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FADIGA POLICIAL

São Paulo.

A estatística do primeiro trimestre deste ano da Secretaria da Segurança mostra alguns dados preocupantes em relação à atividade policial. A apreensão de armas ilegais pelos policiais civis e militares vem caindo sucessivamente e o número de prisões que chegou a 30.831 no primeiro trimestre de 2001 caiu para 22.588 neste ano. A assessoria da Secretaria da Segurança Pública alega que a polícia anda prendendo menos, mas prendendo melhor; a queda na apreensão de armas seria explicada pelas campanhas de desarmamento e o aumento do rigor da lei em relação ao porte; e que se prendeu menos porque as megablitze inibiram as ações criminosas, resultando em menos prisões. A assessoria poderia ter dito que as blitze inibiram os policiais porque os roubos aumentaram. O insulto que a mencionada assessoria faz à inteligência do público com explicações que contrariam as evidências e a lógica mereceria uma reprimenda do secretário de Segurança, que tem se mostrado mais preocupado em agir do que ficar em contorcionismos explicativos.

Mas o principal problema diz respeito aos motivos pelos quais ocorreram essas quedas, pois a apreensão de armas e as prisões são tradicionais indicadores do empenho operacional básico dos policiais. Só se apreendem armas e se prende quando a polícia está em atividade dinâmica e motivada de procurar e fiscalizar suspeitos, atividade que gera mais efeitos preventivos que o mero passeio de viaturas. Essa é uma questão que precisa ser seriamente analisada, pois há evidências de que os policiais, principalmente os PMs, estão no limite do estresse funcional e por variados motivos: a atividade operacional - à exceção das unidades especializadas - ainda não é tratada com a devida consideração, a pressão por cumprimento de metas de redução de criminalidade e o tratamento disciplinar estão chegando ao limite do tolerável e o sistema de escalas de serviço de 12 horas é desumano, quando combinado com os estafantes "bicos" nas horas de folga. Em boa hora, o secretário examina a possibilidade de se premiar os policiais, estudando mecanismos não onerosos para o Estado, ou seja, obter dinheiro de doações.

A idéia de premiar é boa, mas a maneira de fazê-lo é equivocada. Se é verdade que a sociedade, através de entidades empresariais, poderia estar reconhecendo policiais que mostram desempenho acima do esperado em suas difíceis atividades, também é verdade que não há sentido em se financiar remuneração que deveria ser atribuição exclusiva do poder público. Em Pernambuco há lei que estabelece remuneração por horas extras na própria polícia, que vem esvaziando as estafantes e perigosas atividades do bico. Há prefeituras paulistas que já vêm fazendo esse tipo de pagamento e no Rio de Janeiro policiais são premiados tanto por desempenho como por atingir padrões de qualidade dos serviços policiais. Em São Paulo , por enquanto, só há premiações invertidas com gratificações aos policiais que trabalham longe do policiamento nos refrigerados gabinetes políticos. O governo gastaria bem pouco se oferecesse um 14º salário aos policiais civis e militares das unidades operacionais com melhor desempenho (se der um prêmio de R$ 1.500,00 a um décimo dos efetivos de melhor desempenho, desembolsará menos de R$ 20 milhões num ano).

Mas precisamos mais que isso e nunca é tarde para se começar um bom programa de desenvolvimento de recursos humanos na polícia, enfatizando o pessoal da desgastante atividade operacional, verificando-se desde os horários de trabalho e de folga, pesquisando-se motivos de insatisfação, investindo-se na melhoria das condições de trabalho, nas relações internas entre o pessoal e no reconhecimento aos policiais. É necessário, sobretudo, investir na capacitação dos chefes policiais para liderar de forma motivadora seus subordinados. Temos observado que superiores atenciosos com o desempenho e as necessidades de seus subordinados conseguem não só melhorar a auto-estima dos subordinados, como sua dedicação e a melhora da atividade operacional e a qualidade do atendimento dos cidadãos. Aqui ainda vale a máxima de Napoleão: não há bom ou mau regimento, há bom ou mau coronel.

Na última terça-feira, o policial civil Walmir José Lopes, de 38 anos, que investigava roubos de carros na zona leste da capital, foi retirado da viatura policial e fuzilado cruelmente por um grupo de bandidos. Policiais dedicados como Walmir precisam ser homenageados em vida, pois de pouco valem as honrarias póstumas. Um governo e uma sociedade que não reconhecem o valor de seus policiais não podem esperar muito de seu difícil trabalho.

Artigo publicado no Jornal da Tarde

José Vicente da Silva Filho
é Coronel da Reserva da PM de São Paulo e ex- Secretário Nacional de Segurança Pública.

 

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