O CACHIMBO E A BOCA TORTA
Não se deve dizer que a corrupção
no Brasil começou com o advento da Nova República
(1985), depois que os militares dominaram a cena política
por 21 anos (1964-85), passando o bastão para um presidente
civil (José Sarney).
A roubalheira (o descalabro da vida político-administrativa
nacional), começou bem antes.
Teve início na fundação do próprio
Estado brasileiro, com a chegada de Dom João VI e a Corte
portuguesa, no ano de 1808. De lá para cá, desenvolveram-se
apenas novas técnicas de saqueio dos cofres nacionais, especialmente
através de empréstimos e financiamentos públicos,
arrancados no pesado tráfico de influência. Ninguém
é punido!
Em abril de 1831, quando já se encontrava
no navio inglês (Warspite), que o levaria de volta a Portugal,
D. Pedro I, obrigado a abdicar da Coroa brasileira, dava bem uma
mostra para a oficialidade que o acolhera de como funcionam as coisas
por aqui.
Andava "pelos corredores do navio abraçado
à caixa de um faqueiro de prata que pretendia vender quando
chegasse à Europa". Além disso, "realizava
transações, contas, avaliações, venda
de títulos" e outras atividades, com "avidez minuciosa".
É só consultar o livro "D. Pedro
I", da série "perfis brasileiros", escrito
por Isabel Lustosa. Quando Francisco Vilela Barbosa, marquês
de Paranaguá, foi ao navio lamentar que só dispunha
de pequeno salário (e com a partida do Imperador iria ficar
na penúria), ouviu o seguinte:
"-Faça o que quiser, não é da minha conta.
Por que não roubou como Barbacena?"
O que impressiona na corrupção que
se tornou endêmica é o cinismo dos que a praticam,
a cara-de-pau dos principais personagens envolvidos e a passividade
da população brasileira em todos os níveis.
Estamos caminhando em direção a generalizado desmonte.
As pesquisas apontam possível reeleição
do presidente Dom Luiz Inácio (PT-SP), já no primeiro
turno. Isso, apesar de comprovadas denúncias de corrupção
e de todos os crimes praticados, passíveis de impeachment.
Quando ainda imaginava correr risco de ser afastado
do cargo, nosso amável beberrão emitia sinais de não
pretender concorrer à reeleição, tão
somente para medir a reação do distinto público.
Mero jogo de cena.
Procurou ficar bem distante dos envolvidos em falcatruas
que lhe pudessem causar problemas indesejados. Viu 40 membros de
sua administração indiciados pelo procurador-geral
da República, denunciados por "formação
de quadrilha". A encabeçar a lista está seu ex-ministro
Zé Dirceu (PT-SP), cassado pela Câmara dos Deputados.
Agora, nosso querido pé-de-cana já
se sente novamente seguro para fazer o que quer: recebeu o ex-presidente
nacional do PT José Genoíno (SP), no Palácio
do Planalto, e já admite colocar Zé Dirceu como seu
secretário particular, caso a votação confirme
a condição de favorito nas pesquisas.
E quem faz oposição a Dom Luiz Inácio?
Seu antecessor, FHC (1995-2003), responsável pela entrega
de quase todas as estatais brasileiras (na bacia das almas), além
de ter tido seus filhos envolvidos em falcatruas, da mesma maneira
que nosso amável beberrão observa seu rebento receber
milhões de reais de uma operadora telefônica.
Nas eleições marcadas para outubro
próximo, alimenta-se esperança de reviravolta capaz
de traçar novos rumos para o futuro do nosso país.
Mas a Justiça já se declara frustrada nas iniciativas,
e a prática de compra de votos segue o ritmo de pleitos anteriores.
Só que, nessas atividades velhas e ruinosas, a cobrança
será o desespero.
Márcio Accioly
é jornalista.
Colaboração: Cel RR PMMT Léo G. Medeiros |