"FIAT CHAOS ET FACTUS EST CHAOS"
(Faça-se o Caos, e o Caos se Fez)
Muito
já se falou sobre os distúrbios no controle de tráfego
aéreo, e não era nossa intenção voltar
ao assunto, mas, como insistem mantê-lo vivo, com a disseminação
de verdadeiros absurdos, sentimos a necessidade de também
expressarmos a nossa posição.
Ainda no dia 9 de outubro, este articulista,
que regressava de Fortaleza, teve de esperar, durante cinco horas,
por uma conexão em Brasília. O motivo do atraso informado
pela companhia foi a falta de controladores de vôo no CINDACTA
I. Naquela oportunidade, os alto-falantes do Aeroporto anunciavam,
sistematicamente, o retardo de vários outros vôos,
e o ambiente na sala de espera do setor de embarque era caótico
e irritante.
De volta ao Rio de Janeiro, não se
leu nos jornais nem se viu nos programas de televisão uma
referência sequer a essa ocorrência, nem, tampouco,
às que, sem dúvida, aconteceram nos dias subseqüentes,
até o término do segundo turno das eleições.
Mais uma sonegação dolosa de
informações muito relevantes para os eleitores.
Atingidos os objetivos eleitorais do governo,
vimos explicitar-se, a grave crise que se iniciara algumas semanas
antes, e a Nação assistiu, estarrecida, à tentativa
de destruição de mais uma das manifestações
de excelência do País, de que nos orgulhávamos
tanto.
Como sempre, a falta de imaginação
pérfida dos governantes aproveita-se da situação
por eles mesmos criada, para culpar os militares e projetar sobre
estes a responsabilidade pelo caos que a visão ideológica
destorcida de uns poucos nos tem imposto.
Assim é que vemos mais um que nada
sabia, desta vez um ministro, propor a "desmilitarização"
do setor, ainda que, como defesa boba, alegue haver-se referido
a "controle civil". Como de costume, um remédio
inadequado para atender um diagnóstico errado.
Os militares nada têm a ver com as dificuldades
por que passa esse importante setor. Ao contrário, foram
eles, nesse caso os da Aeronáutica, que criaram um dos melhores,
mais confiáveis e mais respeitados complexos de controle
de tráfego aéreo do mundo. E mais barato, também,
justamente por ser único e integrado, atendendo as necessidades
civis e militares, enquanto todos os outros países têm
dois serviços distintos, redundantes, menos eficientes e
muito mais caros.
A criação do então Ministério
da Aeronáutica foi tão boa, que foram necessários
mais de vinte anos de sabotagem institucional para começarem
a surgir os primeiros sinais de deterioração na qualidade
do controle do nosso espaço aéreo.
Os verdadeiros responsáveis por essas
mazelas são aqueles que, mesmo avisados, não viram
nada, não sabiam de nada e, naturalmente, não fizeram
nada, nem mesmo os investimentos mínimos indispensáveis
à manutenção do sistema, preferindo desviar
os recursos para outras atividades, algumas nada nobres e, mesmo,
ilegais, conforme exaustivamente divulgado pelos meios de comunicação.
Está claro que o perigo não reside no domínio
do controle de tráfego aéreo pelos militares, mas
em que o País que está refém da incompetência
e da má fé generalizadas daqueles que se apoderaram
do Estado para satisfação de seus anseios de poder
e de sua nunca esquecida aspiração de implantar um
regime ditatorial inspirado em ideologia absolutamente contrária
a todas as nossas tradições.
Se, ainda assim, quiserem desmilitarizar o
controle de tráfego aéreo, que o façam, mas
saibam que será indispensável a criação
de um novo e muito dispendioso sistema para controlar, exclusivamente,
o tráfego aéreo civil, uma vez que os vôos militares
não podem depender de um controle sujeito a greves ou "operações
padrões", como esta que acontece agora, que deixariam
o País inteiramente vulnerável ao inimigo, conforme
os humores das lideranças sindicais.
Mas há outros aspectos obscuros envolvendo
os últimos acontecimentos. Tamanha balbúrdia não
poderia ter surgido subitamente, sem uma série de avisos
menores de que tribulações maiores viriam.
