A verdade está nua berrando na rua
A
verdade está aí, nua, berrando pelas ruas e muitos
não vêem o óbvio, por oportunismo ou fé
religiosa. A verdade é a seguinte:
O PT chegou ao poder e, em vez de governar, resolveu tomar o
Estado. Ocupou 20 mil cargos, levantando muitos milhões
de reais em dinheiro público roubado de estatais, de
fundos de pensão, de superfaturamentos combinados com
grandes empresas, com empréstimos falsos em bancos privados
e públicos, em jogadas com agências de publicidade
fajutas. O PT/Governo usou valérios e delúbios
para distribuir essa grana para comprar políticos e fazer
uma gigantesca caixa 2 para reeleger o Lula e eleger o Dirceu
em 2010.
Esses
“revolucionários da corrupção”
não imaginaram, contudo, que um personagem “rabelaisiano”
como o Jefferson pusesse tudo a perder. Se Jeff não abrisse
a caverna de Ali Babá, seriamos enganados até
o fim dessa “revolução ridícula”.
Esta
é a única verdade. Não adianta investigar
mais, apenas conferir denúncias, cruzar dados, pois as
próprias investigações podem virar tapadeiras
e rotas de fuga. Esta
verdade pode ser sufocada por milhares de meias-verdades secundárias
(moralismos, alegações jurídicas, regimentais)
que sobram nas CPIs.
Há
um congestionamento de descobertas, lembrando um rio sem foz,
onde as sujeiras vão se acumulando sem escoamento. O
que denota a gravidade desta crise é que ela ficou óbvia.
Ela está decifrada, sujamente clara, em cima da mesa
de dissecação, aberta ao meio com uma galinha,
mas ela continua acontecendo. E
o pior é que não temos no Brasil nenhuma instituição,
algum tribunal maior que vocalize o desejo social, nada que
dê conta desses crimes descobertos. Quem vai punir? Quem
vai reformar? Quem vai fazer a crítica prática
disso tudo que estamos vendo? Quem? Este Congresso de vendidos?
O Executivo culpado e agonizante? O Judiciário paralítico
onde todos se refugiarão?
Os
acusados estão sendo orientados por criminalistas, como
o ministro da Justiça (!), a se ocultar na confissão
de “dívidas de campanha” que configurem crimes
comuns, que nunca condenaram ninguém neste país.
Toda a tática é fugir da caracterização
de “crimes políticos”, alegando “falta
de provas”, como se provas fossem flagrantes ao vivo e
a cores. Tudo está na cara, ao sol de meio-dia, demonstrado
— como sabem os advogados — pela figura jurídica
das “provas indiciárias”, suficientes, com
esta abundância de evidências e denúncias
inapeláveis.
O
que angustia nessa crise é a sensação de
um túnel que não acaba nunca. Na rua me perguntam:
“E aí? Como isso vai acabar?” Ninguém
sabe. E os dias vão passando, dando tempo para os canalhas
se acertarem e fugirem da cana. A
própria idéia de “punição
para os culpados” pode ser conservadora, pois parte do
princípio de que houve um “desvio” da norma,
quando a própria norma é que é criminosa,
quando o desenho da política no país é
que é desastroso. Só
uma radical reforma não só política e eleitoral,
mas institucional, adiantaria, mas, se nem para a punição
temos um tribunal eficiente, quanto mais para uma mudança
modernizadora deste “passado colonial” em que vivemos.
É
como uma grave doença diagnosticada, sem haver hospital
preparado para combatê-la.
Assim,
esta crise tende para dois destinos:
Ou
para uma grande pizza suja que já está sendo preparada
por Lula chorando nos braços do “povo”, por
Dirceu comandando militantes obedientes, por Severino segurando
as cassações das raposas e hienas que trabalham
o tempo todo para escapar e confundir-nos. Ou então,
se o desprezo pela opinião pública chegar a um
ponto insuportável, pode acontecer uma ruptura violenta
com a oposição, que tem sido tolerante. Inimigos
e irresponsáveis populistas podem incendiar a indignação
da sociedade, levando-a para as ruas, pedindo impeachment, contaminando
a economia e criando um grave impasse institucional, com luta
de facções. Será que teremos de passar
por um desastre histórico mais grave, para que algo mude?
E
realmente dá vontade de botar para quebrar quando intelectuais
e analistas petistas com fé ou mesmo os desencantados
dizem que os “neoliberais” criaram essa armadilha
histórica para o PT, com a “direita” querendo
derrubar o Lula como ao Jango. Dá vontade de virar homem-bomba
quando vejo economistas já trabalhando para o neo-populismo
evangélico dizerem que o único erro do governo
Lula foi ter adotado a política do FHC, a única
coisa que ainda segura o país.
É
incrível também que “inteligentsia dialética”
se diga surpresa com o acontecido; é incrível
que não tenham desconfiado dessa possibilidade de lambança,
que não tenham tido um pingo de visão realista
em relação ao “ungido de Deus” da
Academia, com seus santos bigodudos e oportunistas. Como podem
se dizer “surpresos”, se um dos temas mais importantes
para qualquer intelectual ocidental tem sido a reflexão
sobre o lamentável fracasso do socialismo leninista?
Onde estava essa gente nos últimos trinta anos? Fazendo
o quê? Cavando a última trincheira de uma fé
morta no mundo todo, mantendo vivas suas ilusões infantis?
Como falar em “zelite” sobre um governo que errou
sozinho, se sabotou, se destruiu por loucura, dogmatismo, burrice,
falta de projeto e de caráter? E não se tratou
de “coisa suja” também não, como disse
Ciro, como se tudo fosse um pecado sexual. O que houve foi um
plano minucioso, com a conivência do presidente, topando
tudo que pudesse coroar seu deslumbramento de operário
que virou rei.
Chega
de nos escandalizarmos também. Está na hora dos
homens sérios da política, da vida cultural, intelectual,
jurídica se reunirem e pensarem algumas soluções
institucionais e de reforma na Constituição para
dar conta desse rio sem foz. Algo como semipresidencialismo
ou (oh... sonho!...) parlamentarismo.
ARNALDO JABOR
Fonte:O
Globo
Colaboração:Cabu
SANCHO
PANÇA NO PERU
MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA
A
culpa é do povo