O
veto dos inativos
O veto do presidente Lula à melhoria salarial dos pensionistas
e aposentados da Previdência, de iniciativa de deputados
e senadores, foi maldade pura. Embora já seja conhecido
como o homem que "não sabe de nada", o Tribunal
de Contas já informou ao Congresso, através de relatório
do ministro Ubiratan Aguiar, que a Previdência não
é deficitária. Pelo contrário, tem a receber
bilhões de caloteiros e sonegadores, sem falar no rombo
da corrupção. Esse descalabro, pelo qual é
responsável o governo, representa 257 bilhões que
deixaram de entrar nos cofres da Previdência, sem falar
no desvio de seus recursos para o chamado superavit primário.
Para
vetar a lei, Lula alegou que não havia dotação
prevista no Orçamento. Acontece que também não
há nada no Orçamento para o MST, ilegal, mas essa
organização subversiva nunca deixou de receber dinheiro
do governo.
Deficit
na Previdência é conversa fiada. A cobrar de quem
a ela deve, o governo acha mais cômodo massacrar nativos,
inativos e pensionistas, obrigando-os a pagar pela segunda vez
a mesma aposentadoria ou vetar a lei de pequena melhoria salarial
para quem ganha acima do salário mínimo, numa discriminação
injusta e odiosa. Por que quem ganha acima do mínimo R$
10 ou R$ 20 não tem o mesmo direito daquele que recebe
o mínimo?
Lula
não teria vetado a lei se tivesse se lembrado de sua própria
aposentadoria. Já que o termo está na moda, pode-se
dizer que, em 1996, quando se aposentou, Lula foi um dos sanguessugas
da Previdência.
Primeiro,
aposentou-se com apenas 26 anos, quatro meses e 19 dias de serviço.
"Lula considera sua aposentadoria direito de anistiado"
- foi a manchete do Estadão de 9/11/1996, com o subtítulo:
"Petista
afirma que não acha imoral ganhar mais que teto de trabalhador
comum".
Vê-se,
pela matéria, que alguém considerou imoral a aposentadoria
de Lula.
A aposentadoria integral só é paga aos trabalhadores
(homens) após 35 anos de serviço, mas Lula gozou
do tempo de serviço especial como anistiado, por ter sido
preso 30 dias no DOPS de São Paulo.
Embora
fora da fábrica, conseguiu a vantagem da insalubridade
na aposentadoria. Na época, o teto da aposentadoria comum
era de R$ 957,00 por 35 anos de trabalho. Com o privilégio
da aposentadoria especial, Lula passou a receber acima do teto:
R$ 2.195,00 (acima do dobro).
Lula
nunca foi anistiado político. Diz O Globo do mesmo 9 de
novembro de 1996:
"Torneiro
mecânico, Lula foi presidente do Sindicato dos Metalúrgicos
de São Paulo e Diadema e ficou preso de 20 de abril a 20
de maio de 1980 por ter comandado uma greve. Ele e outros dez
sindicalistas foram condenados a penas que variavam de dois a
três anos de prisão, mas puderam recorrer em liberdade".
Sabem
como Lula conseguiu aposentadoria especial?
A
declaração de anistia que deu base ao pedido de
aposentadoria especial de Lula foi solicitada por ele em 20 de
março de 1993. A declaração, com base na
lei 6.683, não produzia nenhum efeito econômico.
Servia apenas como reparação moral e assim foi entendida
na Constituição de 88. No último ano do governo
Itamar (94), uma portaria do Ministério do Trabalho, combinada
com a Instrução 4/94 do Ministério da Previdência,
permitiu a interpretação de que anistiados políticos
teriam direito a aposentadoria especial.
Que
tal uma simples portaria interpretando a Constituição?
Posso
garantir que, dos agora prejudicados pelo veto desumano do presidente
Lula, nenhum tem o seu processo de aposentadoria posto sob suspeita,
com alguém considerando-a imoral ou coisa semelhante.
O
certo é que, com esse processo de aposentadoria, um ilustre
torneiro-mecânico fatura quase R$ 5 mil por mês, fazendo
inveja a centenas de catedráticos de nossas universidades,
embora com apenas 26 anos de serviço, a maioria dos quais
promovendo greves e arruinando a economia do País.
Quando,
porém, chegou a vez de proporcionar uma ninharia a mais
no salário de milhões de aposentados, usou das prerrogativas
de presidente da República para negá-la, sob a alegação
ridícula de falta de dotação orçamentária.
Claro
que o Congresso pode derrubar o veto presidencial. O que não
se espera é que esse que está aí, envolvido
em tantos escândalos, tenha condições de fazê-lo,
ainda mais sob a presidência de um aliado recentemente adquirido
chamado Renan Calheiros.
Themístocles
de Castro e Silva