Edição 0136 - 15 de Dezembro de 2006

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"FIAT CHAOS ET FACTUS EST CHAOS"
(Faça-se o Caos, e o Caos se Fez)

Muito já se falou sobre os distúrbios no controle de tráfego aéreo, e não era nossa intenção voltar ao assunto, mas, como insistem mantê-lo vivo, com a disseminação de verdadeiros absurdos, sentimos a necessidade de também expressarmos a nossa posição.

Ainda no dia 9 de outubro, este articulista, que regressava de Fortaleza, teve de esperar, durante cinco horas, por uma conexão em Brasília. O motivo do atraso informado pela companhia foi a falta de controladores de vôo no CINDACTA I. Naquela oportunidade, os alto-falantes do Aeroporto anunciavam, sistematicamente, o retardo de vários outros vôos, e o ambiente na sala de espera do setor de embarque era caótico e irritante.

De volta ao Rio de Janeiro, não se leu nos jornais nem se viu nos programas de televisão uma referência sequer a essa ocorrência, nem, tampouco, às que, sem dúvida, aconteceram nos dias subseqüentes, até o término do segundo turno das eleições.

Mais uma sonegação dolosa de informações muito relevantes para os eleitores.

Atingidos os objetivos eleitorais do governo, vimos explicitar-se, a grave crise que se iniciara algumas semanas antes, e a Nação assistiu, estarrecida, à tentativa de destruição de mais uma das manifestações de excelência do País, de que nos orgulhávamos tanto.

Como sempre, a falta de imaginação pérfida dos governantes aproveita-se da situação por eles mesmos criada, para culpar os militares e projetar sobre estes a responsabilidade pelo caos que a visão ideológica destorcida de uns poucos nos tem imposto.

Assim é que vemos mais um que nada sabia, desta vez um ministro, propor a "desmilitarização" do setor, ainda que, como defesa boba, alegue haver-se referido a "controle civil". Como de costume, um remédio inadequado para atender um diagnóstico errado.

Os militares nada têm a ver com as dificuldades por que passa esse importante setor. Ao contrário, foram eles, nesse caso os da Aeronáutica, que criaram um dos melhores, mais confiáveis e mais respeitados complexos de controle de tráfego aéreo do mundo. E mais barato, também, justamente por ser único e integrado, atendendo as necessidades civis e militares, enquanto todos os outros países têm dois serviços distintos, redundantes, menos eficientes e muito mais caros.

A criação do então Ministério da Aeronáutica foi tão boa, que foram necessários mais de vinte anos de sabotagem institucional para começarem a surgir os primeiros sinais de deterioração na qualidade do controle do nosso espaço aéreo.

Os verdadeiros responsáveis por essas mazelas são aqueles que, mesmo avisados, não viram nada, não sabiam de nada e, naturalmente, não fizeram nada, nem mesmo os investimentos mínimos indispensáveis à manutenção do sistema, preferindo desviar os recursos para outras atividades, algumas nada nobres e, mesmo, ilegais, conforme exaustivamente divulgado pelos meios de comunicação.
Está claro que o perigo não reside no domínio do controle de tráfego aéreo pelos militares, mas em que o País que está refém da incompetência e da má fé generalizadas daqueles que se apoderaram do Estado para satisfação de seus anseios de poder e de sua nunca esquecida aspiração de implantar um regime ditatorial inspirado em ideologia absolutamente contrária a todas as nossas tradições.

Se, ainda assim, quiserem desmilitarizar o controle de tráfego aéreo, que o façam, mas saibam que será indispensável a criação de um novo e muito dispendioso sistema para controlar, exclusivamente, o tráfego aéreo civil, uma vez que os vôos militares não podem depender de um controle sujeito a greves ou "operações padrões", como esta que acontece agora, que deixariam o País inteiramente vulnerável ao inimigo, conforme os humores das lideranças sindicais.

Mas há outros aspectos obscuros envolvendo os últimos acontecimentos. Tamanha balbúrdia não poderia ter surgido subitamente, sem uma série de avisos menores de que tribulações maiores viriam.