Por que toda essa confusão surgiu repentinamente
e, justamente, agora?
A quem interessaria tudo isso?
Parece estranho que um jornalista estrangeiro
desconhecido, passageiro de uma aeronave envolvida no acidente que
aparentemente deflagrou a crise, antecipando-se para defender seus
pilotos, tivesse feito duras críticas ao nosso serviço
de controle de tráfego aéreo, até então
tido como excelente.
Mais estranho ainda é que várias
autoridades americanas tenham acompanhado a extravagância
do jornalista e que, pouco tempo depois, tudo desmoronasse, como
se fosse especialmente feito para respaldá-lo na afirmação
leviana.
Lembremo-nos de que os interesses econômicos
envolvidos são enormes.
Outra artimanha que aparenta emergir desse
emaranhado é a tentativa de desestabilização
do Comandante da Aeronáutica, que apesar de todas as adversidades,
vem conseguindo, à custa de extraordinário sacrifício
pessoal, auferir algumas melhorias para a Força Aérea,
em meio a um ambiente fortemente hostil aos militares.
A quem isso poderia interessar, principalmente
nesta hora em que se articula a formação do próximo
governo?
E por que não deixam o caso sair de
pauta, mesmo que, para isso, se use o embuste de apresentar os atrasos
sistemáticos, originados nas companhias de transporte aéreo
– atrasos que sempre existiram – como se estivessem
relacionados com a atividade de controle de vôo? Quem costuma
viajar de avião, sabe que, dificilmente, as decolagens se
dão na hora prevista, sendo muitíssimo comuns atrasos
de até trinta minutos.
Dentro do mesmo espírito, procuram,
ainda, dramatizar uns poucos casos de conflito de tráfego
– normais em qualquer espaço aéreo – para
aumentar, artificialmente, a percepção de insegurança
entre os usuários. Existem formulários padronizados
para registro desses eventuais conflitos, com a finalidade diminuir-lhes
a incidência no futuro. Provavelmente, foi desses formulários
que se extraíram as matérias divulgadas em um programa
televisual de baixo nível, parcial e escandaloso, recentemente
transmitido.
Há muitos aproveitadores em cena, procurando
aumentar a gravidade da situação para dela tirar vantagens
pessoais ou coletivas. Tal parece ser o caso das lideranças
sindicais dos controladores de vôo, algumas ilegais, que se
estariam servindo do fato para reivindicar aumentos salariais e
a "desmilitarização" da atividade, o que
lhes aumentaria o poder de barganha.
Quando o ministro da Defesa aceita negociar
com militares em greve (em greve, sim, e insubordinados, não
interessa o eufemismo que se use para definir a "operação
padrão" que fazem) não revela, simplesmente,
a ignorância absoluta de todos os princípios básicos
que se aplicam aos militares, mas deixa transparecer, principalmente,
a intenção insidiosa de destruir as nossas Forças
Armadas, atacando-lhes os pilares básicos em que se assentam:
a hierarquia e a disciplina.
Em qualquer governo sério, seria, sumariamente, demitido.
Aliás, jamais teria sido nomeado. Mas governo sério
é coisa que os brasileiros já não sabem mais
o que é.
Meditemos muito sobre todos esses pontos. Não nos deixemos
levar pelas aparências mais óbvias nem nos permitamos
confundir por manobras que escondam as verdadeiras intenções
daqueles que se querem aproveitar, em benefício próprio
ou de suas idéias esdrúxulas, das desgraças
que fazem abater sobre o Brasil.
Só assim poderemos, pelo menos, saber
o que realmente está acontecendo, para melhor defendermos,
sempre que isso se fizer necessário, os nossos valores das
agressões gratuitas que lhes venham a fazer.
E se algum tolo, que desconheça a sua
insignificância diante de uma Instituição de
tantas tradições, decidir "enfrentar a Aeronáutica",
estaremos prontos para, unidos, defrontá-lo, combatê-lo
e neutralizá-lo.
Já o fizemos antes e o faremos novamente,
se preciso for.
(*) O Coronel Luís Mauro
é Chefe do Setor de Comunicação Social do Clube
de Aeronáutica
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