POLICIAIS
DEFICIENTES: A LUTA PELO RESPEITO
Além
de um elevado número de policiais que são mortos
todos os anos em virtude da ação de criminosos,
muitos acabam ficando com seqüelas físicas que muitas
vezes são irreversíveis, tornando-se portadores
de deficiência física. Foi pensando nesses policiais
que foi criada, há dez anos, a Associação
dos Policiais Militares Deficientes Físicos do Estado de
São Paulo, APMDFESP. Na sede da entidade, localizada no
Barro Branco, na cidade de São Paulo, existe uma série
de instalações destinadas a apoiar a recuperação
física e psicológica de policiais vitimados pela
criminalidade. Além disso, há apoio também
para os familiares dos policiais superarem os traumas decorrentes
da deficiência adquirida.
Para
saber a realidade dos policiais militares paulistas que se encontram
nessa situação, MÍDIA SEM MÁSCARA
visitou no último dia 08/10 a sede da APMDFESP. Essa entidade
é a única do tipo no Brasil, prestando serviços
não só aos policias deficientes físicos,
mas também a todos os membros de seu quadro associativo.
Na ocasião foram entrevistados o presidente da entidade,
o sr. Jefferson E. Patriota dos Santos, ele próprio portador
de deficiência há cerca de 18 anos, ao ser baleado
quando tentava auxiliar um colega policial, tendo ficado paraplégico,
e sua assessora de imprensa, Patrícia Murari.
MSM:
Qual a situação em que o policial militar fica após
ser lesionado?
JEFFERSON
PATRIOTA (JP): O policial militar, após adquirir a deficiência,
fica deprimido e perde a auto-estima, porque junto com a deficiência
física vêm também problemas financeiros, problemas
afetivos, pois muitas vezes a família não tem estrutura
para suportar a nova realidade, onde o policial militar passa
a se sentir um "sub-homem", que percebe não ser
mais aquela pessoa de antes. Em muitos casos ele se torna deficiente
entre os 25 e 30 anos de idade, no auge da sua juventude, quando
ele tinha inúmeros planos para sua carreira e para sua
vida pessoal e familiar, como prestar concursos, vestibular, ter
filhos, e é quando ele sofre esse verdadeiro "desmonte"
na sua vida. Devemos mudar a mentalidade de que o policial deve
morrer pelos outros e viver sem razão.
MSM:
Para enfrentar essa nova realidade causada pela deficiência,
o policial conta com que tipo de apoio?
JP:
O suporte que o policial recebe é proveniente de entidades
de classe, como a APMDFESP. Um apoio mais efetivo que poderia
partir da polícia militar enquanto instituição,
não existe. O que nós temos, isso sim, é
muitas vezes a boa vontade de pessoas de dentro da polícia
militar, dos comandantes da polícia militar, que facilitam
algumas questões, como transporte, por exemplo. A falta
de apoio institucional é lamentável pois o policial
militar foi doutrinado para combater o crime, e quando se vê
vítima da violência que ele tentava combater, percebe
que está impotente. Assim, o que nós gostaríamos
é que houvesse um maior apoio oficial para todo o policial
militar que, em qualquer circunstância, passasse a ser portador
de deficiência.
MSM:
O policial lesionado chega a se sentir descartado?
JP:
Na verdade chega sim. O policial, ao ser afastado em virtude da
deficiência, tem sua foto retirada do quadro de fotografias,
é retirado da escala de serviço e colocado no afastamento,
sendo substituído por outra pessoa, gerando uma sensação
no policial militar de que ele é uma "peça
de engrenagem", uma peça que, quando é quebrada,
é retirada e substituída por outra. É uma
situação mecânica onde fica difícil
nós avaliarmos o lado humano da questão. É
óbvio que nós não exigimos da Polícia
Militar e das demais pessoas que cuidem da situação
em bases pessoais, com um envolvimento emocional na questão,
mas gostaríamos que fossem dadas as condições
para que o policial militar deficiente pudesse trilhar o seu próprio
caminho, e não ser humilhado e descartado, como é
a nossa realidade hoje.
MSM:
Qual seria o número atual de policiais militares deficientes
físicos em virtude da ação de criminosos
em São Paulo?
JP:
Acima de 2100, incluindo policiais que se tornam deficientes físicos
permanentes e os que enfrentam deficiências temporárias.
