REPERCUTE
NO MUNDO A VITÓRIA DO NÃO!, NO BRASIL.
Interessante análise, publicada em um site de esquerda,
sobre os efeitos da vitória do NÃO!, no Brasil,
e como a IANSA (International Action Network on Small Arms)
que patrocina movimentos pacifistas pelo mundo, lamentou enormemente
a derrota sofrida.
Diogo
ARMAMENTISMO PARA O MUNDO
O
comercial tem início com um comedido noticiário
simulado. Um âncora de notícias, olhando diretamente
para a câmera, adverte os telespectadores sobre a proposta
de banimento das armas: “O assunto do desarmamento está
sendo deturpado – os criminosos não serão
desarmados”. O âncora é substituído
por uma montagem ressaltando eventos notórios de liberdade:
Nelson Mandela sendo libertado da prisão; um único
homem impedindo o avanço de tanques na Praça da
Paz Celestial; a queda do muro de Berlim. Após essas
cenas evocativas, o âncora retorna e afirma: “Seus
direitos estão ameaçados. Não perca seu
direito à liberdade”. Para tornar a mensagem mais
patente à população local, em seguida se
mostram milhares de brasileiros nas ruas, na campanha para restauração
da democracia após duas décadas de ditadura.
Esse foi o primeiro comercial de uma série exibida pela
televisão brasileira no mês de outubro do ano passado,
quando disputavam acaloradamente os votos do público
as duas frentes parlamentares a favor e contra o desarmamento
na maior potência democrática sul-americana. Os
que eram favoráveis ao desarmamento propunham tornar
ilegal a comercialização de armas e munições
para a população civil, validando uma série
de medidas de controle de armas aprovadas em anos recentes.
Se um cidadão não fosse policial ou guarda de
segurança privada, não estaria autorizado a comprar
armas e munições. A idéia era defendida
por ONGs no Rio de Janeiro e São Paulo e fora encampada
por dois governos presidenciais, porém retardada em dois
anos sua aplicação devido à influência
dos fabricantes de armas. Finalmente o assunto seria decidido
pelo voto, no primeiro referendo popular sobre o desarmamento
em todo o mundo.
Mas o alcance dessa pesquisa de opinião nunca se limitou
ao Brasil, que era apenas o primeiro campo de batalha num debate
global acirrado sobre o direito ao uso de armas. Uma semana
antes da votação, a IANSA (Rede de Ação
Internacional sobre Armas de Pequeno Porte), organização
com sede em Londres, representando mais de 500 organizações
desarmamentistas mundiais, coordenou um dia internacional de
apoio ao desarmamento no Brasil. Houve manifestações
na Inglaterra, Itália, África do Sul e Turquia,
entre outros países. Segundo a IANSA, “a aprovação
do desarmamento reforçaria o movimento a favor do controle
de armas em outros países latino-americanos às
voltas com a violência armada e apoiaria os esforços
pelo controle da posse de armas por particulares em nível
internacional”.
As pesquisas de opinião realizadas antes do início
da campanha davam aos defensores do desarmamento todas as razões
para otimismo. Em meados de setembro, os favoráveis ao
desarmamento eram em torno de 73%, graças ao apoio do
governo federal, da Igreja Católica e do canal Globo
de TV. Apesar disso, quando os brasileiros compareceram às
urnas no dia 23 de outubro, proporcionaram ao movimento internacional
pelo desarmamento uma das suas mais pungentes derrotas, rejeitando
o desarmamento por uma margem de quase 2 para 1. O número
de brasileiros possuidores de armas legais é estimado
em apenas 2 milhões. Em outras palavras, cerca de 59
milhões de brasileiros votaram para preservar uma prerrogativa
de que a grande maioria nunca se valerá.
Não houve um motivo específico para a esmagadora
derrota. Muitos votantes manifestaram seu descontentamento com
um governo mergulhado em escândalos de corrupção.
