O SONHO ACABOU
Recentemente,
o deputado federal Fernando Gabeira interpelou o presidente
da Câmara, Severino Cavalcanti, dizendo-lhe: “Vossa
Excelência é um desastre para o Brasil”.
Severino advogava penas brandas em vez de cassações
para deputados da turma do mensalão e Gabeira, com razão,
ficou irritado. Ao mesmo tempo, o deputado do PV fez sucesso
com sua performance e abriu caminho para as chamadas oposições
pedirem a cabeça de Severino, suspeito de receber propinas
do concessionário do principal restaurante da Câmara,
o Fiorella. Severinom é claro, nega a acusação,
como negam José Dirceu, João Paulo, Delúbio,
Genoíno, Professor Luizinho, José Janene, José
Mentor e tantos outros inocentes como recém-nascidos.
Até o homem dos dólares na cueca nega qualquer
culpa.
Não há dúvida de que Severino está
longe da figura ideal de parlamentar. Ele é apenas um
típico deputado brasileiro, destes que o povo elege muitas
vezes e que em nada difere de grande parte de seus pares no
tocante a falta de visão de bem comum e no olho gordo
sobre interesses particulares. Como a maioria no Congresso,
Severino é também despreparado, inclusive, no
sentido de não ter obtido as luzes da educação
formal. Ou seja, ele não é diferente do presidente
da República, eleito por quase 53 milhões de brasileiros
que apostaram no charme da ignorância.
Mas o fato é que Gabeira conseguiu unir os partidos chamados
de oposição, ou seja, PSDB, PFL, PPS e PV, além
da ala esquerda do PT, no sentido de pressionar Severino para
que se afaste do cargo. Argumenta-se que ele não está
à altura do mesmo. Se o deputado não se afastar,
vão entrar com uma representação no Conselho
de Ética para que perca o mandato, o que inviabiliza
sua continuidade na presidência da Câmara.
Se houvesse justiça no País e Severino Cavalcanti
fosse considerado culpado através da comprovação
da denuncia sofrida, sem dúvida deveria ser punido, mas,
como não funcionamos assim, o que será que existe
por trás da pressa das oposições em derrubar
o colega?
Lembremos primeiramente de que Severino é fruto da incompetência
do PT, que se dividiu entre dois candidatos quando disputou
o cargo, tendo enfiado um deles goela a baixo do próprio
partido. Aproveitando-se da burrice petista as oposições,
especialmente o PSDB e o PFL, elegeram Severino que agora querem
defenestrar.
Pois bem, alguns analistas dizem que as oposições
querem reforçar seu poder ao trocar Severino por algum
deputado de suas hostes, que seja mais capacitado para o cargo.
Essa análise faz sentido e tal atitude das oposições
poderia também traduzir a tentativa de melhorar a imagem
dos congressistas perante a opinião pública. Ao
mesmo tempo, a tática serve para desviar o foco das atenções
de outros escândalos mais escabrosos que pairam sobre
o presidente da República, além de aliviar a situação
dos mensalistas da corrupção que sonham com o
esquecimento de suas falcatruas para se livrarem da perda do
mandato.
Portanto, qualquer coisa que desvie a atenção
das pizzas das CPIs (é quase ridículo apresentar
apenas de 18 deputados para serem cassados) é bem vinda,
do Katrina nos Estados Unidos saudado por nossos nacionalistas
de esquerda e direita que se tornam irmãos gêmeos
no tocante ao antiamericanismo, ao resultado do jogo Brasil
e Chile.
Está bem claro que não só o capital financeiro
deseja preservar o presidente Luiz Inácio, o ministro
da Fazenda, Antonio Palloci e o presidente do Banco Central,
Henrique Meirelles. A idéia, originada no PSDB, é
a de deixar Luiz Inácio enfraquecido para depois ganhar
a eleição presidencial. Entretanto, pela lógica,
se Severino não pode ser presidente da Câmara,
Luiz Inácio não pode continuar como presidente
da República e Palocci e Meirelles deveriam se retirar
de seus cargos até que as acusações que
pesam sobre eles fossem investigadas. Contudo, deputados e senadores
se negam a pedir o impeachment de Luiz Inácio o que significa,
que a rigor, não existem oposições e, em
não havendo, prevalece a regra que todos devem se locupletar.
Ao final de sua entrevista à Folha de S. Paulo Gabeira
profetizou: “O PSDB e a esquerda sobrevivente do PT podem
se associar no futuro. A partir dessa associação,
podem reconhecer que há um processo de modernização,
embora lento”, no PFL”.
Gabeira, por motivos particulares, termina a reportagem à
Folha de S. Paulo, dizendo: “Não haverá
mais sonho”. Quanto a mim, entendo que se o PT, ex-partido
da ética, acoberta os seus como vem fazendo, é
problema da sigla que se desmancha no ar. Mas o acobertamento
da corrupção deslavada e jamais havida em tais
proporções, que infesta o Executivo entrosado
ao Legislativo, sinaliza que o sonho de um país melhor
e mais digno acabou. No mais, tem muito jogo de futebol pela
frente e disso Luiz Inácio entende, como entende o ditado,
“o que não mata engorda”.
MARIA
LUCIA VICTOR BARBOSA
DESARMAMENTO
E LIBERDADE