SOB
O COMANDO DE HUGO CHÁVEZ
No
primeiro ano de seu mandado, o presidente Luiz Inácio
aparecia como líder triunfal de esquerda não só
do Brasil, como da América Latina. Além disso,
ele se colocava para o mundo como um fenômeno capaz de
impressionar os Estados Unidos e a Europa. Em
parte essa imagem foi ardilosamente construída pela propaganda,
em parte pela ambição de poder do PT que se reveste
da característica paranóica tão bem analisada
por Elias Canetti. O autor mostra, entre outras coisas, em sua
obra-prima “Massa e Poder”, que o paranóico
trata sempre de defender e assegurar para si uma posição
exaltada, importante, e que o poderoso também possui
esse sentimento. Essa
análise se encaixa bem nesse governo transparecendo,
inclusive, nas constantes viagens internacionais nas quais do
presidente da República. Ele partia cercado de grandes
comitivas, sendo divulgados para uso interno grandes pompas,
honras, elogios e sucessos obtidos por nosso mais alto mandatário.
Com tal estratégia se pretendeu também manter
a alma nacional otimista e imersa em ufanismo. Isso apesar da
péssima política internacional do governo petista,
mergulhada em visão ideológica terceiro-mundista
e que trouxe conseqüências econômicas duvidosas
ou desastradas como, só para citar um exemplo, o grande
negócio da China que agora está provocando temores
de empresários e demissões de trabalhadores.
Qualquer
alusão a esta realidade é tida como preconceito
ou conspiração contra o pobre operário,
que vive como um emir, simula governar o país e só
aceita boas notícias. E aqui também aparece o
traço paranóico do poder relativo às conspirações.
Como mostrou Canetti na obra citada: “As conspirações
ou conjurações estão na ordem do dia para
o paranóico. Ele se sente cercado. Seu inimigo principal
jamais se contentará com atacá-lo sozinho. Sempre
procurará atiçar sobre ele uma malta odiosa, soltando-a
no momento exato”. De certo modo isso também explica
porque José Dirceu sempre fala em conspirações
da oposição – que de fato não existe
– e na necessidade de reagir a ela jogando na rua os movimentos
sociais para defender o injustiçado presidente da República.
Por movimentos sociais referidos por José Dirceu entenda-se
o MST, a CUT e a UNE, todos devidamente pagos pelo governo do
PT segundo se tem mostrado na imprensa.
Mas
se agora as viagens internacionais não podem ser mais
tão constantes, pois o presidente, em franca campanha
de reeleição precisa viajar pelo Brasil fazendo
inaugurações mesmo das obras de seus predecessores,
pelo menos sua influência no Mercosul deveria existir
visto que somos a maior economia da região. Mas nem isto
está ocorrendo. O Brasil vem se curvando às imposições
comerciais da Argentina e para agravar a situação,
a partir da 29ª Cúpula do Mercosul, em Montevidéu
(Uruguai), quando se consuma a entrada da Venezuela como quinto
sócio do bloco, o Brasil poderá se ver na situação
de apenas assumir os custos de projetos comuns e de se submeter
às lideranças reunidas por interesses econômicos,
como as de Nestor Kirchner e Hugo Chávez. Sobre
essa hipótese de subalternidade ainda não se levantou
no Brasil nenhuma voz nacionalista, seja de direita, seja de
esquerda. Aqui se prefere o pseudo-democráta Chávez
ou ditador Fidel de Castro, mas não se admite nossa participação
na Alca. Sobre
esse aspecto de xenofobia antiamericanista, Chávez é
um sucesso e já proclamou: “Nosso destino é
o mercado comum do Sul e isso é anti-Alca”. Essa
fala demagógica extasia seus deslumbrados seguidores
e admiradores como os integrantes das Farc, do MST, notadamente
seu líder João Pedro Stédile, e governadores
como Roberto Requião, do Paraná, que como homem
de esquerda adora também as delícias de Paris.
Até entre os norte-americanos menos aquinhoados pela
prosperidade Hugo Chávez tem se intrometido para seduzi-los
com promessas de benefícios. Enfim, o presidente venezuelano
lidera espetacularmente o atraso latino-americano que inclui
o isolamento da região e caminha na contra-mão
da globalização tida como um dos males mundiais.
Tratando
de armar-se até os dentes e com sonhos atômicos
povoando sua mente também paranóica no sentido
do poder, Chávez, que acaba de ganhar uma eleição
na qual mais de 75% dos eleitores não votou, dá
sinais de que não deixará o poder tão cedo.
2030 já é seu novo marco temporal de permanência
no cargo. Afinal, o caudilho venezuelano já dominou os
Poderes Legislativo e Judiciário, portanto, governa impávido
o país a partir apenas do Executivo. Diga-se de passagem,
que tal modelo também norteia o governo petista de Luiz
Inácio, mas ainda não foi alcançado em
plenitude apesar da politização do STF e do funcionamento
dos mensalões na Câmara de Deputados no primeiro
ano de mandato. O
ingresso de Chávez no Mercosul certamente terá
como conseqüência seu comando sobre o Brasil e os
demais países do bloco. Mas enquanto a economia brasileira
dá sinais de retrocesso e o país se encontra mergulhado
em corrupção jamais vista, a propaganda tentará
fazer crer que Luiz Inácio é o grande líder
de esquerda da América Latina, quiçá do
mundo. Muita gente ainda acreditará nisso.
Maria
Lucia Victor Barbosa é socióloga.