A CORRUPÇÃO E O ÉTICO.
Quando
vamos ao dicionário para ver o significado exato de corrupção,
deparamo-nos com expressões como tornar podre, perverter,
subornar, peitar, depravar e outras. A cada vez, no-dia-a-dia
de nossas vidas, que uma dessas palavras aparece em texto ou
em discurso nós não nos sentimos bem, porque elas
envolvem uma carga negativa muito grande. Imagino, então,
como anda o humor e a auto-avaliação do povo brasileiro
ao ver as manchetes de jornais nas bancas (apesar de todo o
esforço do governo, nunca visto em nossa história,
a maioria não tem dinheiro para gastar com os periódicos)
e ao assistir aos programas de televisão (menos na Globo
e nas emissoras oficiais, é claro) a enxurrada de más
notícias. Não é fácil admitir que
instituições até então consideradas
sérias – e não vou cita-las, para não
desgastar mais ainda sua imagem – tenham seus nomes envolvidos
em repasses, financiamentos, contratos, licitações
e favorecimentos, absolutamente ao arrepio da moralidade e das
boas práticas administrativas.
Desde
quando o Ministro da Justiça, numa constatação
memorável, a que nós, simples mortais, nunca chegaríamos
(apesar de todo o esforço do governo, nunca visto em
nossa história, de melhorar a capacidade de raciocínio
do povo), disse que a Polícia Federal agia de forma republicana
em uma de suas operações – como se esperássemos
que ela atuasse de forma imperial, depois de quase cento e vinte
anos do 15 de Novembro de l889 – todos agora usam o termo,
ainda que não entendam plenamente o que ele significa.
Já vi interrogadores fazendo perguntas republicanas,
mas não vi o mesmo cuidado da parte dos que respondem
de forma desrespeitosa a homens públicos sobre o que
envolve coisas públicas. Apesar de todo o esforço
do governo, nunca visto em nossa história, para fazer
com que os ex-próceres de seu partido falassem a verdade,
nada foi conseguido. Alguns habeas corpus republicanos causam,
às vezes, uma certa surpresa-cidadã...
Não
vale a pena estender considerações sobre tudo
o que já foi dito, impresso, divulgado por computadores
e comentado nas conversas entre amigos. Interessante, contudo,
avaliar como se comporta o presidente da república (apesar
de todo o esforço do governo, nunca visto em nossa história,
não consigo escrever com maiúsculas) no meio da
crise. A ele muitos têm atribuído um comportamento
autista. Ora, por favor, respeitem os autistas, que não
geraram, por vontade própria, uma postura que os distingue
dos outros. O presidente sabe o que está fazendo e não
se mostra alienado sem querer. Sua fuga da realidade é
resultado de sua incapacidade de enfrenta-la, sem se comprometer;
tanto quanto suas repetidas ausências do palácio
governamental são resultado de sua incapacidade de governar.
A partir dessa realidade, ele e alguns acólitos mais
fiéis inventaram o palanque, as elites, a infância
pobre e outros apelos desesperados a taxistas, metalúrgicos,
petroleiros, agricultores e, lógico, a seus companheiros
do movimento social mais transgressor das leis do país
, o MST. Qual o propósito ? Deixa-los em alerta para
que saiam às ruas se, por acaso ou por investigações
bem feitas, as bandalheiras começarem a atingi-lo diretamente
? Quem das famigeradas elites o acusou de alguma coisa ? Os
dois maiores bancos privados do país, segundo notícias
dos últimos dez dias, apresentaram lucros fabulosos,
esses sim, nunca vistos em nossa história. Se esses bancos
são uma representação mais do que legitima
das elites nacionais, é possível admitir-se que
elas estão descontentes com o governo?
O
que, até agora, o presidente fez pelas categorias que
foram alvo de suas despropositadas investidas ? A dirigente
do sindicato de taxistas de Brasília disse, em reportagem
na Tv, que foi surpreendida quando tomou conhecimento de que
ele iria a uma solenidade de sua entidade e deu a entender que
não estava sabendo do que se passava. Presidente inspecionar
obras de construção de uma pista de pouso, em
sua fase inicial, para tomar café da manhã com
os laboriosos operários (apesar de todo o esforço
do governo, nunca visto em nossa história, eles não
conseguem ter acesso à previdência que pagam religiosamente)
e com o faxineiro que devolveu uma bolsa cheia de dólares,
é muita vontade de tapar sol com peneira. O vão-ter-que-me-engolir
que ocupou o lugar do fingido paz-e-amor dá bem a medida
do destempero dos discursos e do desespero das atitudes do presidente.
