A
ACUMULAÇÃO SOCIAL DA VIOLÊNCIA - PARTE I
Toda vez que ocorre um fato dantesco proporcionado pela criminalidade
violenta em um grande centro urbano (como Rio de Janeiro ou São
Paulo, principalmente), surgem inúmeras opiniões
de jornalistas, sociólogos, psicólogos, representantes
da sociedade organizada (e da desorganizada também), políticos,
religiosos e até de profissionais de Segurança Pública,
todos "escandalizados" com o fato e alguns a requererem
"providências" e outros a "prometê-las".
Contudo sem um conhecimento globalizado do problema, dificilmente
alguém vai poder propor uma solução, pois
o viés do casuísmo pontual e o imediatismo das propostas
são a forma demagógica encontrada pelos governos
de "tapar o sol com a peneira"; como se buscassem uma
profecia auto-realizável.
Uma
forma eficaz de "enxugar o gelo".
A
pesquisa a seguir busca esclarecer aqueles que, desprovidos da
paixão momentânea do evento, poderão dela
subsidiarem-se para a elaboração de políticas
públicas adequadas a redução das variáveis
que concorram para a eclosão da violência e a minimização
de seus efeitos, haja vista não se pretender, através
de sua apresentação, a eliminação
absoluta do crime, o que seria falacioso propor.
O
universo da pesquisa foi recortado para incidir na cidade do Rio
de Janeiro, devido a naturalidade do autor.
Para
facilitar a leitura, e ao mesmo tempo não torná-la
enfadonha, dividirei a palestra em duas partes, publicando hoje
os precedentes históricos e oportunamente seus desdobramentos
e a conclusão.
Introdução
O
evento, hodiernamente tipificado como crime, é tão
antigo quanto o surgimento do Homem na face da Terra.
No
livro de Gênesis, 4.8, [...] Caim disse então a Abel,
seu irmão: - 'Vamos ao campo'. Logo que chegaram ao campo,
Caim atirou-se sobre seu irmão e matou-o.
Na
ausência do ordenamento jurídico, nos sistemas sociais
tribais dos primórdios da civilização, relegava-se
ao exílio, ao afastamento do meio social, daqueles que
praticassem atos lesivos ao senso comum de ordem. Esses renegados,
condenados a perambular pelo mundo, sem identidade familiar, sem
tribo, mas ainda seres sociais, não raro encontravam-se
e associavam-se, o Homem é gregário.
Suas
vicissitudes os aproximavam, ao mesmo tempo os embruteciam. Revolta,
indignação e vingança são sentimentos
que os unem e os organizam - constituem verdadeiros "exércitos
de rejeitados sociais".
Antigas lendas dão conta das invasões de aldeias
pelas hordas constituídas pelos filhos renegados, que ao
voltarem praticavam o parricídio, o rapto e o estupro e,
na ausência do ordenamento jurídico, imperava a lei
do mais forte, a dominação pela força física,
pela brutalidade, a submissão dos mais fracos, a escravização,
o império da barbárie.
Nesse contexto, segundo o historiador romano Tito Lívio,
um grupo de habitantes renegados de Albalonga, seguidores de seus
príncipes etruscos, vieram a se estabelecer numa região
da península itálica rodeada por sete colinas.
A
esse grupo juntaram-se os latinos e, no ano de 753 a.C., já
sob o império de Rômulo, são traçadas
no chão as linhas sobre as quais seriam erguidas as fortificações
que circundariam as colinas, onde se ergueria a cidade de Roma.
Rômulo, que se intitulava o preferido dos deuses, matou
seu irmão gêmeo Remo, pois este discordava de seus
planos.
Sozinho,
arquitetou um plano de expansão do seu império dentro
do qual incluiu, e executou, o Rapto das Sabinas, mulheres dos
sabinos, uma tribo vizinha, as quais foram levadas para Roma a
fim de procriarem e expandir a jovem cidade.
A
dominação , que vertebra as ações
sociais, confere a Roma e seus "cesares" um poder contra
o qual pareceria impossível opor-se. Seguem-se séculos
de conquistas, lutas, imposições. O povo de Roma
acredita na legitimidade do poder de "César"
e a sua cultura transcende seus limites territoriais.
A
única maneira de haver uma mudança nessas relações
sociais, conforme nos ensinaria Weber, seria pelo surgimento de
um ídolo, o qual pela dominação carismática
pudesse corroer a dominação tradicional de Roma.
O grande problema da liderança carismática, e nesse
caso estamos nos referindo àquela exercida por Jesus, é
que sendo toda fundada na pessoa, o que ocorrerá quando
o ídolo morrer?
Para
Weber, num primeiro momento, ocorrerá uma crise, a seguir
a sociedade tenderá para a rotinização, e
a liderança poderá se tornar tradicional ou racional-legal,
porém não mais retornará à modelagem
anterior.
