Brasil
doente? Ministro Mello, corrupção governamental
e apatia
A
poucos meses das eleições presidenciais, esclarecer
o enigma da apatia na sociedade brasileira é de fundamental
importância não só para os rumos dessa grande
e querida nação que é o Brasil, como para
os de toda a América Latina.
1.
O Brasil vive "tempos muito estranhos", nos quais
tornou-se "quase banal" a sucessão de notícias
diárias de "indiciamento de autoridades dos diversos
escalões", não só "por um crime,
mas por vários", deixando à luz do dia uma
"rotina de desfaçatez e de indignidade" que
"parece não ter limites". Tudo isso estaria
trazendo uma grave e inesperada conseqüência psicológica
e moral em vastos setores da vida brasileira: em lugar de uma
indignação proporcional das pessoas, inclusive
de um clamor contra essa corrupção generalizada,
se vai produzindo "uma apatia cada vez mais surpreendente",
como se "tudo isso fosse muito natural e devesse ser assim
mesmo", com os cidadãos aplicando a "tática
do avestruz" e passando a viver "como se nada estivesse
acontecendo".
Esta
análise da realidade brasileira, que tratou-se de sintetizar
respeitando o contexto em que foi formulado, pertence ao presidente
do Tribunal Superior Eleitoral do Brasil, ministro Marco Aurélio
Mello, em recente discurso ao assumir esse alto cargo, a poucos
meses das eleições nacionais. Que nos conste,
tal diagnóstico não recebeu a atenção
que merecia, não só por provir de um alto magistrado,
senão pela importante e inesperada relação
de causa e efeito que estabelece entre a avalanche de denúncias
de corrupção e a crescente apatia em setores importantes
da população brasileira.
2.
A descoberta da corrupção ocorreu em meados de
2005 quando o deputado Roberto Jefferson, do partido PTB, tornou
pública a existência de uma gigantesca rede de
arrecadação ilegal de dinheiro organizada pelo
governante Partido dos Trabalhadores (PT), desviando somas milionárias
de empresas públicas, privadas e instituições
financeiras para sustentar um sistema de compra de votos de
deputados de diversos partidos - o chamado "mensalão",
consistente em uma generosa propina mensal - com o objetivo
de obter a aprovação legislativa dos projetos
do PT e assegurar sua continuidade no poder pelos próximos
10 a 15 anos. Apesar desse esquema ter sido organizado por figuras
entre as mais próximas ao presidente Lula, este, até
hoje, afirma que não sabia de nada.
É
diante dessa situação que o presidente do Tribunal
Superior Eleitoral do Brasil, constata essa enigmática
indiferença, em vez de uma natural reação
de repúdio, de setores importantes da população.
3.
Os sintomas de que a sociedade brasileira parece estar doente,
com seu próprio instinto de conservação
debilitado, são múltiplos. Nesse sentido, a revista
brasileira "Observatório da Imprensa" destaca
o diagnóstico feito por Sílvio de Abreu, roteirista
de várias novelas estelares da TV Globo, baseado em pesquisas
efetuadas pela emissora, de que "a moral do Brasil está
em frangalhos". O Sr. Abreu dá, entre outras provas,
a de que até algum um tempo atrás os telespectadores
se identificavam com os personagens bons, porém hoje
muitos se identificam com os desonestos e os moralmente reprováveis.
Abreu observa que essa maior tolerância dos telespectadores
"com os desvios de conduta tem tudo a ver com os escândalos
recentes da política" e conclui que "o simples
fato de o presidente Lula dizer que não sabia nada de
nada e não viu as mazelas trazidas à tona pelas
CPIs e pela imprensa, já basta, as pessoas fingem que
acreditam porque acham mais conveniente que fique tudo como
está".
4.
A esse respeito, o "Observatório da Imprensa"
observa que a minoria que percebe essa deterioração
moral não encontra meios adequados para realizar o alerta,
e está em uma situação análoga à
de "sentinelas que percebessem o avanço dos bárbaros
às portas de Roma e não pudessem alertar a cidade
para o perigo", entre outras razões, "porque
os destinatários do aviso não querem saber de
alerta algum".
5.
Quando em 1992 transpiraram notícias de corrupção
no seio do governo do então presidente Fernando Collor,
o país começou a viver um clima de efervescência
que se refletiu, inclusive, em protestos pacíficos de
rua que levaram a Câmara dos Deputados e o Senado a votar
o "impeachment" do presidente e a suspender seus direitos
políticos por 8 anos. Isto parece ser um efeito contrário
ao que hoje se estaria produzindo em setores da população
brasileira, a propósito da corrupção no
governo do atual presidente Lula.
6.
Colocados estes elementos de juízo, são nossos
leitores brasileiros quem estão em condições
de analisar se tais elementos são objetivos e, neste
caso, detectar e explicar os mecanismos psicológicos
pelos quais a indignação natural foi-se transformando
em apatia psicológica e em paralisia do raciocínio
moral.
A
poucos meses das eleições presidenciais, esclarecer
esse enigma no seio da sociedade brasileira é de fundamental
importância não só para os rumos dessa grande
e querida nação que é o Brasil, como para
os de toda a América Latina.