QUADRADO
TRÁGICO
Conforme
analisei em um dos meus livros, “América Latina
– em busca do paraíso perdido", entre 1810
e 1824, aconteceu o processo de independência das colônias
hispânicas e a situação que daí se
originou marcou o destino dos futuros países latino-americanos:
findou-se um equilíbrio e outro não surgiu em
seu lugar.
Um fato marcante daquela
época que se esvaía sob o estilhaçamento
do império espanhol foi o nascimento das repúblicas
sob a égide dos caudilhos. Eles emergirão das
guerras da independência, lutando à frente dos
seus bandos armados. Bastante numerosos de início serão
reduzidos, submetidos pouco a pouco por supercaudilhos. Surge
a era de um Rosas na Argentina, de um Porfírio Díaz
no México e de outros mais. Eles foram o protótipo
dos futuros ditadores latino-americanos e sua “pedagogia
política” foi feita na mesma linha de violência
e autoritarismo, de intolerância e brutalidade dos conquistadores
espanhóis e das sociedades pré-colombianas mais
evoluídas.
Tudo isso significa que
as “revoluções” das oligarquias nativas
continham muito mais o elemento da tradição que
o da mudança. O que se desejava alterar era a composição
do poder e não a sua essência. Assim, a partir
da “Espanha invertebrada” (expressão de Ortega
y Gasset), não houve na América espanhola independente
a “comunidade de propósitos” que faz com
que grupos integrantes “convivam não por estar
juntos, mas sim por fazer algo juntos”, conforme o lapidar
pensamento orteguiano. E, nas nascentes sociedades invertebradas,
o isolamento entre as camadas sociais, a falta de “minorias
seletas” que comandassem o processo emancipatório,
a inexistência de espírito associativo (substituído
pela vivência do pequeno mundo familiar ou clânico),
gerarão o desequilíbrio estrutural cujas manifestações
mais graves são sentidas até hoje: o atraso econômico,
o individualismo, a desconfiança generalizada, o populismo,
o nacionalismo xenófobo, a tendência autoritária,
os Estados leviatânicos incompetentes e corruptos.
Se a Espanha foi um “licor
forte” para suas colônias, nós bebemos o
“vinho verde e leve” de Portugal. Sem o radicalismo
espanhol viemos ao mundo marcados por um certo desleixo, pela
plasticidade de costumes e também pela veleidade que
nos faz “ser e não ser, ir e não ir, indefinição
de formas e vontade criadora”, conforme Raymundo Faoro.
Porém, se somos primos e não hermanos dos nossos
vizinhos, se nos diferenciamos do restante da América
Latina pela nossa dimensão territorial e fatos de nossa
história como, por exemplo, a presença da corte
Portuguesa em território nacional e a ausência
da participação popular em nosso processo de emancipação
de Portugal, guardamos certos traços comuns com os citados
acima, que por outras vias históricas marcaram a América
Espanhola.
Desse modo, a situação
que hoje existe na América Latina como um todo reproduz
em muitos aspectos a continuidade da mentalidade do atraso que
sempre nos caracterizou. Permanece a atração por
caudilhos autoritários e líderes populistas; a
defesa do pai Estado que nos castiga com seus monopólios,
seus impostos exorbitantes, sua burocracia asfixiante; a corrupção
endêmica de nossos governos; o ódio aos Estados
Unidos como sublimação de nossas mazelas; a incapacidade
de romper o atraso político e econômico; as quimeras
revolucionárias que sempre prometeram o paraíso
e geraram o inferno; a falta de minorias seletas capazes de
nos dotar de um projeto comum.
Quanto ao palco político,
desenhou-se por essas plagas um quadrado trágico que
por sua característica ideológica de fazer a América
Latina dissociar-se em termos comerciais e políticos
dos países mais desenvolvidos, de cultivar traços
populistas e paternalistas que mantém os pobres sempre
pobres através das caridades oficiais, de apresentar
vezo estatizante e forte tendência autoritária,
arrasta os latino-americanos pela contra-mão da historia.
O quadrado trágico
é composto pela Venezuela, Bolívia, Cuba e Brasil,
respectivamente governados por Hugo Chávez, Evo Morales,
Fidel Castro (ressuscitado por Chávez no que foi apoiado
pelo presidente brasileiro) e Luiz Inácio Lula da Silva.
Evidentemente esses presidentes
possuem pesos políticos diferenciados no cenário
latino-americano. Mas, infelizmente, o Brasil, que por tanto
tempo e dada sua envergadura econômica salientou-se como
líder natural da América Latina, hoje segue a
reboque de Hugo Chávez. Este ajudou eleger Evo Morales,
amargou derrotas de seus candidatos no Peru e no México
e agora apóia Luiz Inácio.
O quadro é trágico
porque conduz aos confins do subdesenvolvimento. É preciso,
pois, frear sua escalada. No nosso caso temos uma “arma”
ao nosso alcance para fazer isso: o voto.
Maria
Lucia Victor Barbosa é socióloga.