Edição 0101 - 30 de Dezembro de 2005
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POLICIAIS DEFICIENTES: A LUTA PELO RESPEITO

Além de um elevado número de policiais que são mortos todos os anos em virtude da ação de criminosos, muitos acabam ficando com seqüelas físicas que muitas vezes são irreversíveis, tornando-se portadores de deficiência física. Foi pensando nesses policiais que foi criada, há dez anos, a Associação dos Policiais Militares Deficientes Físicos do Estado de São Paulo, APMDFESP. Na sede da entidade, localizada no Barro Branco, na cidade de São Paulo, existe uma série de instalações destinadas a apoiar a recuperação física e psicológica de policiais vitimados pela criminalidade. Além disso, há apoio também para os familiares dos policiais superarem os traumas decorrentes da deficiência adquirida.

Para saber a realidade dos policiais militares paulistas que se encontram nessa situação, MÍDIA SEM MÁSCARA visitou no último dia 08/10 a sede da APMDFESP. Essa entidade é a única do tipo no Brasil, prestando serviços não só aos policias deficientes físicos, mas também a todos os membros de seu quadro associativo. Na ocasião foram entrevistados o presidente da entidade, o sr. Jefferson E. Patriota dos Santos, ele próprio portador de deficiência há cerca de 18 anos, ao ser baleado quando tentava auxiliar um colega policial, tendo ficado paraplégico, e sua assessora de imprensa, Patrícia Murari.

MSM: Qual a situação em que o policial militar fica após ser lesionado?

JEFFERSON PATRIOTA (JP): O policial militar, após adquirir a deficiência, fica deprimido e perde a auto-estima, porque junto com a deficiência física vêm também problemas financeiros, problemas afetivos, pois muitas vezes a família não tem estrutura para suportar a nova realidade, onde o policial militar passa a se sentir um "sub-homem", que percebe não ser mais aquela pessoa de antes. Em muitos casos ele se torna deficiente entre os 25 e 30 anos de idade, no auge da sua juventude, quando ele tinha inúmeros planos para sua carreira e para sua vida pessoal e familiar, como prestar concursos, vestibular, ter filhos, e é quando ele sofre esse verdadeiro "desmonte" na sua vida. Devemos mudar a mentalidade de que o policial deve morrer pelos outros e viver sem razão.

MSM: Para enfrentar essa nova realidade causada pela deficiência, o policial conta com que tipo de apoio?

JP: O suporte que o policial recebe é proveniente de entidades de classe, como a APMDFESP. Um apoio mais efetivo que poderia partir da polícia militar enquanto instituição, não existe. O que nós temos, isso sim, é muitas vezes a boa vontade de pessoas de dentro da polícia militar, dos comandantes da polícia militar, que facilitam algumas questões, como transporte, por exemplo. A falta de apoio institucional é lamentável pois o policial militar foi doutrinado para combater o crime, e quando se vê vítima da violência que ele tentava combater, percebe que está impotente. Assim, o que nós gostaríamos é que houvesse um maior apoio oficial para todo o policial militar que, em qualquer circunstância, passasse a ser portador de deficiência.

MSM: O policial lesionado chega a se sentir descartado?

JP: Na verdade chega sim. O policial, ao ser afastado em virtude da deficiência, tem sua foto retirada do quadro de fotografias, é retirado da escala de serviço e colocado no afastamento, sendo substituído por outra pessoa, gerando uma sensação no policial militar de que ele é uma "peça de engrenagem", uma peça que, quando é quebrada, é retirada e substituída por outra. É uma situação mecânica onde fica difícil nós avaliarmos o lado humano da questão. É óbvio que nós não exigimos da Polícia Militar e das demais pessoas que cuidem da situação em bases pessoais, com um envolvimento emocional na questão, mas gostaríamos que fossem dadas as condições para que o policial militar deficiente pudesse trilhar o seu próprio caminho, e não ser humilhado e descartado, como é a nossa realidade hoje.

MSM: Qual seria o número atual de policiais militares deficientes físicos em virtude da ação de criminosos em São Paulo?