Outros não confiaram no interesse do governo em desarmar,
porque não confiavam no próprio governo. Mas poucos
têm dúvida de que o comercial da campanha fez a
diferença. Durante três semanas em que ele foi
exibido, o apoio ao desarmamento caiu vertiginosamente. “Eles
não falavam sobre armas, e sim sobre direitos”,
afirma Guaracy Mingardi, pesquisador paulista sobre crimes,
filiado à ONU.
A idéia de que possuir uma arma é um direito humano,
tanto quanto a liberdade de protestar, por exemplo, era nova
para muitos brasileiros. Mas a retórica utilizada nos
comerciais repercutia os pontos debatidos nos grupos a favor
da legítima defesa na Austrália, Inglaterra, África
do Sul e outros. Tal linha de argumentação poderia
não existir sem a NRA, que a modelou, testou e aguçou
muito antes que muitos desses grupos sequer existissem. Talvez
o mais poderoso grupo de pressão dos EUA, a NRA atua
como madrinha dos grupos pró-armas em todo o mundo e
não limita sua agenda às próprias fronteiras.
De fato, pouco antes do referendo brasileiro, o porta-voz da
NRA, Andrew Arulanandam, afirmou: “Encaramos o Brasil
como a primeira carga de artilharia do movimento desarmamentista
mundial. Se os adeptos do controle de armas tiverem êxito
no Brasil, os EUA serão os próximos”.
A NRA não deve estar financiando os grupos pró-armas
fora do país, pois os estatutos o proíbem, mas
a sua influência se faz sentir muito, independentemente
do que faria o dinheiro. Fornece apoio aos grupos pró-armas
na ONU; promove linhas de argumentos, estratégia e táticas
políticas de que outros fazem uso local; e quando são
contatados, seus dirigentes explicam o que fazer para atingir
os objetivos. Embora muitos dos membros da NRA sequer possuam
um passaporte, seus dirigentes são exímios em
política internacional. Embora voltados para o que ocorre
no seu próprio país, compreendem profundamente
como funciona a globalização: “Vivemos numa
sociedade globalizada. Não se pode dizer que o que acontece
na Escócia não afeta os EUA, porque realmente
afeta” – diz Thomas Mason, representante americano
pró-armas na ONU.
Clube
de luta
De
armas leves a foguetes de uso individual, há cerca de
600 milhões de armas de pequeno porte mundo afora, a
maioria em mãos de particulares. Para muitos, as armas
de fogo são um dos maiores elementos desestabilizadores
no mundo em desenvolvimento, atuando como a raiz de conflitos
na África, do banditismo na América Latina e da
proliferação de empreendimentos criminosos em
todo o mundo. De acordo com estimativas, só no Brasil
a violência, na maioria relacionada ao uso de armas, consome
mais de 10% do PIB.
Na década de 1990, uma associação livre
de ONGs anti-violência, fundações e entidades
acadêmicas se constituiu para restringir o comércio
irregular de armas leves e de pequeno porte. Essa ampla coalizão
tinha motivos para acreditar que o seu esforço poderia
ter êxito. Pois no início da década haviam
obtido um consenso internacional contra o uso de minas terrestres.
Em 1997, 122 países endossaram a Convenção
de Ottawa, tratado global proibindo a produção
e uso de explosivos e delineando um plano para sua destruição.
Muitos desses mesmos grupos procuram agora um outro assassino
a derrotar. “O que se obteve no fim da guerra fria foi
um alívio em relação ao destaque obsessivo
dado à ameaça nuclear, e então se tornou
possível ver outras ameaças, como as armas que
atualmente matam centenas de milhares de pessoas todos os anos”
– afirma Rebecca Peters, diretora da IANSA.