Esse número é em sua maior parte resultado do confronto
com a criminalidade, quer seja durante o horário de serviço,
quer seja no horário de folga ou lazer, porque o policial
normalmente tem a convicção de ser policial, não
interessando se está de folga ou de serviço, o que
o levará a agir se ele presenciar uma situação
adversa.
MSM:
E como fica a situação do policial que é
vitimado fora de serviço?
JP:
Ele tem uma defasagem muito grande no seu salário, algo
em torno de 60% do salário, porque perde muitas vantagens,
visto que a Polícia Militar, infelizmente, adota uma política
de salários indiretos como ajuda de custo para a alimentação,
entre outros auxílios que não entram no cômputo
para a aposentadoria.
MSM:
Os policiais da ativa não-portadores de deficiência
contribuem de alguma forma para auxiliar a APMDFESP?
JP:
Sem dúvida nenhuma. Nós temos um quadro associativo
onde a grande maioria são policiais não-portadores
de deficiências. Nós não temos a intenção
de uma contribuição meramente à título
de benesse, então o sócio tem, em contrapartida,
os serviços que nós oferecemos como por exemplo,
o departamento jurídico 24 horas, assistência social,
odontológica, psicológica.
PATRÍCIA
MURARI (PM): O policial pode se valer também dos serviços
de fisioterapia e terapia ocupacional.
JP:
Exato. Na verdade se a entidade fosse depender apenas da contribuição
dos portadores de deficiência, ela não sobreviveria,
em função da baixa mensalidade e do número
muito grande de atendimentos. Nós precisamos da contribuição
de 60 a 70 associados para comprar uma cadeira de rodas, que nós
entregamos às pessoas necessitadas sem despesa nenhuma
para elas.
MSM:
Em comparação com outros países, o senhor
tem idéia se a proporção de policiais que
se tornam deficientes físicos é maior ou menor?
JP:
Aqui no Brasil a proporção é muito maior.
Vou dar um exemplo: enquanto aqui nós tivemos época
em que morriam quase 30 policiais por mês, na Inglaterra
o número para o período de um ano era de 6 policiais.
PM:
Uma vez nós questionamos um policial do estado norte-americano
do Texas, o tenente Michael, sobre qual era o tratamento dispensado
aos policiais que se tornavam deficientes físicos em seu
estado. Ele teve dificuldade em responder porque nem se lembrava
de ter informações de policiais nessa situação.
Representantes da polícia canadense que nos visitaram também
reagiram da mesma forma quando os indagamos sobre o assunto.
MSM:
Qual a opinião do senhor sobre a visita da representante
da ONU Asma Jahangir ao Brasil?
JP:
Sobre a visita dessa senhora temos que estabelecer uma série
de pontos. Para começar, ela deveria considerar para fins
de comparação da violência no Brasil com outros
países, a realidade social e até mesmo geográfica
do Brasil, onde na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, a configuração
geográfica estimula a criminalidade. Na minha opinião,
ela chegou ao Brasil com pré-conceitos bem estabelecidos,
com a idéia segundo à qual a "polícia
brasileira é violenta, matou tantos civis", mas sem
se preocupar em investigar a fundo quem eram esses civis, em que
condições morreram, o que é necessário,
senão fica a impressão que quando se fala em "tantos
civis mortos pela polícia", a Polícia Militar
chegou na Praça da Sé e saiu metralhando todo mundo
que via pela frente. Também seria interessante lembrar
que a Polícia está aí para combater os efeitos
e não as causas da criminalidade, cujo combate demanda
uma participação de vários outros órgãos
governamentais. Um policial não pode dar educação
a uma pessoa que está cometendo um assalto, o que seria
absurdo. Assim, a senhora Asma infelizmente veio ao país
com poucas informações e muitos estereótipos
do tipo "Brasil: Rio de Janeiro, mulher bonita, samba e terra
de violência", numa visita que pouco ou nada acrescentou
à questão da segurança pública brasileira.
MSM:
Como é a atuação das entidades de direitos
humanos em relação a APMDFESP? Eles prestam algum
tipo de apoio? Já visitaram a entidade?
JP:
Só poderia te responder isso se nós tivéssemos
algum dia recebido a visita de alguma entidade de direitos humanos.
Nunca fomos visitados em dez anos de existência da Associação.
Para nós as entidades de direitos humanos são algo
lúdico, que nós só conhecemos de "ouvir
falar".