JP: Acima de 2100, incluindo policiais que se tornam deficientes físicos permanentes e os que enfrentam deficiências temporárias. Esse número é em sua maior parte resultado do confronto com a criminalidade, quer seja durante o horário de serviço, quer seja no horário de folga ou lazer, porque o policial normalmente tem a convicção de ser policial, não interessando se está de folga ou de serviço, o que o levará a agir se ele presenciar uma situação adversa.

MSM: E como fica a situação do policial que é vitimado fora de serviço?

JP: Ele tem uma defasagem muito grande no seu salário, algo em torno de 60% do salário, porque perde muitas vantagens, visto que a Polícia Militar, infelizmente, adota uma política de salários indiretos como ajuda de custo para a alimentação, entre outros auxílios que não entram no cômputo para a aposentadoria.

MSM: Os policiais da ativa não-portadores de deficiência contribuem de alguma forma para auxiliar a APMDFESP?

JP: Sem dúvida nenhuma. Nós temos um quadro associativo onde a grande maioria são policiais não-portadores de deficiências. Nós não temos a intenção de uma contribuição meramente à título de benesse, então o sócio tem, em contrapartida, os serviços que nós oferecemos como por exemplo, o departamento jurídico 24 horas, assistência social, odontológica, psicológica.

PATRÍCIA MURARI (PM): O policial pode se valer também dos serviços de fisioterapia e terapia ocupacional.

JP: Exato. Na verdade se a entidade fosse depender apenas da contribuição dos portadores de deficiência, ela não sobreviveria, em função da baixa mensalidade e do número muito grande de atendimentos. Nós precisamos da contribuição de 60 a 70 associados para comprar uma cadeira de rodas, que nós entregamos às pessoas necessitadas sem despesa nenhuma para elas.

MSM: Em comparação com outros países, o senhor tem idéia se a proporção de policiais que se tornam deficientes físicos é maior ou menor?

JP: Aqui no Brasil a proporção é muito maior. Vou dar um exemplo: enquanto aqui nós tivemos época em que morriam quase 30 policiais por mês, na Inglaterra o número para o período de um ano era de 6 policiais.

PM: Uma vez nós questionamos um policial do estado norte-americano do Texas, o tenente Michael, sobre qual era o tratamento dispensado aos policiais que se tornavam deficientes físicos em seu estado. Ele teve dificuldade em responder porque nem se lembrava de ter informações de policiais nessa situação. Representantes da polícia canadense que nos visitaram também reagiram da mesma forma quando os indagamos sobre o assunto.

MSM: Qual a opinião do senhor sobre a visita da representante da ONU Asma Jahangir ao Brasil?

JP: Sobre a visita dessa senhora temos que estabelecer uma série de pontos. Para começar, ela deveria considerar para fins de comparação da violência no Brasil com outros países, a realidade social e até mesmo geográfica do Brasil, onde na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, a configuração geográfica estimula a criminalidade. Na minha opinião, ela chegou ao Brasil com pré-conceitos bem estabelecidos, com a idéia segundo à qual a "polícia brasileira é violenta, matou tantos civis", mas sem se preocupar em investigar a fundo quem eram esses civis, em que condições morreram, o que é necessário, senão fica a impressão que quando se fala em "tantos civis mortos pela polícia", a Polícia Militar chegou na Praça da Sé e saiu metralhando todo mundo que via pela frente. Também seria interessante lembrar que a Polícia está aí para combater os efeitos e não as causas da criminalidade, cujo combate demanda uma participação de vários outros órgãos governamentais. Um policial não pode dar educação a uma pessoa que está cometendo um assalto, o que seria absurdo. Assim, a senhora Asma infelizmente veio ao país com poucas informações e muitos estereótipos do tipo "Brasil: Rio de Janeiro, mulher bonita, samba e terra de violência", numa visita que pouco ou nada acrescentou à questão da segurança pública brasileira.

MSM: Como é a atuação das entidades de direitos humanos em relação a APMDFESP? Eles prestam algum tipo de apoio? Já visitaram a entidade?

JP: Só poderia te responder isso se nós tivéssemos algum dia recebido a visita de alguma entidade de direitos humanos. Nunca fomos visitados em dez anos de existência da Associação. Para nós as entidades de direitos humanos são algo lúdico, que nós só conhecemos de "ouvir falar".

