ÉTICA
DA MALANDRAGEM
A Copa do Mundo acabou
mais cedo para o Brasil. Perdido o jogo para os franceses parecia
que o mundo se findara entre gritos, lamentações
e lágrimas. Nem os ataques do PCC e sua matança
de agentes penitenciários, nem os mensalões com
os quais o governo do PT agraciou parlamentares que venderam
seu voto e traíram o povo por trinta moedas ou bem mais,
nem o peso dos impostos que levam 40% do que é produzido
por todos nós, nem os escândalos que enodoaram
a República de forma vexatória, nem a corrupção
galopante que faria corar qualquer bandido de outras terras
produziram a hecatombe de sentimentos que se viu na derrota
futebolística. Patriotismo aqui é só no
futebol. Bandeira brasileira tremula apenas na batalha campal
travada pelos pés de nossos jogadores. Do verde-amarelo
se foi ao luto. Do riso fez-se o pranto. Da esperança,
desencanto.
O jeito foi mudar de
país. Como o técnico de Portugal era o brasileiro
Felipão, nos tornamos todos portugueses desde criancinhas.
Sublimamos a própria derrota para poder suportá-la
transferindo para outro time nosso orgulho nacional que só
se externa em Copas do Mundo. E como se torceu pela antiga metrópole.
Ao final da partida outra dolorosa frustração:
Portugal também perdeu. Inominável dor. Fomos
derrotados pela segunda vez.
Se torcer por nossos
jogadores quando defrontados com os de outros países
é mais que natural, se o entusiasmo pelo esporte é
sadio, temos, porém, um exagero que raia ao fanatismo
quando se trata de futebol. Apenas levamos a sério carnaval
e futebol enquanto somos extremamente displicentes com assuntos
políticos. Nosso voto é fútil. Nosso empenho
em ter um projeto comum de país é inexistente,
exceto quando se trata de partidas mundiais de nosso adorado
esporte nacional. E não basta dizer que fomos intoxicados
pelo invasivo martelar da TV a mostrar dia e noite os acontecimentos
ligados à Copa. Isso funciona, e muito, mas não
funcionaria se não fossemos tão pobres em valores.
Tão parcos em heróis de verdade, tendo que nos
satisfazer com jogadores de futebol transformados em ídolos.
Faltam tradições mais sólidas a esse país
grande que ainda não se transformou num grande país
porque não soubemos construí-lo grandioso.
Em meu primeiro livro,
“O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto – A ética
da malandragem”, editado por Jorge Zahar no já
longínquo ano de 1988, cheguei a algumas conclusões
que, infelizmente, não mudo agora, e que também
servem para explicar, entre outras coisas, porque apenas o futebol
nos empolga tanto ou porque elegemos um presidente dotado da
mais impressionante ética da malandragem. Por que admiramos
sua esperteza. Porque rimos quando ele nos passa para trás
ou nos manda levantar o traseiro. Porque muitos de nós
querem reelegê-lo. Porque adoramos suas mentiras, suas
piadas grosseiras, sua incapacidade de falar corretamente. Na
ilusão de que ele é um homem comum e pobre, a
maioria dos brasileiros põe Lula lá pensando que
vai à forra contra os ricos, o capitalismo indecente,
os porcos ianques, a nefanda goblalização e um
tal de neoliberalimo. E para melhor nos entender conclui naquele
meu livro, entre outras coisas, que:
Na verdade todos nós
compactuamos com o sistema dentro do qual a massa de miséria
sofre as mesmas influências passadas e presentes que nunca
fizeram de nós um “povo guerreiro”. Os mais
pobres como os mais abastados, geralmente aspiram a partir de
suas necessidades peculiares e com a mesma voracidade nunca
saciada, facilidades preferivelmente alcançadas por esperteza
ou doação de alguma autoridade paternal. É
que não temos de modo geral o sentido de conquista no
tocante ao esforço pessoal, não nos faltando,
porém, a capacidade predatória. Não sabemos
na maior parte das vezes exercer o poder, mas tão-somente
nos beneficiar do poder. Não temos senso das medidas,
sendo capazes de passar de um extremo ao outro sem avaliar as
conseqüências de nossos atos. Afetamos cordialidade,
mas sabemos ser violentos. Imitamos com facilidade, nos deixando
levar por modismos. Simulamos democracia, mas somos autoritários.
Preferimos sempre culpar alguém ou algo para nos eximirmos
de nossas responsabilidades. Abusamos da liberdade em invés
de usufruí-la. Convivemos com um Estado corrupto e inepto
por nosso comodismo.
Naturalmente temos exceções.
Gente humilde que é trabalhadora e honesta. Lideranças
que se agigantam na tentativa de romper com o ranço da
mentalidade antiprogressista. Elites intelectuais. Temos nossas
“aristocracias” significando arisotoi: os melhores.
Mas serão essas minorias excelentes capazes de preencher
a lacuna entre a classe dirigente e a massa, no sentido de romper
com a mentalidade do atraso? De ultrapassar a ética malandragem,
segundo a qual quem não rouba é burro, e bom governante
é o que rouba, mas faz? Eis questão.
Maria
Lucia Victor Barbosa é socióloga.