A
ACUMULAÇÃO SOCIAL DA VIOLÊNCIA - PARTE II
A retro-alimentação do processo de acumulação
social da violência.
Com base na pesquisa realizada pode-se visualizar o desempenho
da polícia no Rio de Janeiro e o seu papel vetorial na
acumulação social da violência.
Inicialmente,
com a Proclamação da República ocorrida
após um ano da Abolição da Escravidão,
a polícia é instada a mediar o conflito social
dos negros libertos, esse contingente humano significativo que
obteve tão somente a libertação física
por força de lei, não significando a libertação
econômica pois não conseguiam inserção
no mercado formal de trabalho. Alie-se a essa dificuldade, as
desigualdades culturais, profissionais e a forte discriminação
que sofriam. O negro liberto foi estigmatizado como indolente,
preguiçoso, não qualificado e, numa escalada crescente
de sujeição criminal, "perigoso". A
polícia passa a reprimir, com base no novo Código
Criminal, as maltas até sua extinção. A
criminação da capoeira com o "fichamento"
de vários líderes, os quais eram incriminados
pela polícia por liderarem essa atividade, conforme se
depreende, deu-se porque as elites, por uma visão etnocêntrica,
exigiam o "afastamento social" dessa cultura, por
ser estranha à de origem européia do início
do século XX.
Entre 1908 e 1918 ocuparam os principais cargos da polícia
os maiores especialistas do mundo. O nível era altíssimo,
de polícia científica e investigativa; nesse período
foram produzidas as melhores estatísticas policiais,
também nessa época é implantada a identificação
papiloscópica como instrumento de controle social, através
da criação do Gabinete de Identificação
Civil e Estatística; entretanto nos anos seguintes a
pesquisa denota um retrocesso e os profissionais qualificados
de então não são substituídos no
mesmo nível, voltando a polícia à utilização
do poder precário, pelo uso da violência e da repressão.
A partir dos anos 30 temos a fase da "sindicalização"
e dos "imigrantes anarquistas" e chega-se ao segundo
governo Vargas, nos anos 50, onde se observa a "transmutação"
do malandro em marginal .
Observa-se
um rápido processo de urbanização e industrialização
promovido por Getúlio Vargas, provocado pelo êxodo
rural em virtude da escassez das exportações agrícolas.
Vargas promove uma industrialização interna, para
compensar a falta de importações pela promoção
da formação de um capital interno. A ascensão
das "fábricas de fundo de quintal", de administração
familiar, alçadas a condição de "indústrias",
obviamente não possuindo estrutura, tampouco tecnologia
para tal demanda.
Essa
política portanto não resolve o problema das classes
discriminadas, segregadas, e o processo de "favelização"
da cidade é uma conseqüência. A contrapartida
do estado, para solução do grave problema social
que se avoluma, é de essência jurídico-penal.
Em 1956 é empossado Chefe de Polícia o General
Amaury Kruel que logo cria um grupo de diligências especiais
utilizando-se do efetivo do Esquadrão Motorizado, sob
o comando do Detetive Le Cocq, ao qual são conferidos
poderes totais. Nesse ponto, cumpre dizer - poderes totais de
eliminação dos marginais . Ocorre uma cisão
nas estratégias policiais, a substituição
do modelo Perpétuo de Freitas, o "Índio",
malandro, conhecido nas favelas, bem falante e bem informado
(dispunha de uma rede de delatores - "cachorrinhos")
pelo modelo do EM (apelidado logo a seguir de Esquadrão
da Morte) do Detetive Le Cocq. Podemos citar esse fato social
como retro-alimentador da acumulação social da
violência pois agora os marginais diante da possibilidade
e, principalmente, da previsibilidade de eliminação
física evoluem para a vertente da violência reativa.
A Scuderie Detetive Le Cocq , uma organização
paralela de poder composta por policiais e ex-policiais persiste
por vários anos, adentrando as décadas de 70 e
80, gerando paralelamente várias outras, com os mesmos
objetivos - a eliminação física de marginais,
mas também de "desafetos" de alguém,
que se propusesse a "pagar a conta".