PM: Não recebemos visitas nem de representantes das entidades de direitos humanos nem de ninguém delas em caráter pessoal.

JP: Apenas um deputado{*} que é da comissão dos direitos humanos da Assembléia Legislativa de São Paulo, uma vez passou por aqui numa determinada circunstância, mas o que nós percebemos é que a situação não foi interessante para ele. Direitos humanos é um conceito que, sinceramente, está desvirtuado totalmente no Brasil.

MSM: Por que a situação não foi interessante para esse deputado?

JP: Não foi interessante porque normalmente o que essas pessoas procuram são aquelas idéias pré-concebidas do policial militar, da Polícia Militar. Quando essas pessoas se deparam com o policial militar como vítima, aí elas até podem, intimamente, mudar suas concepções, porém, externamente eles continuam a manter suas posições. Imagine se alguém da comissão de direitos humanos começar a falar coisas como: "olha, realmente, o policial militar é uma vítima da criminalidade, tanto quanto tantas outras pessoas, tanto quanto o cidadão comum". O que vão falar dele se ele sair fazendo esse tipo de declaração? Para as entidades de direitos humanos o policial militar ou civil vítima não "vende". O que é que vende: o policial que agride. Parece que foi criado um autêntico "marketing social" em torno do tema e não adianta alguém colocar o contrário que essas pessoas fazem questão de não ver. Outro ponto: as mesmas pessoas que visitam presídios onde estão criminosos comuns, não vão até o presídio da Polícia Militar. Por quê? Porque elas não querem saber que o policial militar que agiu fora da lei foi punido. Isso não interessa saber. Interessa continuar mantendo o mito que a Polícia "deita e rola", que a Polícia "faz e acontece". A única vez que uma revista de circulação nacional visitou o presídio da Polícia Militar, publicou uma matéria afirmando que lá funcionava uma "colônia de férias", um "hotel cinco estrelas", e não é nada disso. Simplesmente o presídio da Polícia Militar está dentro de normas internacionais, condizentes com as da ONU ou das organizações internacionais de direitos humanos, o que não acontece com a imensa maioria dos estabelecimentos prisionais brasileiros. Infelizmente é essa a imagem que é criada em torno da Polícia. Muitas das pessoas que adotam essas posturas em relação à Polícia nem fazem isso porque querem, mas porque é isso que lhes dá destaque, que vende jornais e revistas. Muitas dessas pessoas já foram inclusive bem atendidas pela Polícia Militar, de maneira eficiente e correta, mas preferem ignorar e continuar a "malhar" a Polícia Militar.

MSM: Como é a relação da grande mídia com a associação que o senhor preside?

JP: Nós temos sido bem recebidos pela grande mídia, eles nos dão espaços, ouvindo a nossa história, a história do policial que foi vitimado, até porque muitos dos profissionais que trabalham assim conhecem a realidade dos quartéis, tendo uma visão mais aberta sobre a Polícia Militar, compreendendo que em todos os lugares há elementos bons e ruins, e que a Polícia Militar não é diferente. Contudo, é bom ressaltar que a mídia se relaciona bem conosco, mas no que diz respeito à instituição Polícia Militar, os estereótipos geram incompreensão e má-vontade.

MSM: O senhor teria mais alguma colocação a fazer?

JP: O que deveria haver é uma maior consciência de que o policial militar é um ser humano, não mais do que isso, e que como todas as pessoas ele possui suas particularidades, até mesmo comportamentais, razão pela qual não podem acontecer generalizações negativas em relação a uma organização tão numerosa quanto a PM de São Paulo. E para completar, eu gostaria de perguntar ao Padre Júlio Lanceloti (representante da Pastoral do Menor da Igreja de São Paulo e conhecido militante dos "direitos humanos"), que sempre chega na FEBEM após o final das rebeliões, e depois fala que a polícia agrediu, fez e aconteceu: por que não vai ele separar a confusão lá dentro? E outra coisa: gostaria de convidá-lo para visitar a nossa entidade, porque "ovelhas" não existem apenas lá na FEBEM; aqui também existem ovelhas, só que ovelhas do bem.


Renato Simões, deputado estadual pelo PT.

Fonte: Midía sem máscara

 

 


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