SANCHO PANÇA NO PERU
MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA

Os
que viajam por meios terrestres sabem que nossas estradas vão
se tornando intransitáveis. Mesmo assim, o presidente
Luiz Inácio, que prefere ver os problemas de seu governo
do alto e de longe, rumou para Puerto Maldonado, no Peru, para
o “inaugurar” (dia destes o presidente inaugurou
até uma semana da cidadania em Belo Horizonte) a pedra
fundamental da Rodovia Interoceânica, que será
custeada quase que inteiramente por nós, contribuintes,
pois dos US$ 891 milhões que custará a obra o
BNDES vai emprestar (doar?) US$ 700,00 milhões.
Naquela ocasião o presidente da República, certamente
aliviado por estar momentaneamente longe da interminável
sucessão dos escândalos que maculam seu governo
e detonam seu partido, comparou-se dessa vez a Simon Bolívar,
ao Barão do Rio Branco e a Euclides da Cunha, “grandes
defensores da integração latino-americana”.
Ainda falta o presidente se comparar a Napoleão Bonaparte,
coisa que poderá fazer em Paris onde, certamente, ainda
retorna para desfrutar do turismo político que lhe é
tão caro. Como ele mesmo disse certa vez, e creio que
sobre isso todos concordam: “viajar é gostoso”.
Em Puerto Maldonado o presidente Luiz Inácio foi entusiasticamente
aplaudido por 600 militantes do PT e do PC do B, devidamente
contratados por seus respectivos partidos. Tal prática
faz lembrar o PRI mexicano e tem sido levada a efeito nas intermináveis
inaugurações que sua excelência faz em solo
pátrio, por conta de sua campanha de reeleição.
A presença da festiva comitiva explicaria a foto publicada
pelo O Estado de S. Paulo (09/09/2005), na qual uma moça
cumprimenta o presidente. Era muito branca e trajava uma espécie
de fantasia de índia, que em nada lembrava as vestes
das nativas peruanas. Figurante é assim mesmo.
Em meio ao entusiasmo dos militantes, certamente felizes com
a viagem ganha, Luiz Inácio ouviu do presidente peruano,
Alejandro Toledo, um estranho elogio. Segundo o jornal acima
citado, Toledo, atribuindo-se o papel do Don Quixote, relegou
o colega brasileiro ao papel de Sancho Pança, o fiel
escudeiro do cavalheiro da triste figura: “Eles ladram,
Sancho, porque estamos construindo carreteras” (estradas).
Fica a dúvida se o presidente peruano se inspirou na
silhueta do nosso mandatário ou na fidelidade do mesmo
que lhe está dando um régio presente de milhões
de dólares.
Recorde-se que Toledo tem 8% de popularidade e é acusado
de corrupção e associação ilícita.
Presente também em Puerto Maldonado, o presidente da
Bolívia, Eduardo Rodrigues, cujo governo não vai
nada bem.
Enquanto o presidente viaja, aqui prosseguem os esforços
para atenuar a crise. A prisão espetacular de Maluf (ex-aliado
de Marta Favre no segundo turno das eleições municipais)
e de seu filho, devidamente algemado, desafoga a alma nacional
sedenta por ética e punição.
Ao mesmo tempo, o inevitável pedido de cassação
do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, por seus
ex-leitores parlamentares, tem ocupado noticiários e
distraído as atenções. Irmanados, partidos
de oposição e PT deliberam sobre quem melhor servirá
aos interesses do presidente mais blindado de toda a história:
se um deputado do próprio PT ou da chamada oposição,
que costuma ser tão ou mais fiel do que os petistas,
com honrosas exceções de alguns deputados e senadores
do PSDB e do PFL.
Claro que se Maluf e Severino são culpados devem ser
punidos, mas o que ressalta desses episódios de execração
pública é a cortina de fumaça lançada
para desviar o foco dos procedimentos mafiosos que têm
emergido após as declarações do deputado
Roberto Jefferson. Cômodos escândalos que não
atingem o governo e o PT resguardam o presidente da República
e lhe permitem bater no peito e dizer: “sou de todos os
presidentes, o que mais combate a corrupção. Só
falta se trazer de volta o juiz Lalau, Sérgio Naya, os
donos da Dalu e, quem sabe, até Pinochet, porque o furacão
katrina já rendeu seu efeito. Enquanto isso, os muitos
acusados de crimes de corrupção seguem impunes.
Todos esses episódios levam a constatação
de que atual governo, além de oferecer o maior espetáculo
de corrupção de toda nossa história, é
também o que melhor utilizou a farsa, a mentira, a simulação,
a propaganda enganosa para se manter no poder. E se mantém
por meio da fé inabalável de muitos no mito Lula
e no estado de corrupção a que se chegou nos Poderes
constituídos. São esses os únicos fatores
que podem explicar a conivência com as ocorrências
que já teriam derrubado quaisquer outros presidentes
da República.
No mais, entre Quixotes e Sanchos Panças termino citando
Jean-François Revel em seu prefácio à obra
magistral de Carlos Rangel, “Do bom selvagem ao bom revolucionário”:
“A história da América Latina prolonga a
contradição que lhe deu origem. Oscila entre as
falsas revoluções e a ditaduras anárquicas,
a corrupção e a miséria, a ineficácia
e o nacionalismo exacerbado”.
Colaboração: Maria Lucia
A
culpa é do povo