A
percepção social, a sensação de
insegurança e o medo da vitimização alcançam
as classes alta e média não só pelo foco
midiático a partir dos anos 50, mas porque efetivamente
a transição da sujeição criminal
do malandro para o marginal ocorreu devido a essa estratégia
policial que inferiu no aumento de homicídios e crimes
violentos com conseqüente repercussão na mídia.
O
ano de 1960 marca, definitivamente, a "extinção"
do malandro , doravante o arquétipo do inimigo público
seria o marginal. As "organizações paralelas
de controle social" multiplicam-se; não se tem apenas
o EM, a Scuderie Le Cocq, mas também os Homens de Ouro,
a Polícia Mineira, o Lírio Branco, a Rosa Vermelha,
o Mão Branca e o menos emblemático cerol; todas
equivocadamente impregnadas, de forma macabra, pelos objetivos
de eliminar "o problema" que consideravam "sem
remédio". Impressionante a observação
do fato que, agindo à margem da lei, essas "organizações"
ainda encontravam legitimidade em parcela significativa da população
e, estarrecedor, até em autoridades públicas.
Um segundo momento é relevante também na retro-alimentação
da acumulação social da violência no Rio
de Janeiro. A ditadura militar plantada após 1964 traz
para o front da segurança pública, no ano de 1967,
a Polícia Militar, até então uma força
reserva do Exército Brasileiro. O emprego de táticas
militares de eliminação do inimigo, empregadas
em área urbana, maximizam a violência, robustecendo
o fantasma.
O
ano de 1970 seria o marco temporal do surgimento do novo produto
da sujeição criminal - o vagabundo.
Dentre um sem número de episódios que comprovam
a tese da acumulação social da violência
pela vertente da participação de policiais na
sua retro-alimentação optamos por citar um em
especial, por possuir todos os seus ingredientes representativos,
tendo se tornado emblemático - a Chacina de Vigário
Geral (1993).
Após a morte de quatro policiais militares dentro de
uma viatura na Praça Catolé do Rocha, um grupo
de extermínio intitulado Cavalos Corredores planeja uma
vingança contra seus possíveis autores (vagabundos
da Favela de Vigário Geral). A contrapartida ocorre na
noite seguinte, através da invasão das ruas da
favela por grupos armados com o intuito de "justiçar"
com sangue o brutal assassinato da véspera.
Diante da não identificação da autoria
e da desorganização dos "justiceiros"
o quadro torna-se dantesco, numa seqüência brutal
e violenta são assassinadas a tiros diversas pessoas,
indiscriminadamente, pelo simples fato de estarem ou morarem
naquele local. A noite é de horror, as vítimas,
sem ao menos entenderem o que ocorria, eram sumariamente espancadas
e mortas. Uma família inteira foi fuzilada dentro de
casa, um grupo de evangélicos teve o mesmo fim, o saldo
da tragédia - 21 mortos. O episódio alcança
proporções mundiais, com a divulgação
pela internet e órgãos de comunicação
social de todo o mundo, atingindo "mortalmente" as
corporações policiais cariocas, o governo do estado
e do país.
Esse
episódio e seus desdobramentos não podem ser analisados
sociologicamente de forma isolada, pontual, senão poder-se-ia
enveredar pelo viés maniqueísta da "ação
X reação", ao contrário pode-se representá-lo
como uma das "aparições do fantasma",
um transbordamento da taça da intolerância, da
discriminação, da incriminação,
enfim, da acumulação social da violência.
O exemplo acima, ilustrativo de uma das "aparições
do fantasma", retrata um episódio, dentre tantos
outros, representativos das causas da acumulação
social da violência. Torna-se claro, sobretudo após
o estudo realizado, que o "bem móvel" desse
mercado são as mercadorias ilícitas e as políticas
.
Todo fato social tem um antecedente histórico, não
"aparece" da noite para o dia no cenário social,
ao contrário, sempre encontramos o "fio da meada"
em seus antecedentes. Assim, a acumulação social
da violência tem uma origem, fatos sociais geradores e
retro-alimentadores de um fantasma , enfim, uma "moeda"
- as mercadorias ilícitas e políticas.
