Edição 0136 - 15 de Dezembro de 2006

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O CACHIMBO E A BOCA TORTA

Não se deve dizer que a corrupção no Brasil começou com o advento da Nova República (1985), depois que os militares dominaram a cena política por 21 anos (1964-85), passando o bastão para um presidente civil (José Sarney).

A roubalheira (o descalabro da vida político-administrativa nacional), começou bem antes.

Teve início na fundação do próprio Estado brasileiro, com a chegada de Dom João VI e a Corte portuguesa, no ano de 1808. De lá para cá, desenvolveram-se apenas novas técnicas de saqueio dos cofres nacionais, especialmente através de empréstimos e financiamentos públicos, arrancados no pesado tráfico de influência. Ninguém é punido!

Em abril de 1831, quando já se encontrava no navio inglês (Warspite), que o levaria de volta a Portugal, D. Pedro I, obrigado a abdicar da Coroa brasileira, dava bem uma mostra para a oficialidade que o acolhera de como funcionam as coisas por aqui.

Andava "pelos corredores do navio abraçado à caixa de um faqueiro de prata que pretendia vender quando chegasse à Europa". Além disso, "realizava transações, contas, avaliações, venda de títulos" e outras atividades, com "avidez minuciosa".

É só consultar o livro "D. Pedro I", da série "perfis brasileiros", escrito por Isabel Lustosa. Quando Francisco Vilela Barbosa, marquês de Paranaguá, foi ao navio lamentar que só dispunha de pequeno salário (e com a partida do Imperador iria ficar na penúria), ouviu o seguinte:
"-Faça o que quiser, não é da minha conta. Por que não roubou como Barbacena?"

O que impressiona na corrupção que se tornou endêmica é o cinismo dos que a praticam, a cara-de-pau dos principais personagens envolvidos e a passividade da população brasileira em todos os níveis. Estamos caminhando em direção a generalizado desmonte.

As pesquisas apontam possível reeleição do presidente Dom Luiz Inácio (PT-SP), já no primeiro turno. Isso, apesar de comprovadas denúncias de corrupção e de todos os crimes praticados, passíveis de impeachment.

Quando ainda imaginava correr risco de ser afastado do cargo, nosso amável beberrão emitia sinais de não pretender concorrer à reeleição, tão somente para medir a reação do distinto público. Mero jogo de cena.

Procurou ficar bem distante dos envolvidos em falcatruas que lhe pudessem causar problemas indesejados. Viu 40 membros de sua administração indiciados pelo procurador-geral da República, denunciados por "formação de quadrilha". A encabeçar a lista está seu ex-ministro Zé Dirceu (PT-SP), cassado pela Câmara dos Deputados.

Agora, nosso querido pé-de-cana já se sente novamente seguro para fazer o que quer: recebeu o ex-presidente nacional do PT José Genoíno (SP), no Palácio do Planalto, e já admite colocar Zé Dirceu como seu secretário particular, caso a votação confirme a condição de favorito nas pesquisas.

E quem faz oposição a Dom Luiz Inácio? Seu antecessor, FHC (1995-2003), responsável pela entrega de quase todas as estatais brasileiras (na bacia das almas), além de ter tido seus filhos envolvidos em falcatruas, da mesma maneira que nosso amável beberrão observa seu rebento receber milhões de reais de uma operadora telefônica.

Nas eleições marcadas para outubro próximo, alimenta-se esperança de reviravolta capaz de traçar novos rumos para o futuro do nosso país. Mas a Justiça já se declara frustrada nas iniciativas, e a prática de compra de votos segue o ritmo de pleitos anteriores. Só que, nessas atividades velhas e ruinosas, a cobrança será o desespero.

Márcio Accioly
é jornalista.
Colaboração: Cel RR PMMT Léo G. Medeiros

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