A
PASSISTA DO AGOURO
E eu vi muita coisa. Vi o Congresso ser fechado em 1 977. Vi parlamentares
arrancados da tribuna pelas cassações da ditadura.
Entre eles, Alencar Furtado, aquele que disse que sua luta era
para que não houvesse lares em prantos: "filhos órfãos
de pais vivos, ou mortos, talvez, quem sabe; órfãos
do talvez ou do quem sabe"; viúvas de maridos mortos
ou vivos, quem sabe, talvez; viúvas do quem sabe ou do
talvez". Vi Ulysses Guimarães dizer: " Tenho
ódio à ditadura; ódio e nojo". Vi Tancredo
chorar por JK. Vi mães, viúvas e órfãos
com cartazes de seus mortos e exilados clamarem por anistia.
Vi o doido manso Teotônio Vilela se rebelar contra o regime.
Vi a eleição de Tancredo, vi a Constituinte. Vi
momentos de tristezas e alegrias. Nas tristezas, ouvia o Hino
Nacional cantado com vozes enlutadas, sempre seguido nessas horas
do coro " a luta continua". A alegria ecoava em palmas
e papel picados. Mas nesta madrugada vi uma cena que nunca vou
esquecer: a deputada Ângela Guadagnin (PT-SP) dançando,
sambando como passista do agouro ao ver que o os votos apurados
já davam pra salvar de cassação o deputado
João Magno (PT-MG), um dos mensaleiros da Câmara.
Nem os canhões, fuzis e metralhadoras que tentaram desmoralizar
pela força o Congresso superariam o escárnio da
deputada. Longe do "Necrológio dos desiludidos do
amor", onde as amadas dançavam " um samba bravo,
violento, sobre as tumbas deles", a dança da deputada
é o mais imoral dos emblemas da degradação
da política brasileira. Talvez a perplexidade foi que impediu
o presidente da Câmara, Aldo Rebelo, de exigir o devido
respeito da deputada em pleno velório da Casa.
por
Jorge Bastos Moreno
Colaboração: Leo Medeiros