Cerca de 38.000 pessoas são assassinadas no Brasil anualmente
por arma de fogo, especialmente as manuais. Por isso, durante
muito tempo o movimento mundial pelo controle de armas considerou
o Brasil potencialmente como exemplo dos efeitos positivos da
restrição do acesso legal às armas. Antes
de outubro do ano passado, tudo indicava que a votação
penderia para os seus objetivos. Os dois últimos governos
haviam aderido às recomendações da ONU
em favor do controle de armas, e entre 1997 e 2003 o Congresso
aprovou leis das mais restritivas do mundo democrático.
A partir de 2004, um programa de recompra de armas pelo governo
coletou e destruiu mais de 400 mil armas. O número de
homicídios caiu 8% em 2004, primeira queda em 13 anos,
o que foi atribuído pelos desarmamentistas àquelas
medidas.
Essa mesma série de acontecimentos foi parcialmente responsável
pela chegada da NRA ao Brasil. Em agosto de 2003, Charles Cunningham,
lobista do Instituto para Ação Legislativa, viajou
a São Paulo e Rio de Janeiro para conferências
a grupos de organizações de tiro esportivo, colecionadores
de armas e outros defensores do direito ao uso de armas. Na
época, o Congresso Nacional se preparava para aprovar
nova série de restrições ao uso de armas,
e os grupos brasileiros pró-armas estavam despreparados
para a tarefa. Um deles era a Associação Nacional
de Proprietários e Comerciantes de Armas, similar à
NRA. O número de membros chegara a 1.200 em 1998, mas
caíra a 400, quatro anos depois. O movimento pró-armas
estava desanimado, contentando-se com existir. “Não
tínhamos o número necessário de membros
para iniciar uma campanha eficiente de nenhum tipo, por isso
os sócios começaram a afastar-se” –
explica Leonardo Arruda, porta-voz do grupo.
O grupo que convidou Cunningham e promoveu o evento, a Sociedade
Brasileira de Defesa da Tradição, Família
e Propriedade, não estava também conseguindo resultado
melhor. Como organização religiosa e nacionalista
de extrema direita, sua influência decaíra com
o final da ditadura militar em 1985. Nenhum dos outros grupos
pró-armas tinha grande presença fora dos stands
de tiro e na Internet. E a indústria brasileira de armas
também não levava a sério o pessoal colecionador
entusiasta de armas, preferindo trabalhar nos bastidores com
os políticos.
Refletindo a ansiedade dos organizadores, as conferências
de Cunningham tiveram em vista “oferecer estratégias
pró-armas numa cultura anti-armas”. Centenas de
pessoas compareceram em ambas as cidades. Cunningham falou sobre
a história da NRA e sobre a Constituição
americana. Mostrou que os proprietários de armas precisavam
de uma coordenação central, com representantes
em cada região. Era importante que os grupos deixassem
de lado suas divergências, para contrapor-se ao desarmamento
com uma única voz. Deveriam insistir em que o desarmamento
só favorece os criminosos. O controle de armas vai muito
além das armas, pois envolve a liberdade.
Alguns ativistas pró-armas não compareceram, pois
não queriam ser encarados como manobrados de fora do
País. Mas foi esta a primeira vez que um conjunto ponderável
de grupos pró-armas se reuniu para discutir estratégias.
Lincoln Tendler, editor da revista Magnum, afirma: “Foi
importante a conferência, agindo como um catalisador.
Fez com que as pessoas se sentissem animadas, pois se funcionou
para os americanos, poderia funcionar para nós”.
Divulgando
a mensagem – silenciosamente
(...)
A NRA prefere não divulgar as suas operações
internacionais. “Não discutimos o conteúdo
de encontros privados”, diz Arulanandam. E geralmente
ela disfarça o que, segundo toda a aparência, é
um crescente papel internacional. Por duas razões isso
não deve causar surpresa. Os seus membros tendem a ser
conservadores tradicionais, cujos pontos de vista em assuntos
de política internacional caminham para o isolacionismo.