PM:
Não recebemos visitas nem de representantes das entidades
de direitos humanos nem de ninguém delas em caráter
pessoal.
JP:
Apenas um deputado{*} que é da comissão dos direitos
humanos da Assembléia Legislativa de São Paulo,
uma vez passou por aqui numa determinada circunstância,
mas o que nós percebemos é que a situação
não foi interessante para ele. Direitos humanos é
um conceito que, sinceramente, está desvirtuado totalmente
no Brasil.
MSM:
Por que a situação não foi interessante para
esse deputado?
JP:
Não foi interessante porque normalmente o que essas pessoas
procuram são aquelas idéias pré-concebidas
do policial militar, da Polícia Militar. Quando essas pessoas
se deparam com o policial militar como vítima, aí
elas até podem, intimamente, mudar suas concepções,
porém, externamente eles continuam a manter suas posições.
Imagine se alguém da comissão de direitos humanos
começar a falar coisas como: "olha, realmente, o policial
militar é uma vítima da criminalidade, tanto quanto
tantas outras pessoas, tanto quanto o cidadão comum".
O que vão falar dele se ele sair fazendo esse tipo de declaração?
Para as entidades de direitos humanos o policial militar ou civil
vítima não "vende". O que é que
vende: o policial que agride. Parece que foi criado um autêntico
"marketing social" em torno do tema e não adianta
alguém colocar o contrário que essas pessoas fazem
questão de não ver. Outro ponto: as mesmas pessoas
que visitam presídios onde estão criminosos comuns,
não vão até o presídio da Polícia
Militar. Por quê? Porque elas não querem saber que
o policial militar que agiu fora da lei foi punido. Isso não
interessa saber. Interessa continuar mantendo o mito que a Polícia
"deita e rola", que a Polícia "faz e acontece".
A única vez que uma revista de circulação
nacional visitou o presídio da Polícia Militar,
publicou uma matéria afirmando que lá funcionava
uma "colônia de férias", um "hotel
cinco estrelas", e não é nada disso. Simplesmente
o presídio da Polícia Militar está dentro
de normas internacionais, condizentes com as da ONU ou das organizações
internacionais de direitos humanos, o que não acontece
com a imensa maioria dos estabelecimentos prisionais brasileiros.
Infelizmente é essa a imagem que é criada em torno
da Polícia. Muitas das pessoas que adotam essas posturas
em relação à Polícia nem fazem isso
porque querem, mas porque é isso que lhes dá destaque,
que vende jornais e revistas. Muitas dessas pessoas já
foram inclusive bem atendidas pela Polícia Militar, de
maneira eficiente e correta, mas preferem ignorar e continuar
a "malhar" a Polícia Militar.
MSM:
Como é a relação da grande mídia com
a associação que o senhor preside?
JP:
Nós temos sido bem recebidos pela grande mídia,
eles nos dão espaços, ouvindo a nossa história,
a história do policial que foi vitimado, até porque
muitos dos profissionais que trabalham assim conhecem a realidade
dos quartéis, tendo uma visão mais aberta sobre
a Polícia Militar, compreendendo que em todos os lugares
há elementos bons e ruins, e que a Polícia Militar
não é diferente. Contudo, é bom ressaltar
que a mídia se relaciona bem conosco, mas no que diz respeito
à instituição Polícia Militar, os
estereótipos geram incompreensão e má-vontade.
MSM:
O senhor teria mais alguma colocação a fazer?
JP:
O que deveria haver é uma maior consciência de que
o policial militar é um ser humano, não mais do
que isso, e que como todas as pessoas ele possui suas particularidades,
até mesmo comportamentais, razão pela qual não
podem acontecer generalizações negativas em relação
a uma organização tão numerosa quanto a PM
de São Paulo. E para completar, eu gostaria de perguntar
ao Padre Júlio Lanceloti (representante da Pastoral do
Menor da Igreja de São Paulo e conhecido militante dos
"direitos humanos"), que sempre chega na FEBEM após
o final das rebeliões, e depois fala que a polícia
agrediu, fez e aconteceu: por que não vai ele separar a
confusão lá dentro? E outra coisa: gostaria de convidá-lo
para visitar a nossa entidade, porque "ovelhas" não
existem apenas lá na FEBEM; aqui também existem
ovelhas, só que ovelhas do bem.
Renato Simões, deputado estadual pelo PT.
Fonte:
Midía sem máscara