LULA,
O CANDIDATO DE HUGO CHÁVEZ
A
ida de Luiz Inácio a São Petersburgo, na Rússia,
neste mês de julho, passou a impressão que o brasileiro
falaria de igual para igual no clube do G-8 composto pelos poderosos
da Terra. Ledo engano. O presidente foi lá apenas como
convidado juntamente com a China, o México, a Índia,
a África do Sul e o Congo. E suas eternas cobranças
aos países ricos, para que favoreçam os mais pobres,
caíram no vazio. Já se foi o tempo em que Sua
Excelência causava certa curiosidade, sobretudo, em países
europeus. Talvez, por conta da tendência dos antigos colonizadores
de valorizarem o folclore. Hoje é Evo Morales, presidente
da Bolívia, com suas blusas de lã coloridas e
suas jaquetas de couro cuidadosamente escolhidas por estilistas,
que obtém maior sucesso.
Sem
se impor na questão dos pré-acordos da Rodada
de Doha, que em ocasião passada foi obstaculizada pelo
Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim,
o presidente dedicou-se ao turismo. Entre outros passeios visitou
o museu Hermitage, a catedral de Santo Isaac e fez uma de suas
indefectíveis brincadeirinhas diante da estátua
de Pedro, o Grande. Disse ao chefe do cerimonial do Planalto,
embaixador Paulo César de Oliveira Campos, conhecido
como POC, que ele nunca seria imperador porque tinha só
um metro e sessenta, enquanto o governante da Rússia
era alto. Pelo visto, Sua Excelência também nunca
será imperador.
Em
que pese a agradável parte turística, Luiz Inácio
teve o dissabor de ser repreendido duramente por seu amigo francês,
presidente Jacques Chirac. Este criticou a falta de flexibilidade
do brasileiro e deixou bem claro que, apesar de sua amizade
o comércio é um capítulo à parte,
e que não haveria nenhuma confiança entre França
e Brasil diante do tema. Chirac disse ainda: “O presidente
Lula pensa da seguinte forma: ‘o que é meu é
meu; o que é dos demais é negociável”
(O Estado de S. Paulo, 18/06/2006).
Depois
do fiasco em Petersburgo, pois Luiz Inácio não
conseguiu sequer enxertar os combustíveis alternativos
no Plano de Ação de Segurança Energética
montado pelo G-8, veio o consolo. O presidente Bush disse que
ele estava bem, referindo-se ao fato de que Sua Excelência
perdera alguns quilos. E assim terminou mais essa viagem, paga
por nós, contribuintes. Não é à-toa
que nossos impostos são tão pesados.
Mas
viajar é bom e Luiz Inácio rumou, dia 20 deste,
à Córdoba, Argentina, para o encontro com membros
do abalado Mercosul. Presentes estrelas socialistas como Evo
Morales, Michelle Bachelet e o aguardado Fidel Castro que representará
o museu das revoluções latino-americanas equivocadas,
ou seja, o secular atraso do continente e sua tendência
autoritária. Mas a maior de todas as estrelas socialistas,
Hugo Chávez, o quinto sócio do agonizante Mercosul,
com seu fulgor sem concorrência, é quem demonstrará
aos presentes quem manda realmente.
Com
seus petrodólares Chávez tornou-se o grande pai
magnânimo da região e, armado até os dentes,
possivelmente já tem o maior Exército da América
do Sul, o qual pretende ampliar com os chamados movimentos sociais
dos países vizinhos que estarão unificados sob
o comando do tenente-coronel venezuelano.
Como
um Hitler subdesenvolvido Chávez tem ímpetos conquistadores
e sua obsessão, de cunho paranóico, é minar
o poderio norte-americano com a ajuda dos vizinhos, o que inclui
o Brasil. Desse modo, a reunião de Córdoba é
mais um palco iluminado para Chávez pontificar contra
os Estados Unidos e arregimentar fervorosos adeptos sul-americanos.
E para demonstrar ainda mais seu prestígio, o presidente
da Venezuela convocou os movimentos sociais que o saudarão
num monumental comício de milhares de pessoas.
A
reunião de Córdoba, mesmo que não pareça,
significa o fim do Mercosul e a ascensão da Alba (Alternativa
Bolivariana para as Américas) que substitui a Alca, dos
Estados Unidos e foi acertada anteriormente entre o venezuelano,
Fidel Castro e Evo Morales. O próprio Chávez deixou
tudo muito claro ao dizer: “Depois de Córdoba,
haverá outro Mercosul”, enquanto “a imprensa
cubana assinalava a afinidade de Fidel Castro com a ‘nova
cara do Mercosul’ e afirmava que com a Venezuela abria-se
‘um novo horizonte de integração”
(Folha de S, Paulo, 21/07/2006). Em outro momento Chávez
declarou aos jornalistas, ao chegar em Córdoba: “essa
será a Cúpula dos povos latino-americanos”.
“Vamos escrever a nova história da América
Latina” (O Estado de S, Paulo, 21/07/2006).
Portanto,
se o presidente Luiz Inácio não teve holofotes
entre os primos ricos, também os perdeu entre os primos
pobres. Foi ofuscado por Chaves, em que pese ser seu candidato.
Ao venezuelano, sem duvida, interessa Lula-lá de novo
e tudo fará ao seu alcance para apoiar o companheiro.
São
essas coisas que sempre me trazem à memória as
palavras de Simón Bolívar, pronunciadas em 1830:
“Se acontecesse que uma parte do mundo voltasse ao caos
primitivo, isso seria a última metamorfose da América
Latina”,
Maria
Lucia Victor Barbosa é socióloga.