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Estudo
do Exército detecta "cinturão" militar
dos EUA
Relatórios
do CIE (Centro de Inteligência do Exército), em Brasília,
revelam que o Exército brasileiro mapeou a presença
militar dos Estados Unidos na América do Sul. Os três
estudos, feitos em 2002, indicam que pelo menos 6.300 militares
norte-americanos estavam baseados ou realizaram operações
no continente entre 2001 e 2002.
Os militares americanos construíram pistas de pouso em
cidades próximas do Brasil, no Paraguai e na Bolívia,
instalaram radares e bases aéreas em nove localidades do
Peru, montaram destacamentos e inscreveram dezenas de soldados
em cursos preparatórios para combate em selva e contra
o narcotráfico em diversos países sul-americanos.
Trechos e dados desses relatórios de inteligência
do CIE -um deles intitulado "Presença dos Estados
Unidos na América do Sul"- são a base do trabalho
do coronel de infantaria José Alberto da Costa Abreu apresentado
em novembro de 2002 na Eceme (Escola de Comando e Estado Maior
do Exército), no Rio, para a conclusão do seu curso
de especialização em Política Estratégia
e Alta Administração Militar.
"Os principais reflexos para o Brasil da expressiva presença
norte-americana nos países da América do Sul são:
diminuição da capacidade brasileira de projetar
poder em âmbito regional e a existência de um "cinturão"
de instalações norte-americanas próximas
às fronteiras brasileiras, principalmente na região
amazônica", conclui o estudo do coronel.
Um coronel de engenharia do CIE foi o orientador do trabalho.
O CIE é o principal órgão de inteligência
do Exército. É um órgão de assessoramento
do comandante, no mesmo nível do Gabinete do Comandante
e da Consultoria Jurídica.
Mestrado
No regime militar, então chamado de Centro de Informações,
ficou conhecido por planejar o combate à guerrilha do Araguaia,
no início dos anos 70.
A Eceme é a mais alta escola de formação
dos oficiais do Exército, correspondendo ao mestrado no
ensino civil.
Os relatórios do CIE utilizados pelo coronel apontam que,
em número de militares, a presença americana mais
expressiva ocorria, em 2002, na Bolívia. Pelo menos 5.000
homens dos Estados Unidos atuavam no país, que mantinha
também a maior embaixada do continente, com 900 funcionários.
Além disso, soldados das forças especiais dos EUA
"procuram levantar possíveis focos de grupos armados
que possam, resistir às ações contra o narcotráfico"
principalmente nas regiões cocaleiras de Chapare e Yungas,
onde o governo boliviano colocou em prática, na década
de 90, um plano de destruição das áreas de
cultivo da coca, o "Plano Dignidade".
Desde 1999, a população indígena da região,
que reivindica o direito ao cultivo tradicional da planta, tem
reagido contra o plano de ocupação militar da região.
O líder da oposição no país, Evo Morales,
é da região.
Vôos clandestinos
"Existem, na Bolívia, diversas instalações
de radar e de comunicações inseridas no sistema
de comando e controle (C2) do Comando Sul dos EUA, destinadas
a rastrear vôos clandestinos e a coordenar as atividades
de combate ao narcotráfico. A operação e
a manutenção desses equipamentos são feitas
por técnicos norte-americanos", diz o estudo.
O Comando Sul, ligado ao Departamento de Defesa e com sede em
Miami, estabelece e executa a política militar americana
para a América do Sul.
A Colômbia, com atividade de pelo menos 500 militares norte-americanos,
de acordo com o estudo, autoriza que militares do 7º Grupo
das Forças Especiais dos Estados Unidos conduzam treinamentos
em três batalhões colombianos antinarcóticos.
O país tem recebido "mais assistência militar
e policial dos EUA em treinamento, equipamento e armamento do
que toda a América Latina e Caribe juntos". O Congresso
americano autorizou recentemente o emprego de 800 militares na
Colômbia.
Em 2001, 400 americanos teriam participado de um exercício
na Argentina, e 465, em dois exercícios no Paraguai.
Assistência social
As atividades no Paraguai se estenderam por três meses (de
abril a junho), na forma das chamadas Aciso (Ações
Cívico-Sociais), cujo objetivo formal é prestar
assistência social às famílias pobres.
Entre 1996 e 1997, segundo o estudo do coronel, foram construídas
pistas de pouso nas cidades fronteiriças com o Brasil Pedro
Juan Caballero, Salto del Guairá e Coronel Oviedo.
No Equador, funciona a única Localidade de Operações
Avançadas (FOL, em inglês) dos norte-americanos no
continente. Por um acordo de cooperação de novembro
de 1999, o governo equatoriano autorizou o uso americano da Base
de Manta, na província de Manabi, que emprega quatro aviões
grandes e quatro aviões médios. Um deles, o P-3
Orion, "é dotado de equipamentos óticos, acústicos
e infravermelhos e os dados obtidos devem ser compartilhados com
a inteligência da Força Naval equatoriana".
Região
amazônica tem operações
Operações
militares na região amazônica, exercícios
para missões de paz e intercâmbio com oficiais americanos
são os principais investimentos do governo dos Estados
Unidos no Exército e em órgãos de segurança
do Brasil.
Entre 1996 e 2002, de acordo com base de dados do Banco Central
fornecida à CPI do Banestado, pelo menos R$ 11 milhões
foram remetidos pelo governo norte-americano para contas bancárias
de delegados da Polícia Federal brasileira. Parte do dinheiro
foi destinada a financiar a Operação Cobra, realizada
pela Polícia Federal na fronteira com a Colômbia
para combate ao narcotráfico.
O Exército, em seu site na internet, divulga que o Exercício
Forças de Paz, realizado anualmente, é "patrocinado
pelo Comando Sul do Exército dos Estados Unidos".
O de 2003, realizado em Buenos Aires, na Argentina, reuniu militares
da Bolívia, do Brasil, do Chile, da Colômbia, do
Equador, do Paraguai, do Peru, do Uruguai e da Venezuela.
Outra tese apresentada na Escola de Comando e Estado-Maior do
Exército, sediada no Rio, permite conhecer uma visão
americana sobre o assunto.
No estudo intitulado "A história das relações
internacionais dos Estados Unidos e a luta contra as drogas",
o major de infantaria do Exército americano Frederick Stephen
Barrett, aceito como aluno da instituição como parte
do intercâmbio entre os dois países, afirma que o
Brasil é mais reticente aos americanos do que outros países
do continente.
"Embora alguns países realmente tenham recebido com
bom grado o envolvimento de tropas americanas na guerra contra
as drogas, o Brasil considera qualquer envolvimento direto de
tropas americanas como uma ameaça à soberania nacional.
Portanto, o assunto nem mesmo é discutido", escreve
o major.
"Os brasileiros são inflexíveis em relação
a não extraditar cidadãos brasileiros para os Estados
Unidos por causa de transgressões relativas a drogas",
descreveu Barrett. (RV)
RUBENS
VALENTE - ENVIADO ESPECIAL AO RIO
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