A CORTE DO BOBO.
Antigamente,
em grandes produções cinematográficas norte-americanas,
quando eram retratados suntuosos palácios, nas cenas
que incluíam o trono real era comum a figura do chamado
bobo da corte. Ainda sem a preocupação com o politicamente
correto, o tal bobo vinha quase sempre como um anão ou
como um corcunda. Outras vezes, pintavam-no como se tivesse
retardo mental, fazendo-o careteiro ou desentendido de tudo
que ocorresse a seu redor. Suas aparições tinham
o propósito de fazer a platéia rir, mostrando-o
como o encarregado de divertir o rei e seus áulicos.
Esse bobo era personagem sem importância na vida e no
enredo. Com o tempo e o advento das mais diversas formas de
censura comportamental, desnecessário dizer que o tipo
desapareceu. Até porque as cortes, hoje em dia, já
não têm a pompa de antanho, sufocados reis e rainhas
pela autoridade maior dos primeiros-ministros que, em verdade,
são os governantes.
Se já não temos o bobo da corte, parece-nos lícito
perguntar se, nos dias em que vivemos em nosso Brasil, não
estamos diante da corte de um bobo. Nosso presidente, apedeuta
confesso, declarou há pouco, em solenidade no Nordeste,
que a gente não deve estar preocupado em dizer bobagens,
mas deve cuidar para não faze-las. Que ele é pródigo
em dizer bobagens todos sabemos, porque acompanhamos seus discursos
diários. Com regular freqüência, a Internet
se encarrega de espalhar suas pérolas literárias
como: “...aqui, no continente árabe...”,
“...minha mãe nasceu analfabeta...”, “...esta
cidade é tão limpinha que nem parece que estamos
na África...” etc, etc. Além disso, muitas
de suas assertivas não têm nenhum embasamento e
ele as espalha confiando em que a maioria de seus ouvintes tem
um nível cultural baixo e, praticamente, nenhuma capacidade
de contestar o que lhe é dito. Seus números e
suas ações são sempre inéditos nos
mais de quinhentos anos da história do Brasil. Nunca
ninguém fez tanto, nunca ninguém fez de forma
tão brilhante, nunca ninguém realizou tudo tão
rapidamente. E não se sabe de onde tira tanta certeza.
Seus cortesãos não sabem, mas o aplaudem, porque
é mais fácil conviver com um néscio e dele
se aproveitar do que encarar o confronto com quem sabe o que
quer e não se presta a pantomimas.
Agora,
estarrecidos, vimos sua entrevista a uma jornalista brasileira,
na França, em que admitiu que seu partido era controlado
por militantes de segunda categoria, porque os de primeira linha
tinham sido absorvidos pelos governos federal, estaduais e municipais,
conquistados nas últimas eleições. Não
sei como se sentiu o companheiro defenestrado da presidência
do partido, depois do problema dos dólares “ encuecados
“ por um assessor de seu irmão, ao ouvir uma tal
declaração de descrédito e incompetência,
publicamente expressada pela figura mais representativa de sua
agremiação. Além disso, a admissão
presidencial de que seu partido ( que fazia questão de
posar como vestal do templo de Zeus) usou de recursos não
contabilizados (eufemismo para “caixa dois” , expediente
criminoso utilizado por quadrilhas de narcotraficantes, contrabandistas,
bicheiros e quejandos) para patrocínio de campanhas políticas,
porque todos fazem assim é de pasmar. E, logo depois,
mostrar-se alheio às atividades de sua grei, para fugir
de eventual cobrança de sua responsabilidade, é
de uma covardia ímpar. Quem, em sã consciência,
pode aceitar que o presidente de um país não sabe
o que se passa nas entranhas do partido a que é filiado
? Só aqueles que concordam em ser governados por um inepto
!