Por que toda essa confusão surgiu repentinamente e, justamente, agora?

A quem interessaria tudo isso?

Parece estranho que um jornalista estrangeiro desconhecido, passageiro de uma aeronave envolvida no acidente que aparentemente deflagrou a crise, antecipando-se para defender seus pilotos, tivesse feito duras críticas ao nosso serviço de controle de tráfego aéreo, até então tido como excelente.

Mais estranho ainda é que várias autoridades americanas tenham acompanhado a extravagância do jornalista e que, pouco tempo depois, tudo desmoronasse, como se fosse especialmente feito para respaldá-lo na afirmação leviana.

Lembremo-nos de que os interesses econômicos envolvidos são enormes.

Outra artimanha que aparenta emergir desse emaranhado é a tentativa de desestabilização do Comandante da Aeronáutica, que apesar de todas as adversidades, vem conseguindo, à custa de extraordinário sacrifício pessoal, auferir algumas melhorias para a Força Aérea, em meio a um ambiente fortemente hostil aos militares.

A quem isso poderia interessar, principalmente nesta hora em que se articula a formação do próximo governo?

E por que não deixam o caso sair de pauta, mesmo que, para isso, se use o embuste de apresentar os atrasos sistemáticos, originados nas companhias de transporte aéreo – atrasos que sempre existiram – como se estivessem relacionados com a atividade de controle de vôo? Quem costuma viajar de avião, sabe que, dificilmente, as decolagens se dão na hora prevista, sendo muitíssimo comuns atrasos de até trinta minutos.

Dentro do mesmo espírito, procuram, ainda, dramatizar uns poucos casos de conflito de tráfego – normais em qualquer espaço aéreo – para aumentar, artificialmente, a percepção de insegurança entre os usuários. Existem formulários padronizados para registro desses eventuais conflitos, com a finalidade diminuir-lhes a incidência no futuro. Provavelmente, foi desses formulários que se extraíram as matérias divulgadas em um programa televisual de baixo nível, parcial e escandaloso, recentemente transmitido.

Há muitos aproveitadores em cena, procurando aumentar a gravidade da situação para dela tirar vantagens pessoais ou coletivas. Tal parece ser o caso das lideranças sindicais dos controladores de vôo, algumas ilegais, que se estariam servindo do fato para reivindicar aumentos salariais e a "desmilitarização" da atividade, o que lhes aumentaria o poder de barganha.

Quando o ministro da Defesa aceita negociar com militares em greve (em greve, sim, e insubordinados, não interessa o eufemismo que se use para definir a "operação padrão" que fazem) não revela, simplesmente, a ignorância absoluta de todos os princípios básicos que se aplicam aos militares, mas deixa transparecer, principalmente, a intenção insidiosa de destruir as nossas Forças Armadas, atacando-lhes os pilares básicos em que se assentam: a hierarquia e a disciplina.
Em qualquer governo sério, seria, sumariamente, demitido. Aliás, jamais teria sido nomeado. Mas governo sério é coisa que os brasileiros já não sabem mais o que é.
Meditemos muito sobre todos esses pontos. Não nos deixemos levar pelas aparências mais óbvias nem nos permitamos confundir por manobras que escondam as verdadeiras intenções daqueles que se querem aproveitar, em benefício próprio ou de suas idéias esdrúxulas, das desgraças que fazem abater sobre o Brasil.

Só assim poderemos, pelo menos, saber o que realmente está acontecendo, para melhor defendermos, sempre que isso se fizer necessário, os nossos valores das agressões gratuitas que lhes venham a fazer.

E se algum tolo, que desconheça a sua insignificância diante de uma Instituição de tantas tradições, decidir "enfrentar a Aeronáutica", estaremos prontos para, unidos, defrontá-lo, combatê-lo e neutralizá-lo.

Já o fizemos antes e o faremos novamente, se preciso for.

(*) O Coronel Luís Mauro
é Chefe do Setor de Comunicação Social do Clube de Aeronáutica

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