Edição 0100 - 23 de Dezembro de 2005
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OpiniÃO


SOB O COMANDO DE HUGO CHÁVEZ

No primeiro ano de seu mandado, o presidente Luiz Inácio aparecia como líder triunfal de esquerda não só do Brasil, como da América Latina. Além disso, ele se colocava para o mundo como um fenômeno capaz de impressionar os Estados Unidos e a Europa. Em parte essa imagem foi ardilosamente construída pela propaganda, em parte pela ambição de poder do PT que se reveste da característica paranóica tão bem analisada por Elias Canetti. O autor mostra, entre outras coisas, em sua obra-prima “Massa e Poder”, que o paranóico trata sempre de defender e assegurar para si uma posição exaltada, importante, e que o poderoso também possui esse sentimento. Essa análise se encaixa bem nesse governo transparecendo, inclusive, nas constantes viagens internacionais nas quais do presidente da República. Ele partia cercado de grandes comitivas, sendo divulgados para uso interno grandes pompas, honras, elogios e sucessos obtidos por nosso mais alto mandatário. Com tal estratégia se pretendeu também manter a alma nacional otimista e imersa em ufanismo. Isso apesar da péssima política internacional do governo petista, mergulhada em visão ideológica terceiro-mundista e que trouxe conseqüências econômicas duvidosas ou desastradas como, só para citar um exemplo, o grande negócio da China que agora está provocando temores de empresários e demissões de trabalhadores.

Qualquer alusão a esta realidade é tida como preconceito ou conspiração contra o pobre operário, que vive como um emir, simula governar o país e só aceita boas notícias. E aqui também aparece o traço paranóico do poder relativo às conspirações. Como mostrou Canetti na obra citada: “As conspirações ou conjurações estão na ordem do dia para o paranóico. Ele se sente cercado. Seu inimigo principal jamais se contentará com atacá-lo sozinho. Sempre procurará atiçar sobre ele uma malta odiosa, soltando-a no momento exato”. De certo modo isso também explica porque José Dirceu sempre fala em conspirações da oposição – que de fato não existe – e na necessidade de reagir a ela jogando na rua os movimentos sociais para defender o injustiçado presidente da República. Por movimentos sociais referidos por José Dirceu entenda-se o MST, a CUT e a UNE, todos devidamente pagos pelo governo do PT segundo se tem mostrado na imprensa.

Mas se agora as viagens internacionais não podem ser mais tão constantes, pois o presidente, em franca campanha de reeleição precisa viajar pelo Brasil fazendo inaugurações mesmo das obras de seus predecessores, pelo menos sua influência no Mercosul deveria existir visto que somos a maior economia da região. Mas nem isto está ocorrendo. O Brasil vem se curvando às imposições comerciais da Argentina e para agravar a situação, a partir da 29ª Cúpula do Mercosul, em Montevidéu (Uruguai), quando se consuma a entrada da Venezuela como quinto sócio do bloco, o Brasil poderá se ver na situação de apenas assumir os custos de projetos comuns e de se submeter às lideranças reunidas por interesses econômicos, como as de Nestor Kirchner e Hugo Chávez. Sobre essa hipótese de subalternidade ainda não se levantou no Brasil nenhuma voz nacionalista, seja de direita, seja de esquerda. Aqui se prefere o pseudo-democráta Chávez ou ditador Fidel de Castro, mas não se admite nossa participação na Alca. Sobre esse aspecto de xenofobia antiamericanista, Chávez é um sucesso e já proclamou: “Nosso destino é o mercado comum do Sul e isso é anti-Alca”. Essa fala demagógica extasia seus deslumbrados seguidores e admiradores como os integrantes das Farc, do MST, notadamente seu líder João Pedro Stédile, e governadores como Roberto Requião, do Paraná, que como homem de esquerda adora também as delícias de Paris. Até entre os norte-americanos menos aquinhoados pela prosperidade Hugo Chávez tem se intrometido para seduzi-los com promessas de benefícios. Enfim, o presidente venezuelano lidera espetacularmente o atraso latino-americano que inclui o isolamento da região e caminha na contra-mão da globalização tida como um dos males mundiais.

Tratando de armar-se até os dentes e com sonhos atômicos povoando sua mente também paranóica no sentido do poder, Chávez, que acaba de ganhar uma eleição na qual mais de 75% dos eleitores não votou, dá sinais de que não deixará o poder tão cedo. 2030 já é seu novo marco temporal de permanência no cargo. Afinal, o caudilho venezuelano já dominou os Poderes Legislativo e Judiciário, portanto, governa impávido o país a partir apenas do Executivo. Diga-se de passagem, que tal modelo também norteia o governo petista de Luiz Inácio, mas ainda não foi alcançado em plenitude apesar da politização do STF e do funcionamento dos mensalões na Câmara de Deputados no primeiro ano de mandato. O ingresso de Chávez no Mercosul certamente terá como conseqüência seu comando sobre o Brasil e os demais países do bloco. Mas enquanto a economia brasileira dá sinais de retrocesso e o país se encontra mergulhado em corrupção jamais vista, a propaganda tentará fazer crer que Luiz Inácio é o grande líder de esquerda da América Latina, quiçá do mundo. Muita gente ainda acreditará nisso.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.


 
 

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