Arulanandam admite: “Temos ajudado onde podemos, mas nosso
compromisso é a preservação dos direitos
nos EUA”. Além disso, a NRA provavelmente compreende
melhor que ninguém que a sua imagem de “em primeiro
lugar os Estados Unidos” não tem livre trânsito
no exterior, especialmente nesta época em que o sentimento
anti-americano fora do país anda tão alto. Jairo
Paes de Lira, ativista pró-armas de São Paulo,
afirma que as comunicações com a NRA se congelaram
pouco antes do referendo, essencialmente por motivo de um entendimento
tácito: “Estamos do mesmo lado, mas não
queríamos dar a impressão de que havia influência
externa no referendo”.
Por esse motivo, uma das fontes de influência da NRA junto
a grupos do exterior deve ser a de elaboradores globais do pensamento
pró-armas. Ativistas do direito ao uso de armas pesquisam
na Internet as estatísticas ou os estudiosos que apresentam
argumentos úteis à causa. Um desses defensores,
muito elogiado no site da NRA, é John Lott Jr., economista
americano que provocou furor nos Estados Unidos ao afirmar que,
quanto maior o número de armas numa sociedade, menor
o de crimes. Quando surgiu em 1998 a tradução
em português do seu livro Mais armas, menos crimes, os
ativistas brasileiros pró-armas o adotaram como uma espécie
de bíblia anti-controle de armas. Um entusiástico
ativista pró-armas de São Paulo comprou 1.500
exemplares e os distribuiu a todos os membros do Congresso.
Denis Mizne, diretor executivo de Sou da Paz, organização
anti-armas de São Paulo, afirma ter visto muitas publicações
pró-armas traduzidas diretamente de estudos da NRA: “É
fácil assumir a linha e os conceitos, basta ir ao site
da NRA”.
Mas a NRA não se acomodou numa abordagem passiva da sua
agenda no exterior. A não ser assim, ela não precisaria
estar presente na ONU.
Demonstração
no curral da ONU
Quando
Thomas Mason chegou à ONU, os diplomatas não receberam
os cumprimentos do cowboy valentão que esperavam. O ex-deputado
de Oregon é o emissário pró-armas junto
às Nações Unidas e outros fóruns
internacionais. Na década passada ele angariou a reputação
de estrategista sagaz e atuante cordial, apesar de trabalhar
em território que só pode ser descrito como hostil.
Num debate televisivo em Londres, em 2004, o diretor da NRA
Wayne LaPierre afirmou que a presença do seu grupo na
ONU deve ser considerada de oposição, e não
de participação. Novamente, é a mensagem
que a NRA repete aos seus incorrigíveis membros conservadores,
que vêem com ceticismo instituições internacionais
como a ONU. Contudo, a tenacidade e talento diplomático
de Mason transformou a NRA num ativo e bem representado contendor
no âmbito mundial. Esse advogado de 61 anos está
sempre se insinuando em tudo o que acontece, para garantir sua
participação no processo, segundo afirma Peters,
da IANSA. Mason encara a presença da NRA como jogo limpo
no que ele denomina “guerra cultural”. Qualquer
vitória do controle de armas na ONU, segundo ele, representa
uma vantagem tática alhures. Permitir que uma instituição
internacional faça declarações, ainda que
mínimas, sobre a posse doméstica de armas seria
uma dessas vitórias: “Isso tornaria ilegítimas
as armas de fogo num palco mundial”. É claro que
o oposto também é verdade. É por isso que
a derrota do desarmamento no Brasil, rejeitado por quase 65%
dos votantes, foi uma grande derrota para o movimento desarmamentista.
“No mundo político real, 65% é algo como
o ataque a Pearl Harbor, afirma Mason.
