Edição 0083 - 19 de Setembro de 2005
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OpiniÃO


SANCHO PANÇA NO PERU
MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA


Os que viajam por meios terrestres sabem que nossas estradas vão se tornando intransitáveis. Mesmo assim, o presidente Luiz Inácio, que prefere ver os problemas de seu governo do alto e de longe, rumou para Puerto Maldonado, no Peru, para o “inaugurar” (dia destes o presidente inaugurou até uma semana da cidadania em Belo Horizonte) a pedra fundamental da Rodovia Interoceânica, que será custeada quase que inteiramente por nós, contribuintes, pois dos US$ 891 milhões que custará a obra o BNDES vai emprestar (doar?) US$ 700,00 milhões.

Naquela ocasião o presidente da República, certamente aliviado por estar momentaneamente longe da interminável sucessão dos escândalos que maculam seu governo e detonam seu partido, comparou-se dessa vez a Simon Bolívar, ao Barão do Rio Branco e a Euclides da Cunha, “grandes defensores da integração latino-americana”. Ainda falta o presidente se comparar a Napoleão Bonaparte, coisa que poderá fazer em Paris onde, certamente, ainda retorna para desfrutar do turismo político que lhe é tão caro. Como ele mesmo disse certa vez, e creio que sobre isso todos concordam: “viajar é gostoso”.

Em Puerto Maldonado o presidente Luiz Inácio foi entusiasticamente aplaudido por 600 militantes do PT e do PC do B, devidamente contratados por seus respectivos partidos. Tal prática faz lembrar o PRI mexicano e tem sido levada a efeito nas intermináveis inaugurações que sua excelência faz em solo pátrio, por conta de sua campanha de reeleição. A presença da festiva comitiva explicaria a foto publicada pelo O Estado de S. Paulo (09/09/2005), na qual uma moça cumprimenta o presidente. Era muito branca e trajava uma espécie de fantasia de índia, que em nada lembrava as vestes das nativas peruanas. Figurante é assim mesmo.

Em meio ao entusiasmo dos militantes, certamente felizes com a viagem ganha, Luiz Inácio ouviu do presidente peruano, Alejandro Toledo, um estranho elogio. Segundo o jornal acima citado, Toledo, atribuindo-se o papel do Don Quixote, relegou o colega brasileiro ao papel de Sancho Pança, o fiel escudeiro do cavalheiro da triste figura: “Eles ladram, Sancho, porque estamos construindo carreteras” (estradas). Fica a dúvida se o presidente peruano se inspirou na silhueta do nosso mandatário ou na fidelidade do mesmo que lhe está dando um régio presente de milhões de dólares.

Recorde-se que Toledo tem 8% de popularidade e é acusado de corrupção e associação ilícita. Presente também em Puerto Maldonado, o presidente da Bolívia, Eduardo Rodrigues, cujo governo não vai nada bem.

Enquanto o presidente viaja, aqui prosseguem os esforços para atenuar a crise. A prisão espetacular de Maluf (ex-aliado de Marta Favre no segundo turno das eleições municipais) e de seu filho, devidamente algemado, desafoga a alma nacional sedenta por ética e punição.

Ao mesmo tempo, o inevitável pedido de cassação do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, por seus ex-leitores parlamentares, tem ocupado noticiários e distraído as atenções. Irmanados, partidos de oposição e PT deliberam sobre quem melhor servirá aos interesses do presidente mais blindado de toda a história: se um deputado do próprio PT ou da chamada oposição, que costuma ser tão ou mais fiel do que os petistas, com honrosas exceções de alguns deputados e senadores do PSDB e do PFL.

Claro que se Maluf e Severino são culpados devem ser punidos, mas o que ressalta desses episódios de execração pública é a cortina de fumaça lançada para desviar o foco dos procedimentos mafiosos que têm emergido após as declarações do deputado Roberto Jefferson. Cômodos escândalos que não atingem o governo e o PT resguardam o presidente da República e lhe permitem bater no peito e dizer: “sou de todos os presidentes, o que mais combate a corrupção. Só falta se trazer de volta o juiz Lalau, Sérgio Naya, os donos da Dalu e, quem sabe, até Pinochet, porque o furacão katrina já rendeu seu efeito. Enquanto isso, os muitos acusados de crimes de corrupção seguem impunes.

Todos esses episódios levam a constatação de que atual governo, além de oferecer o maior espetáculo de corrupção de toda nossa história, é também o que melhor utilizou a farsa, a mentira, a simulação, a propaganda enganosa para se manter no poder. E se mantém por meio da fé inabalável de muitos no mito Lula e no estado de corrupção a que se chegou nos Poderes constituídos. São esses os únicos fatores que podem explicar a conivência com as ocorrências que já teriam derrubado quaisquer outros presidentes da República.

No mais, entre Quixotes e Sanchos Panças termino citando Jean-François Revel em seu prefácio à obra magistral de Carlos Rangel, “Do bom selvagem ao bom revolucionário”: “A história da América Latina prolonga a contradição que lhe deu origem. Oscila entre as falsas revoluções e a ditaduras anárquicas, a corrupção e a miséria, a ineficácia e o nacionalismo exacerbado”.

Colaboração: Maria Lucia

A culpa é do povo


 
   

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