A proteção ao lenocínio nas décadas
de 40 e 50, o envolvimento com o jogo dos bichos a partir dos
anos 60 até a década de 90 e, a partir daí,
as "negociações" e as extorsões
aos narcotraficantes, a "apreensão" e revenda
de armas para criminosos, o exemplo oriundo dos políticos
desonestos, enfim, um somatório de atividades desviadas
cometidas por parlamentares, ministros de estado, dirigentes
de estatais, lobbystas e de partidos políticos, governadores,
prefeitos, vereadores, policiais e autoridades públicas,
aliadas a um vetor de intolerância e violência bilateral,
às vezes sob o "manto" da complementaridade
salarial, são os ingredientes finais que darão
o "sabor" (amargo) a todo esse processo.
Conclusão
O estudo das fontes de consulta oriundas de arquivos policiais,
jornais e extensa bibliografia sobre o assunto para a elaboração
do presente artigo evidenciou a riqueza de dados comprobatórios
da tese que se apresenta, ao mesmo tempo proporcionou condições
de associação aos conceitos de pensadores, pesquisadores
e cientistas sociais à realidade. Uma associação
comparativa entre a teoria e a prática, elucidando o
confronto das diversas fontes de consulta e proporcionando uma
cosmovisão do problema.
Temas
como a desnaturalização do fato para seu estudo,
as regras sociológicas de estranhar o que é familiar
e familiarizar-se com o que é estranho, o crime como
uma construção social de um evento, o controle
social nas sociedades pré-modernas e modernas, os processos
de criminação do evento e de incriminação
do indivíduo, as diferentes formas de dominação
e sua importância na vertebração da sociedade,
os conceitos de ação social nas visões
de Max Weber e Émile Durkheim, a sujeição
criminal onde um determinado tipo de indivíduo é
construído socialmente, a acumulação social
da violência no Rio de Janeiro em toda a sua amplitude;
todos se harmonizaram e fizeram sentido, culminando naquilo
que hoje assistimos horrorizados nas principais cidades brasileiras.
Alguns poderiam perguntar: mas haverá uma solução?
Decerto que sim, entretanto pelo lapso temporal de sua construção,
das variáveis que concorreram para sua formação,
do seu ethos e da sua gênese, certamente não será
um "messias", um "salvador da pátria",
que o fará em 4 anos, embora tenhamos que estar preparados
para ouvir promessas neste sentido, infelizmente.
Como
se tratou de um "processo acumulativo", conforme se
viu durante toda a pesquisa; seu "esvaziamento" deverá
ocorrer na contrapartida de políticas públicas
que eliminem os vetores que alimentam o "fantasma".
Sendo assim, podemos elencar, sem dúvida, algumas áreas
que devem ser atacadas de forma constante e seriamente para
a minimização do problema; haja vista que, conforme
já se falou anteriormente, não se pretenda enveredar
pelo falacioso discurso da "extinção da criminalidade",
pois isto de plano devemos deixar bem claro, jamais ocorrerá
em qualquer sociedade.
Mas ações voltadas para a educação
- formação e informação, a valorização
do serviço público e principalmente dos serviços
policiais, o sistema prisional e a desconstrução
total do seu estigma medieval, uma redução de
carga tributária sobre a produção, estimulando
a geração de empregos e transferindo a tributação
para o capital ao invés de sua incidência sobre
a manufatura e o comércio, são algumas das ações
que se apresentam com maiores possibilidades de êxito
sobre o "fantasma da violência".
Contudo, forçoso dizê-lo, são políticas
públicas que transcendem um mandato de 4 anos, dependendo
portanto da qualidade daquele que será colocado "sob
a espada de Dâmocles" a cada pleito e em cada nível
- federal, estadual e municipal.
Sem a ultrapassagem deste portal, sem levarmos a termo a qualificação
daqueles que dirigem o destino de toda a sociedade brasileira,
estaremos em descompasso com o futuro e, ao mesmo tempo, condenados
ao atraso.
publicado por Alexandre