Edição 0095 - 18 de Novembro de 2005
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CAROS SRS E SRAS

Ainda lembram da história do termo circunstanciado em São Gonçalo e das vítimas de violência doméstica recebendo atendimento mais célere por parte da PM e da Justiça? Da redução da sensação de impunidade e de suas consequências para a melhoria da segurança pública? Das idéias constantes de livro escrito pelo Sr Anthony Garotinho, das quais nos utilizamos? Do "poderoso" lobby dos delegados para barrar o trabalho? Do destaque dado em periódicos como JB e Extra acerca do mesmo? Da manifestação do Conselho de Segurança de São Gonçalo sobre da importância do trabalho que vínhamos desenvolvendo? E da ordem do Secretário Delegado para que fosse interrompido?
Pois bem, por ironia do destino, logo agora que estamos prestes a galgar liminares que nos fariam reiniciar, com força total, o trabalho, fruto de ações impetradas pela ASSINAP e pela AME/RJ, fontes seguras revelam que na semana vindoura (ou seguintes) o Cmt do 7º BPM (São Gonçalo/RJ) será exonerado. Por que? Segundo revela a matéria anexa, publicada no periódico "Extra", em face do aumento do número de homicídios, roubos a pedestres e a residências no município.

Talvez tenha sido fabricado o argumento que faltava, desviando-se o foco da insatisfação dos delegados para a própria sociedade. Logo ela, que estava sendo melhor atendida e tratada de forma diferenciada em relação às rotinas policialescas ainda vigentes em nossas práticas anacrônicas. A propósito da matéria citada e de suas reais intenções, algumas perguntas parecem merecer respostas: Os índices aumentaram apenas em São Gonçalo?
Qual a relação entre as taxas de elucidação da Polícia Civil e o acréscimo dos índices de criminalidade? Os Delegados de Polícia também serão exonerados? Qual o meio mais eficaz de "combater" homicídios e roubos em residências? Seria a aplicação de um policial em cada esquina ou a redução da sensação de impunidade, através da elucidação de tais delitos (de competência da Polícia Civil)? Mas e no que concerne aos roubos a transeuntes, o que poderíamos ter feito que não fizemos?

Vamos a REALIDADE, NUA e CRUA: O que estávamos tentando construir?
Buscávamos, com muito custo, penetrar na "caixa preta" da polícia "investigativa" para ter simples acesso, em tempo real, aos registros de ocorrência coletados, de forma a permitir aplicação mais técnica e eficaz da polícia ostensiva. Paralelamente, estávamos utilizando a estatística, embora defasada em sua divulgação, da própria Secretaria de Segurança, através de seu Instituto, com igual mister. Nossos efetivos policiais estavam se dedicando mais ao policiamento ostensivo, uma vez que ficavam liberados de fazer o que mais faziam, ou seja, permanecer nas Delegacias de Polícia apresentando ocorrências, já que seu maior número respeitava às infrações penais de menor potencial ofensivo, hipótese que estava merecendo encaminhamento direto, célere e informal para o Poder Judiciário (encerrando-se no próprio local).

Quanto aos homicídios, certamente estávamos contribuindo para sua redução, uma vez que, com respostas muito mais eficazes direcionadas às infrações das quais podiam redundar (ameaça, lesões corporais leves e outras), marcadamente sob o enfoque da violência doméstica, gerávamos maior confiabilidade na polícia e, em consequência, decréscimo no sentimento de que procurá-la não daria em nada (as audiências na Justiça eram marcadas pelo próprio PM, no local das ocorrências). Mas o trabalho parou! Por que?

Talvez por que tenhamos ferido interesses outros, certamente desprovidos de caráter público.
Afinal, quanto foi (e está sendo ainda) gasto para vender a idéia de que as decantadas Delegacias Legais são a solução do problema de segurança pública? Interessa informar à sociedade que nossas Delegacias Legais não elucidam quase nada, senão vejamos:

Taxas médias de apuração de ilícitos das Delegacias Legais (Constantes do Boletim Mensal de Monitoramento e Análise-ano 1, n.º 2, julho 2003 - único que divulgou tais índices).
Homicídios - 2,7%
Roubos de carga - 5,4%
Roubos a bancos - 2%
Roubos a pedestres - 3%
Roubos a residências - 4,5%
Roubos a estabelecimentos comerciais - 3,7%
Mas quem somos nós, simples mortais, para mostrar que com um pouquinho de boa vontade, baixo investimento, idéias nem tão novas assim e algumas horas extras de dedicação à causa PÚBLICA, podemos verdadeiramente contribuir para a redução da sensação de impunidade em nossa Cidade?

Talvez sejamos pessoas que acreditam que, como diz a canção, "...quem sabe faz a hora, não espera acontecer...". Que acreditam no poder das idéias e no potencial de pessoas para subverter realidades indignas e cruéis. Que acreditam que mais vale combater o bom combate, arcando com todas as consequências advindas dos interesses particulares atingidos, a conformar-se com a realidade de polícias seletivas (na pior acepção da palavra) em suas ações preventivas e repressivas, ineficazes, pouco inteligentes e pouco ou nada profissionais.
Talvez tenhamos perdido a batalha, mas realmente não sabemos lutar no terreno lodoso em que passou a ser travada. Só temos nossas idéias, a consciência de sua importância para a Segurança Pública e o conhecimento para pô-las em prática.

Mas de que valeu tudo?
Alguém se importou?
Alguém, além de nós, de nossa tropa, da justiça e das pessoas que foram por nós atendidas, acreditou no trabalho que chegamos a realizar?
Por que quase todos nos viraram as costas?
Por que pouquíssimos firmaram posição a respeito do que estávamos fazendo?
Por que incomodamos tanto, já que, em verdade, só fizemos auxiliar pessoas necessitadas de atenção, de auxílio e de acesso ao poder judiciário?
Por que a maioria de nossos amigos, de ONGs contactadas, de setores públicos e privados também cientificados, se limitou a assistir de distância convenientemente segura o trabalho realizado pela PM em São Gonçalo?
Quantos saberão dos reais motivos da queda do digno e corajoso Comandante do 7º BPM?
Quantos vão se lembrar do que realmente ocorreu?
Quantos vão se importar?
Quantos vão "brigar" para assumir (ou indicar) seu posto?


Obrigado!
Wanderby Braga de Medeiros-Major PM
Subcomandante do 7º BPM

 

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