Assim
podemos entender essa ascensão e queda do império
romano. Com o mesmo entendimento, num salto milenar na história
do Homem, podemos enxergar que o crime só se organiza socialmente
se contar com alguma legitimidade na população ou
parte dela, e ainda, se contar com algum reconhecimento por parte
da polícia, de políticos ou da imprensa.
Acumulação
Social da Violência - Origem e Evolução histórica
A
pesquisa científica realizada mostra claramente a identificação
de três grandes ciclos no processo de acumulação
social da violência no Rio de Janeiro. Cada um deles, estabelecido
temporalmente, tem suas origens pesquisadas e mantém relações
intrínsecas, pela construção social de seus
arquétipos - os malandros, os marginais e os vagabundos
, seja no simbolismo de seus personagens, seu ethos , seja na
transição de um tipo para outro, em resumo todos
são rotulados pela sociedade como bandidos, a nomenclatura
peculiar fica por conta da época em que surgiram e atuaram
no cenário social.
A
expressão acumulação social da violência,
própria da cognição do autor, possui um sujeito
- um fantasma - construído pela acumulação
de ações de bandidos, marginais, vagabundos, traficantes,
polícia, alcagüetes e delatores; sua existência
e sua visibilidade pelos órgãos de comunicação
social atemorizam a população, temor que o alimenta
e fortalece. O fantasma das classes perigosas , representadas
pelos agentes citados, surge no cenário do Rio de Janeiro
a partir da Proclamação da República e, até
a década de 20, com os capoeiras.
A
cidade com seu grande porto, capital da República e ícone
cultural do país agrega em si mesma paradoxos sócio-econômico-culturais
envolvendo famílias oriundas da nobreza, uma burguesia
emergente, imigrantes, negros libertos, brancos pobres e migrantes
em busca de oportunidades.
Os
malandros constituem toda a classe de capoeiras e suas maltas,
os negros libertos que não encontram no emprego formal
um meio de sobrevivência, nos migrantes e brancos ou mestiços
pobres que ocupam determinadas regiões da cidade consideradas
"perigosas" - o Mangue, a Lapa, o Estácio, a
Mangueira, o Morro da Favela dentre outros.
As
maltas são reprimidas com rigor pela polícia, a
partir da Proclamação da República quando,
pelo novo Código Criminal, a prática da capoeira
é criminalizada, passando de simples contravenção
a crime, com o agravamento da pena para aqueles que formassem
grupos ou maltas. Paralelamente, após a Abolição
da Escravidão, o grande problema sempre foi a inserção
dos negros no mercado de trabalho; muitos não conseguiam
trabalhar e outros não queriam trabalhar pois o "labor"
carregava o ônus da escravidão; para os que não
queriam, o trabalho representava o retrocesso à servidão.
As
maltas são extintas, mas não os capoeiras. Estes
refugiam-se nos morros e na "zona do baixo meretrício"
no Mangue, passando a viver na, e da, ilegalidade: cafetões,
bicheiros, atividades ligadas ao prazer e ao vício são
as atividades laboriosas dos malandros do início e primeira
metade do século XX. São os malandros , como também
são rotulados (e incriminados pela polícia) todos
aqueles homens do submundo, que vivem no ócio, na prostituição,
no jogo, na bebida e no ganho fácil: o oportunista, o punguista,
o ventanista, o bicheiro, o rufião, mas também o
ladrão, o maconheiro, o desordeiro e o valentão.
A
partir dos anos 50 surge um novo personagem produto da sujeição
criminal - o marginal. Não representa a extinção
do malandro da primeira metade do século XX, mas esse fantasma
possui, sem dúvida, habilidades diversas e bem menos românticas.
O uso do revólver para praticar assaltos e a associação
em quadrilhas ou gangs para a prática do roubo são
características que o diferem do malandro, da navalha e
do punhal. Ainda que de forma eventual reunisse de três
a dez comparsas para praticar um assalto, suas ações
caracterizavam-se pelo individualismo, pelo improviso e pelo nervosismo.
A
pesquisa revela certos pormenores bastante curiosos e interessantes,
dentre eles sobressai o reduzido alcance do fantasma da acumulação
social da violência sobre as classes alta e média
da população; nota-se que o "problema"
existia, era real e se avolumava, entretanto para as camadas mais
abastadas da população soava distante uma "criminalidade
urbana" no Rio de Janeiro e quando os ecos desta ressoavam
em seus afinados ouvidos vinham com a contrapartida da repressão
policial; esta sim, a polícia, é que deveria cuidar
dessas "classes perigosas", desse "estorvo social".
A
sociedade do Rio de Janeiro no pós-guerra e anos 50 vivia
a febre da civilidade, todo mundo queria ser civilizado.
Crime?
Marginais? Isso era problema da polícia, ela é que
deveria contê-los em seus redutos.
Ocorre,
contudo, concomitantemente um intenso movimento migratório
interno. As capitais do sudeste são o objeto do desejo
de nordestinos, capixabas e nortistas. A cidade não está
preparada para receber, a cada mês e a cada ano, tamanho
contingente de famílias que aqui desembarcam em "busca
da felicidade", do emprego urbano e da melhoria de vida.
