DÉFICIT MORAL
A
entrevista de Roberto Jefferson ao programa Roda-Viva, da TV
Cultura, ontem à noite, só aumentou a minha convicção
de que o deputado está desprovido de qualquer virtude
na sua luta contra o quarteto fantástico do PT, formado
por José Dirceu, Delúbio Soares, José Genoino
e Silvio Pereira. Sua cara amarrada e seu olhar sombrio são
os de um homem tomado pelo ódio, traído, disposto
a ir às últimas conseqüências para
realizar a sua vingança. Esse homem é um perigo
para seus inimigos, mas também para toda Nação.
Segredos políticos são como os segredos dos consultórios
dos psicanalistas: não se pode falar deles sem um mergulho
na lama humana.
Nem
coragem vi naquele homem irado, vi temeridade. Vi força,
mas não aquela contrabalançada pela sensatez e
pela temperança. Tudo pode, mas nem tudo deve, alertava
Paulo, o apóstolo que sabia da alma humana. O vale-tudo
de Roberto Jefferson deverá provocar um troco proporcional,
que já tarda e me surpreende pela reação
tardia. Estamos vendo os mais baixos instintos humanos em ação,
envolvendo poder e dinheiro.
Apenas
rememorando. Jefferson denunciou o quarteto fantástico
porque teve espaço de poder reduzido e entendeu que a
gravação feita nos Correios estava a mando da
Casa Civil, a fim de destruí-lo politicamente. Reagiu
desproporcionalmente aos fatos, gerando a maior crise política
das últimas décadas, com potencial de provocar
a cassação de dezenas de deputados e de pôr
a legitimidade de nosso sistema político em cheque. Um
assunto entre facções rivais dos corredores da
corrupção foi dado a conhecimento público
de forma acidental. Não há grandeza alguma em
Jefferson. Vi naquela cadeira um homem acuado e disposto a reagir
no limite. Nada de bom pode sair de uma alma assim.
Fica
a crise política, que pode ter como conseqüência
uma melhoria moral nas nossas práticas políticas.
Mas devo dizer que não acredito nisso. O poder será
sempre corrupto, nojento, e tenho suspeição sobre
aqueles que o buscam em nome de uma suposta beatitude. Esses
são os piores, como bem mostra a longa história
petista. A única maneira de reduzir a corrupção
é reduzindo o poder público ao menor espaço
possível.
Jefferson
falando mal de Dirceu é o sujo falando do mal lavado.
Ambos certamente estão certos ao apontar os defeitos
recíprocos. Merecem-se.
***
Não posso deixar de comentar a entrevista da nova ministra
da Casa Civil, Dilma Rousseff, publicada hoje na Folha de São
Paulo. Uma confissão de amoralidade e de auto-ilusão
sobre a sua ação política como guerrilheira
armada. Lembremos que não era brincadeira: nossa guerrilha
matava friamente, seqüestrava, assaltava bancos, quartéis.
Roubava residência. Denegria as autoridades constituídas.
Tudo na calada, à traição, como é
próprio desse tipo de ação, sacrificando
muita gente inocente. Ela, todavia, só tem palavras de
reprovação para os militares que lhe deram combate
e venceram, cometeram o supremo pecado de ganhar a guerra, em
face da fraqueza do inimigo traiçoeiro.
Ela
afirma, fazendo o balanço de suas ações
e a dos seus companheiros: “O que nos caracteriza é
ter ousado querer um país melhor”. Pela guerrilha,
pela traição à Pátria, pela violência,
pelo ideal comunista? Ora, a única coisa que caracteriza
os bandos armados integrados pela ministra é o desamor
à vida, a sede de poder, o fascínio pela aventura,
a irresponsabilidade diante da sociedade e da Pátria.
Ela não queria um país melhor, queria simplesmente
o poder, o qual agora, de fato, dispõe. E o governo dela
e de seus companheiros que chegaram “lá”
com o Lula já mostraram que são políticos
iguaiszinhos aos outros. Os escândalos diários
levam a crer que podem ser até piores. Se Jefferson tiver
um mínimo de provas para as suas acusações
ficaremos sem Congresso por excessos de cassações
e até sem presidente da República. O sangue foi
derramado inutilmente.
Um
país melhor uma ova, ela queria. Um país pior,
mergulhado no opróbrio mais vil.
José
Nivaldo Cordeiro
www.nivaldocordeiro.org
Colaboração: CABU