Estamos
diante de uma situação inusitada. Um deputado
federal, a quem o Presidente do Brasil daria um cheque em branco,
por considerar que nele tinha um aliado fiel, ao ver seu nome
citado em possível corrupção em empresa
estatal, resolve falar o que sabia de homens e de ações
do partido presidencial. Choveram comissões de inquérito,
de ética e de investigações no Congresso
Nacional. Aos poucos, o que parecia uma ação inconseqüente
de um homem acuado ( e - para muitos – sem credibilidade
para denunciar qualquer pessoa ) foi-se transformando numa incontrolável
sucessão de revelações confirmantes das
palavras do parlamentar. Às certezas expressadas pelos
adversários do acusador de que ele não tinha provas
começaram a se contrapor as listagens de instituições
bancárias ou controladoras, as caixas com documentos
e computadores apreendidos e os indefectíveis motoristas,
moto-boys, contínuos, secretárias, ex-mulheres,
etc.. Aí, para se opor a quem e ao que se contrapõe,
começaram os habeas-corpus preventivos, os depoimentos
espontâneos a procuradores (em busca de uma tal delação
premiada, que abrandaria penas), exclusão ou afastamento
temporário de militantes da vida partidária, corridas
às delegacias da Polícia Federal para esclarecimentos
prévios e outras providências acautelatórias.
Paralelamente, vieram declarações enfáticas
de aliados e adversários quanto à inocência
do Presidente da República e ao seu total desconhecimento
de tudo o que se passou e ainda se passa, mesmo que algumas
das ações tenham sido tramadas e executadas em
salas palacianas, segundo a denúncia do acusador. Diga-se
de passagem que esse mesmo acusador avisou ao Presidente da
República das negociatas e disse que viu lágrimas
em seus olhos. A intimação para que um ministro
de grande influência e poder ( a ponto de ser chamado
e considerado como primeiro-ministro) abandonasse o cargo, feita
abertamente na televisão e perante comissão de
doutos parlamentares, soou como uma ousada provocação
e ofensa, à primeira vista. A materialização
da demissão, contudo, começou a caracterizar que
havia brasa muito ardente sob a tênue fumaça que
apenas se esboçava. Será que o Presidente não
se dignou a perguntar ao correligionário de sua inteira
confiança por que pedia para sair? Será que se
limitou a assinar o ato, sem entender as razões do pedido
de afastamento ? Será que em seu cérebro, sempre
limitado às dimensões de um campo de futebol,
não houve uma lâmpada que acendesse quando o seu
centro-avante titular, no auge da forma, pediu para ser colocado
na reserva da equipe, em pleno campeonato pela reeleição
? Como se diz no popular: - “Me engana que eu gosto.”
Não
sou dos que comungam da tese de absolvição prévia
do Presidente da República. Ao contrário, acho
que ele sabia e nunca se opôs. Tanto assim que, em tempo
recorde, tratou de acomodar aliados, verdadeiros ou por interesses,
com uma reforma ministerial às pressas e com afastamento
de alguns, até então, amigos de cargos com visibilidade,
para dar um jeitinho em seu partido, a fim de que as bandalheiras
apontadas não se alastrem e não haja possibilidade
de interrupção de seu mandato. Tomara Deus eu
esteja enganado, se for para o bem do Brasil. Em realidade,
o medo de governistas e oposicionistas é de que os procedimentos
para um eventual impedimento constitucional possam descambar
em golpe de estado. Desse medo não morram, porque as
famosas legiões já não têm quem as
conduza há muito tempo; receptivos, seus líderes
(?) aceitam qualquer coisa, até mesmo serem confundidos
com bandos e enganados em todas as promessas que lhes fazem.
Do segundo plano a que foram relegados, os legionários-chefes
têm feito força para ver se chegam a um terceiro
ou quarto, onde não sejam vistos ou incomodados. Que
as legionárias temerárias consigam algumas migalhas
dos línguas- presas é o desejo deles, porque não
terão que se expor e, eventualmente, perder os cargos.
Afinal de contas, ainda que por trás de umas colunas,
eles ainda freqüentam a corte do bobo.
Por
Gen Div Murillo Tavares da Silva
Fonte: Ternuma