trabalho, a suspensão também incide sobre parte do salário.

A pesquisa atestou o alto nível de estresse da atividade policial com base nas doenças diagnosticadas. Em 1999, um total de 293 policiais tirou licença para tratamento de saúde, o equivalente a 13% do contingente, "um número alto", segundo a pesquisadora, "acarretando um custo muito grande para o Estado, para a área de saúde e para a própria Polícia".

Os investigadores, linha de frente do trabalho policial, são os mais expostos aos efeitos danosos da atividade. As doenças de maior incidência são as traumatológicas, com 21% dos casos. Os distúrbios mentais, como esquizofrenia, histeria e distúrbios psíquicos, responsáveis por 9% das doenças, são indicadores do trabalho sob pressão. São também causadas pelo estresse doenças como hipertensão, gastrite e úlcera, que juntos somaram 23% dos casos diagnosticados.

Outro fator apontado como causador de instabilidade para o policial é o alto índice de transferências de localidades ou unidades. Ao entrar para a Polícia, o policial é alocado para trabalhar, em geral, no interior do Estado. Começa, então, uma jornada de transferências que, nos dois anos pesquisados, pode levar um policial a trocar de lugar de trabalho por mais de 17 vezes. No mesmo período um total de 1.466 policiais foi transferido de uma a cinco vezes, enquanto 518, entre seis e onze vezes.

Um dado curioso foi observado pela equipe de pesquisadores e creditado também à instabilidade profissional do policial, sobretudo às sucessivas transferências. Trata-se das ações de paternidades. "Há muitos casos de policiais com mais de uma família, alguns até com três. Há casos de policiais com cinco filhos, cada um com mulher diferente. Ocorre com eles uma instabilidade emocional muito grande, fruto da atividade que os afasta seguidamente da família", relata Verônica Abreu.


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Assistentes sociais e psicólogos atendem policiais

Os policiais civis desenvolvem uma atividade estressante, convivem com o alto risco, a maioria recebe salários baixos e todos estão sujeitos ao regime de plantão, que, segundo a sociologia do trabalho, pode afetar a vida pessoal de cada um. Enquanto o professor possui como instrumento de trabalho a voz e os recursos audiovisuais disponíveis numa escola, o policial enfrenta situações de perigo e seu instrumento de trabalho é a arma. Tem como atribuição proteger o cidadão, mas no exercício da profissão pode lhe causar a morte involuntária. É uma atividade muito específica comparada às outras.

"O policial sofre aviltantes processos de descaracterização na instituição Polícia. Recebe arma e treinamento para manuseá-la, porém não passa por nenhum tipo de trabalho psicológico com objetivo de auxiliá-lo a utilizar essa arma. A Polícia não trabalha o policial em seu aspecto pessoal, familiar e social. Muitas vezes ele é obrigado a morar com a família em lugar infestado de bandidos ou, no exercício da profissão, ter que prender um vizinho, um amigo antigo. Trata-se de uma profissão altamente estressante.

Quem é polícia, é polícia o dia todo. É quase impossível separar a vida profissional da vida íntima", analisa Verônica do Couto Abreu. A partir da realização da pesquisa, que lançou um foco para dentro da instituição, e também em função da pressão exercida pela associação e sindicato dos delegados, foi criado, em 2.000, um setor psicossocial na Polícia Civil, formado por um grupo de assistentes sociais e psicólogos, voltado para a assistência ao policial. A presença de assistentes sociais nas delegacias e seccionais não é uma novidade, mas até então esses profissionais restringiam-se ao atendimento da população que procurava as delegacias. Segundo a pesquisadora, "antes do novo setor, o policial contava o seu problema diretamente para o delegado, que decidia o que fazer. Hoje, quem assiste e trabalha os policiais é esse grupo interdisciplinar. Ainda não é a forma ideal, opera-se muito devagar, mas sinaliza uma alternativa para o problema".

Walter Pinto

 

 


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