A presença da NRA na ONU data de 1996. Percebendo que
a corrente pró-desarmamento estava ganhando impulso,
e que a NRA estava sendo posta de lado no debate, ela obteve
o status oficial de ONG nas Nações Unidas. No
ano seguinte, ela ajudou a instalar o Fórum Mundial sobre
o Futuro das Atividades de Tiro Esportivo. O novo grupo, registrado
em Bruxelas, é uma organização que dá
sustentação a mais de 30 grupos pró-armas
e de fabricantes de armas do mundo inteiro, e tornou-se a voz
de liderança no movimento pró-armas em encontros
internacionais. Mason é atualmente o secretário
co-executivo do Fórum Mundial, sendo o outro reservado
a um europeu.
É claro que a inclusão de defensores do direito
ao uso de armas entre gente da ONU – uma miscelânea
internacional de diplomatas, ativistas e pessoal acadêmico
– levou a algum tipo de choque cultural. Num encontro
da ONU sobre armas de pequeno porte, um orador pró-armas
membro da Sociedade de Tiro Ação Isolada –
que se apresenta como “o mais próximo do velho
Oeste a que você consegue chegar, na falta de uma máquina
do tempo” – rememorou suas alegrias infantis quando
brincava de cowboys e índios. O argumento da NRA, de
que a ampliação da posse de armas poderia prevenir
o genocídio, também não foi engolido. Natalie
Goldring, especialista em assuntos de segurança internacional
da Universidade Georgetown, que atua como consultora de grupos
favoráveis ao controle de armas, afirmou: “O Fórum
Mundial é importante para a NRA, pois dá um verniz
internacional às suas atividades. Eu acho que Mason progride
na polêmica, aproveitando-se do fato de que sua simples
presença no prédio da ONU é um aborrecimento
para os que queremos interromper a matança”.
Mason, evidentemente, encara seu papel como sendo muito maior
que o de um espinho no pessoal do movimento anti-armas. Argumenta
que a posição da ONU sobre armas de pequeno porte
é habitualmente conduzida de acordo com o mito de um
problema global de armamentos. Segundo ele, o problema real
é o crime, e isso coincide com a mensagem que a NRA divulga
nos EUA. Com essa finalidade, o Fórum Mundial propõe
gravar números de série nas armas de fogo, como
recurso para localizar vendas ilícitas. Mas Mason argumenta
que, se os criminosos não vão ser desarmados,
essa proposta não ajuda em nada. E afirma que o objetivo
da ONU “não é o verdadeiro desarmamento.
Em grande medida, o que pretende é que vários
países embarquem num pretenso desarmamento, que lhes
possibilite apaziguar seu eleitorado esquerdista”.
A ação lobista de Mason poderia ser muito menos
efetiva se não contasse com um aliado na Casa Branca.
Na primeira conferência das Nações Unidas
sobre armas de pequeno porte, em 2001, o chefe da delegação
americana, atualmente embaixador dos EUA na ONU, surpreendeu
o auditório com uma afirmação estridente
no discurso de abertura, declarando que os EUA “não
aderirão a um consenso em documento final que contenha
medidas abolindo o direito constitucional de portar armas”.
O que resultou da conferência foi um “programa de
ação” aguado, não coercitivo por
meios legais. Um dos itens envolvia a venda de armas para grupos
rebeldes. A grande derrota dos defensores do controle de armas
foi a supressão do item que obrigava os governos a regulamentar
a posse de armas pela população civil. Segundo
Rebecca Peters, da IANSA, o acordo da ONU nunca seria sobre
proibição da posse de armas pela população
civil, e sim por sua regulamentação”.
Não obstante, o documento esvaziado da ONU foi uma das
maiores vitórias da sua agenda internacional. Até
aparecer o caso do Brasil.
Desarmados
Nos
cinco anos que se seguiram à conferência sobre
armas de pequeno porte em 2001, a NRA aperfeiçoou sua
mensagem, que os especialistas afirmam estar funcionando. Poucos
países implementaram as medidas recomendadas pela ONU.