O
êxodo rural e o movimento migratório para o Rio e
São Paulo são conseqüências da precarização
do trabalho agrícola ocasionado pela queda da exportação
desses produtos e a política de "industrialização"
interna do governo Vargas.
Não
existe estrutura habitacional para abrigar tanta gente, ocorrendo
um processo de "favelização" da moradia.
O
governo, pressionado pelas elites, promove um grande deslocamento
social dessas classes menos favorecidas para conjuntos habitacionais
das zonas norte e oeste. O resultado é pífio para
a segurança pública. Chega-se aos anos 60 e a transferência
da capital para a Novacap - Brasília; o Rio de Janeiro
perde parte do glamour que a sede da República lhe conferia.
Seqüencialmente
tem-se o golpe militar de 64 e o fantasma da acumulação
social da violência torna-se funesto, com a associação
da sujeição criminal sobre marginais e subversivos
ao regime.
O
AI-5 envolve todos na Lei de Segurança Nacional, a Polícia,
já envolvida com arbitrariedades repressivas, alia-se aos
órgãos repressivos da ditadura militar, incrementando
uma política de eliminação de marginais e
militantes de esquerda - a tortura e as execuções
sumárias são os ingredientes de fermentação
desse fantasma de repressão. O custo dessa política
reflete-se nas reações, a cada dia mais freqüentes,
por parte dos bandidos, pois sabem que só a reação
ou a morte lhes resta.
A
substituição da antiga Polícia de Vigilância
pela Polícia Militar, em 1967, nas ações
de policiamento ostensivo e operações repressivas
aos bandidos, face a missão militarista de eliminação
do inimigo, insere nova vertente de agressividade ao fantasma,
gerando ações de quadrilhas de assaltantes violentos,
armados de metralhadoras, praticando roubos a bancos, casas lotéricas,
residências e empresas; por outro lado vulgariza-se a corrupção,
pois o jogo do bicho passa a ter de pagar propinas também
para a PM, visto que já pagava antes para a Polícia
Civil. A corrupção aliada à violência
policial reduz a legitimidade do uso da força pelo estado,
passando a população a armar-se e, dessa forma,
contribuindo para o aumento da violência urbana.
Entramos nos anos 70 e a violência urbana, outrora distante
e de pouca visibilidade para as classes alta e média alta,
não mais parece ter controle e contenção
pela Polícia. Os jornais, em face da demanda que o tema
exige, começam a reforçar seus quadros de profissionais
de matérias policiais. A sociedade, a imprensa e a polícia
identificam o novo inimigo a ser combatido - o vagabundo.
Ele
difere do marginal individualista, pouco astuto, ignorante e descontrolado
dos anos 50; tampouco e muito menos é semelhante ao malandro.
Alia um elevado senso associativo a uma feroz vertente de violência
e dominação.
[...]
o crime deixa de ser uma atividade informal e sem planejamento
para tornar-se atividade prioritária e subsidiária.
Cumpre aqui esclarecer: as atividades prioritárias das
quadrilhas de criminosos organizados dos anos seguintes à
década de 70 são o tráfico de entorpecentes
e o contrabando de armas. Essa segunda alia-se à primeira
pela necessidade de imposição e demarcação
de "territórios", além de servir também
para rechaçar as investidas de rivais e de policiais. Ambas,
o tráfico e o contrabando de armas, requerem para sua implantação
e manutenção, altas somas de dinheiro, principalmente
moeda estrangeira, para aquisição das mercadorias
junto aos cartéis internacionais; por, e para, isso o crime
também é subsídio de outro crime, assim os
valores arrecadados nos assaltos a banco, roubos a carro-forte,
roubos de carga e extorsão mediante seqüestro vão
subsidiar a compra de entorpecentes e armas . (Rosette e outros,
1993)
[...]
A polícia e a imprensa, ao atribuírem ao vagabundo
determinados predicados, maximizam sua periculosidade. O sentimento
gerado na população, ao ver e ouvir uma autoridade
pública inepta diante duma descrição de um
vagabundo é de pânico e conseqüente descrédito
no estado como provedor de sua segurança.
Vale
esclarecer, contudo, que a escala crescente de violência
nas relações entre bandidos e policiais, a partir
dos anos 50 e 60 deveu-se, forçoso dizê-lo, ao emprego
de recursos violentos de mediação por parte da polícia
gerando a contrapartida dos criminosos no mais flagrante processo,
que repercutiria nas décadas de 70, 80 e posteriores, de
acumulação social da violência.
É
imperioso, ainda, acrescentar o ingrediente apimentado desse processo
- o sistema penitenciário. A humilhação,
a violência e a corrupção nos presídios
e penitenciárias brasileiras estimulam o revanchismo e
a vingança daqueles que sofrem a degradação
social - os apenados - posto que são considerados os "dejetos
sociais" tendo como único destino a "cloaca da
sociedade".
(continua...)
publicado por Alexandre