MENOS, PRESIDENTE LUIZ INÁCIO, MENOS
No
dia 25 desse agosto que continua cada vez mais mergulhado na
lama dos escândalos governamentais, o presidente Luiz
Inácio foi pela primeira vez a uma reunião do
Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, órgão
que quando foi criado parecia fadado a substituir o Congresso
Nacional, mas que ficou ao nível do programa Fome Zero
e outros mais que nunca funcionaram. Naturalmente o presidente
foi ao CDES para discursar. Discursando como sempre se empolgou,
ascendendo celeremente às estratosferas da auto-estima.
Disse Sua Excelência que não fará nem como
Getúlio, nem como Jânio, nem como João Goulart,
mas terá a paciência de Juscelino. Arrematou afirmando
que a verdade aparecerá, faltando pouco para se comparar
a Jesus Cristo pregando aos seguidores: “Eu sou a verdade”.
Menos presidente Luiz Inácio, menos, eu lhe diria se
tivesse chance de estar em sua presença. O senhor não
pode fazer como nenhum desses ex-presidentes na medida em que
não se parece nem um pouco com eles. Explico-lhe melhor:
Getúlio Vargas tinha um poder pessoal marcante e governou
com pulso forte tanto na fase ditatorial quanto na que foi eleito.
Não gosto de ditadores, mas é forçoso reconhecer
que Getúlio manobrava o leme do barco do Estado seja
para o bem, seja para o mal. Muitos de seus feitos permanecem
até hoje, e diante das pressões que recebeu teve
um último e extremo gesto, que pode nesse caso ser traduzido
por coragem e honra: o suicídio.
O senhor, presidente Luiz Inácio, não me parece
ser dado a essas grandiosidades. Aliás, nem sequer governa,
preferindo o turismo político das grandes viagens e pequenos
negócios que em certos casos, como o da China, foram
um desastre para nosso país. Sabemos também de
seu gosto pela oratória, aquela que impressionava os
companheiros nas portas das fábricas. E passou 12 anos
fazendo campanha, ou seja, discursando. Aliás, Vossa
Excelência continuou fazendo discursos eleitoreiros mesmo
depois que chegou lá. No mais, aprecia um joguinho de
futebol e um churrasco em finais de semana, o que denota seu
gosto bem popular pelo lazer. Mas isso de governar, não
é presidente, dá muito trabalho.
Com Jânio sua semelhança está num hábito
que ele também possuía, mas que não vou
mencionar. Por pouco o senhor expulsou do Brasil aquele jornalista
norte-americano que teve o desplante de repetir o que uns colegas
brasileiros mais atrevidos andaram dizendo por aí. E
quem sou eu para mencionar certas “forças ocultas”,
ou melhor, “forças terríveis” que
tonteiam mesmo os mais poderosos. Acrescento que com toda sua
excentricidade Jânio se elegeu para todos os cargos públicos
que disputou, começando pela vereança até
alcançar a presidência da República. O senhor,
presidente Luiz Inácio, depois daquele mandato de deputado
federal que transcorreu em brancas nuvens, desembarcou diretamente
na presidência da República pensando que era algo
igual à presidência de sindicato ou de partido
político. Pois é, olha o resultado. E lembre-se
que Jânio renunciou esperando voltar nos braços
do povo, mas como ensinou Maquiavel, “quem constrói
sobre o povo, constrói sobre o lodo”.
Com Jango o senhor pode ter alguma semelhança no sentido
que este era um caudilho vacilante. Jango foi defenestrado pelos
militares e praticamente fugiu com a desculpa de que não
queria derramar o sangue dos brasileiros, como se nós
fossemos de derramar sangue. Hoje, presidente, o senhor tem
os chefes militares ao seu lado como se vivêssemos um
64 às avessas. Não corre o risco de ser deposto
pelas FFAA, apesar dos baixos salários que insatisfazem
as tropas.
No mais, presidente Luiz Inácio, sei que não levanta
o traseiro (para usar uma expressão sua) do cargo, em
que pese ser essa a única saída honrosa que lhe
resta. E digo isso baseada em suas demonstrações
de admiração e apreço por ditadores explícitos
como Fidel Castro, disfarçados como Hugo Chávez,
inequívocos como os chefes africanos que visitou. Compreendo
que seria impensável para alguém que sonhou com
pelo menos vinte anos de poder apear do “trono”
aos dois anos e meio de mandato.
Quanto a Juscelino, foi um estadista, um dos nossos maiores
presidentes. Assim, não confunda, presidente Luiz Inácio,
paciência com eficiência ou competência, artigos
inexistentes em seu governo petista.
O senhor não quis mencionar governos mais próximos.
Não falou no ex-presidente Collor. Está certo,
pois como circula em forma de gracejo, a diferença entre
o governo Collor e o seu pode ser simbolizado por um Fiat Elba
e um Land Rover. Não dá para comparar.
Para finalizar, pense com calma, Presidente Luiz Inácio,
no que vou lhe dizer: se por um milagre a verdade aparecer por
inteira, nem Nossa Senhora Aparecida em sua lapela nem seu filho
Jesus Cristo darão jeito em sua situação.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga e articulista.
mlucia@sercomtel.com.br
Publicado originalmente em www.diegocasagrande.com.br