Um relatório divulgado pela IANSA em julho conclui que
“o copo ainda está 95% vazio”, para os defensores
do controle. O mesmo se disse num relatório de avaliação
dois anos antes. Em vista da falta de progresso, Goldring afirma
que o movimento a favor do controle de armas “está
nas cordas. É como a gripe aviária: a preocupação
é que ela comece em algum lugar e acabe chegando aos
EUA. Opondo-se aos esforços internacionais, a NRA está
efetivamente opondo-se também aos grupos nacionais. Eu
gostaria que eles estivessem com a razão. Gostaria também
de presenciar uma onda de apoios, mas não acho que ela
vá ocorrer”.
Se for interrogada a população da Bósnia
ou de Botswana – e a do Brasil, no que se refere a esse
assunto – sobre o que estabelece a Segunda Emenda da Constituição
americana, a maioria provavelmente não terá a
menor idéia. Mas a inesperada derrota da proposta de
proibição de armas no Brasil sugere que, quando
divulgada adequadamente, a mensagem sobre “o direito de
possuir e portar armas” atinge um ponto sensível
em povos de níveis de desenvolvimento, cultura e experiência
muito diversos, mesmo que historicamente a cultura seja anti-armas.
De fato, a Segunda Emenda pode ser um artigo de exportação
mais cobiçado do que os defensores do controle querem
aceitar, especialmente em países com memória recente
de ditaduras. Quando associada com o medo de crimes –
uma preocupação premente do público na
maioria dos países em desenvolvimento – a mensagem
é sob medida para consumo de massa. Mizne, do Sou da
Paz, afirma que “o argumento é muito simples, mas
a nossa resposta exigiria outro mais complexo”. Assim,
enquanto anda à procura de detalhes, a turma pró-controle
perde terreno.
O movimento internacional pelo controle de armas não
perde sempre. Na década passada, na Austrália,
Inglaterra e Canadá – países em que a NRA
estava orientando grupos anti-controle ou ajudando-os diretamente
– medidas de controle estrito foram aprovadas com forte
apoio popular. Controles rígidos foram aprovados também
na África do Sul, embora com maior oposição.
Mas desde que a NRA começou a empenhar-se na agenda junto
à ONU, a ação pró-controle enguiçou.
O lobby pró-armas, seja da NRA ou de grupos locais por
ela inspirados, age no sentido de limitar as discussões
ao crime e ao tráfico ilícito. O grupo pró-controle
argumenta que não se pode corrigir a violência
por armas de pequeno porte sem restringir o acesso a elas. Daí
o grande congestionamento nas discussões internacionais
sobre o assunto. Os defensores do controle insistem em que não
estão interessados em reduzir os direitos dos americanos
à posse de armas: “Os EUA não apresentam
muito interesse para nós. Queremos trabalhar nos países
em que realmente possamos progredir”, afirma Rebecca Peters.
Porém, se o movimento pró-controle for mais honesto
consigo mesmo, deve saber que jamais conseguirá progredir
de fato se não transformar os EUA em meta para os seus
esforços. Cerca de metade das armas em todo o mundo são
fabricadas nos EUA, e os americanos possuem, de longe, o maior
arsenal privado de armas. Para atingir o seu objetivo de restringir
o fornecimento mundial de armas, os Estados Unidos têm
de entrar como parte da equação.
Se essa é a insuperável vantagem da NRA, por que
se preocupa ela em promover sua agenda em locais tão
distantes? Ela lhe responderá que tem um mercado global
a proteger. Mesmo que a luta não seja leal, combater
com as Nações Unidas e promover o temor de uma
conspiração armamentista global é um reforço
para o levantamento de fundos por aqui. Assim sendo, não
importa se a NRA vai ganhar no próximo referendo sobre
controle de armas, ela ganhará de qualquer modo.
David
Morton é escritor freelance trabalhando na América
do SuL
Texto
traduzido por Leôncio Cerqueira