No que tange à ética de que tanto se orgulha,
a ponto de dizer que está para nascer quem lhe possa
dar lições da matéria, é importante
avivar-lhe a memória, mencionando os nomes de Paulo de
Tarso (expulso do PT, com a plena concordância do senhor
Lula, por haver relacionado um grande amigo do presidente com
casos de corrupção nas prefeituras de Campinas
e São José dos Campos; em tempo: durante muitos
anos o ético morou em imóvel desse grande amigo
empresário, sem pagar aluguel) e de César Benjamim
(cientista político, participante de ações
terroristas, fundador do PT e coordenador de campanhas do atual
presidente em 1989 e em 1994, que acusou arrecadação
ilegal de recursos, em entrevista na Band, em 31 de julho de
2005, por esse mesmo senhor Delúbio, na gestão
do Fundo de Amparo ao Trabalhador –FAT, em proveito do
PT, com conhecimento do senhor Lula ) que se desligou do partido
voluntariamente, ao se decepcionar com a bandalheira.
O
que deve preocupar os homens de bem de nosso país é
o que vai resultar dos muitos processos de investigação,
envolvendo o Congresso Nacional, o Ministério Público,
a Polícia Federal e até os órgãos
de imprensa. A marcha sobre Brasília do MST, com uma
respeitável organização, com uma quantidade
de meios impressionante e com uma postura agressiva nas invasões
temporárias para as paradas de repouso e reestruturação;
a tentativa de mobilização dos sindicatos, aí
incluída a nomeação de um dirigente da
central sindical mais forte para o cargo de Ministro do Trabalho;
a curiosa apreensão de sessenta mil uniformes, que teriam
sido contrabandeados da China e da qual não se falou
mais; tudo isso parece configurar um quadro de formação
de milícias populares. Tomara seja apenas uma conjectura,
mas diante de tudo que estamos vendo todas as hipóteses
devem ser consideradas. Homens muito próximos do senhor
Lula já expressaram sua frustração por
estarem no governo mas não terem o poder (apesar de todo
o esforço do governo, nunca visto em nossa história,
etc, etc, etc).
Pouco
antes de surgirem as primeiras denúncias de todas essas
podridões, agora vitaminadas por cafetinas e garotas
de programa (apesar de todo o esforço do governo, nunca
visto em nossa história, não se consegue dissociar
essas duas categorias de coisas espúrias ou pouco recomendáveis),
os éticos estavam insistindo na abertura dos arquivos
dos militares. Aqui e ali, houve quem solicitasse que um outrora
poderoso e humilde primeiro-ministro de fato não fosse
o responsável por nomear a comissão encarregada,
diante de seu interesse direto. Também foi pedido que
tudo fosse aberto e não, apenas, o que interessasse aos
éticos. Já não falam mais do assunto. Quem
sabe porque seria possível descobrir que os “combatentes
pela democracia”, sob inspiração nas normas
liberais dos governos de Cuba, União Soviética,
Albânia e China Continental, nas suas ações
de assalto a bancos, supermercados e residências com cofres,
já não estavam treinando para quando se instalassem
no governo?
Aí
estão fatos. Claro que essa abordagem não-petista
vai sofrer seus reparos. Dirão que é facciosa,
repetitiva de tudo quanto já disseram, elitista, golpista.
Por isso, talvez, é interessante e oportuno transcrever
o que disse um senador do PT , no Correio Braziliense, de 28
de julho de 2005. Apreciemos alguns trechos do texto: “
Nas últimas semanas o PT perdeu a honra, mas há
meses tinha perdido a causa.” “A honra perdida por
causa de financiamentos ilegais de campanha, da promiscuidade
entre governo, partido e empresas é da responsabilidade
de poucos...” “O PT perdeu a honra agora. Mas a
causa está perdida desde o começo do governo Lula.”
“Ao longo desses dois anos, mesmo quando a honra do PT
estava intacta, o governo perdeu todo o compromisso com a possibilidade
de mudar a sociedade brasileira. Nesses 30 meses, nenhuma medida
claramente transformadora foi executada”. “ Não
se apresentou nenhum programa concreto para uma mudança
substancial na concentração de renda, na desigualdade
regional, na proteção ambiental, na proteção
à infância, na redução da pobreza,
no enfrentamento da violência urbana ou rural, na superação
da crise habitacional.” “O governo Lula tem se caracterizado
pela falta de causas, antes mesmo da falta de honra que tem
caracterizado o PT das últimas semanas.” E agora,
José ? Quando se disser que “nunca em nossa história,
o governo fez tanta coisa, em tão pouco tempo”,
em quem devemos acreditar ? No que proclama a basófia
ou no senador aliado e desiludido ?
Brasília,
11 de agosto de 2005.
Gen
Div Murillo Tavares da Silva
Por
General de Divisão Murillo Tavares da Silva
Fonte: Ternuma