SOB O SIGNO DO CAOS
Se
o primeiro mandato do PT foi medíocre em crescimento, marcado
por uma profusão de escândalos de corrupção,
escudado em propaganda enganosa que deturpou dados e iludiu eleitores,
o segundo já começa sob o signo do caos.
A situação caótica é
mostrada de forma mais evidente através do apagão
aéreo. Esse transtorno que inferniza a vida de milhões
de brasileiros que utilizam vôos domésticos e internacionais,
teve origem na queda do Boeing da Gol, tragédia na qual 154
pessoas morreram.
Sobre o infausto acontecimento, até agora
não esclarecido, a primeira versão ventilada pelo
ministro da Defesa, Waldir Pires, era a de que a culpa do acidente
pertencia aos pilotos norte-americanos do jato Legacy que bateu
no Boeing.
Os pilotos continuam com seus passaportes presos
e impossibilitados de saírem do Brasil, e esse tratamento
dado a criminosos deve fazer os compatriotas nacionalistas se rejubilam.
Eles acreditam piamente que os culpados foram aqueles americanos
maus e terroristas, que por um ataque de ruindade resolveram aniquilar
a vida de 154 brasileiros inocentes. Um julgamento que, na verdade,
se repete em tudo de ruim que nos acontece, porque é sempre
mais fácil atribuir culpas do que nos responsabilizarmos
por nossos próprios erros e mazelas.
Acrescente-se o antiamericanismo que foi exacerbado
no governo petista, fiel cultor de Fidel Castro e de seu herdeiro
Hugo Chávez, e não fica difícil concluir que
o julgamento antecipado do ministro da Defesa fez sucesso. Estimulados
por tais coisas, os advogados das vítimas do Boeing já
entraram com pedido de indenização nos Estados Unidos.
Entretanto, o acidente ainda está longe de uma real elucidação,
conforme aponta um relatório preliminar:
“O Legacy falou uma vez com o controle
de vôo em Brasília às 15h51 e, apesar de sua
identificação ter sumido do radar às 16h02,
só começou a ser contado por rádio pela torre
às 16h26, quase meia hora antes do acidente. Não se
sabe porque a torre demorou tanto para tentar contato. Das 28 tentativas,
só uma teve sucesso parcial. O Legacy voava a 37 mil pés,
altitude igual a do Boeing. Devia ter passado a 36 mil pés
em Brasília e depois para 38 mil pés. O relatório
não esclarece porque Brasília não avisou o
controle em Manaus para que alertasse o Boeing” (Folha de
S. Paulo, 17/11/06).
Mais estranhezas, contudo, permeiam o apagão
aéreo indicando que o caos pode ser mais profundo. Vejamos
resumidamente quais são elas:
1ª) O ministro da Defesa solapou a autoridade da Aeronáutica
ao tratar com os operadores de vôo, a maioria militar, sem
a presença do comandante da Aeronáutica e de oficiais.
2ª) O ministro pareceu querer sindicalizar a questão,
sendo que as FFAA não podem ser sindicalizadas, pois isso
desvirtuaria suas funções constitucionais.
3ª) O ministro da Defesa parece não querer entender
que “operação-padrão” significa
greve, ou seja, grave insubordinação relacionada á
hierarquia militar. Imagine-se, só para ilustrar, que numa
hipotética guerra o general desse a ordem para as tropas
avançarem e os soldados dissessem: “não vamos,
estamos em greve”.
4ª) As FFAA, cujas condições salariais
e materiais são cada vez mais precárias, têm
com o apagão aéreo sua ruptura acelerada e sua ideologização
acentuada. Será fácil, daqui a pouco, os militares
brasileiros baterem continência para Hugo Chávez na
zona militarizada que este vai criar na América Latina com
o apoio dos países amigos.
Enquanto isso o presidente reeleito se diverte com a angústia
dos ministros que querem ficar e com a ambição dos
que querem entrar. Não lhe importa se a demora de sua decisão
possa ocasionar o caos administrativo num país que já
não prima por competência em gestão pública.
Tão pouco importa ao reeleito se o MST acelera com ímpeto
as invasões de terras, contidas durante a campanha para preservá-lo.
O caos no campo, com conseqüências nefastas para o agronegócio
já abalado pela incompetência governamental, não
conta. E num governo que se recusa a cortar gastos e, portanto,
a crescer, restará ao país o caos, sobretudo, para
a classe média já tão penalizada pelo desemprego
e pelos altos impostos.
O governo Luiz Inácio em seu segundo mandato
parece se esmerar em nivelar por baixo. Não existem oposições
para conter essa tendência. Não temos partidos políticos
na expressão correta do termo. Não possuímos
instituições que funcionem como anteparo entre o povo
e o arbítrio governamental. O último bastião
de resistência, a imprensa, está correndo sério
risco no tocante à liberdade de expressão. Quanto
ao povo, mais de 58 milhões de eleitores recompensaram a
mediocridade.
Mas nada acontece de forma aleatória. A quem
interessa o caos? A resposta fica com os leitores desse breve texto,
se puderem ou quiserem dá-la.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
mlucia@sercomtel.com.br
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