Edição 0136 - 15 de Dezembro de 2006

Edição atualizada todos os dias 1º e 15 de cada mês.
Seus Direitos
Cartas da Semana
Fatos e Fotos
Desaparecidos
Procurados
Soberania Nacional

Segurança Nacional

 
Edições anteriores
 
Soberania/Segurança Nacional

BOLÍVIA, DIPLOMACIA E IDEOLOGIA

O recente seqüestro do fluxo de caixa das refinarias da Petrobras na Bolívia equivale, na verdade, a uma expropriação. A companhia brasileira não seria nem indenizada por seus investimentos naquele país. Se lá quiser permanecer, deverá se tornar uma mera prestadora de serviços, sem nenhuma liberdade para comercializar o seu produto. Difícil considerar uma outra forma de humilhação, sobretudo vindo da parte de alguém que o nosso presidente considera como um “irmão”, um “companheiro” com o qual comunga idéias. No meio de uma negociação diplomática, os bolivianos simplesmente deram as costas para o Brasil e deixaram clara a sua parceria estratégica com Hugo Chávez. Cabe, portanto, a pergunta de como chegamos a essa situação.

Primeiro. A diplomacia do atual governo privilegiou os aspectos ideológicos em detrimento dos nacionais, sem nenhuma preocupação maior com os benefícios comerciais que poderiam ser auferidos de suas iniciativas. As negociações em torno da Alca foram praticamente encerradas, a partir de um anti-americanismo primário. Em nome de um suposto redesenho da economia mundial, o maior mercado comercial do planeta foi desconsiderado. À parte a megalomania de atribuir ao Brasil uma força que o país não tem, salta aos olhos que o desprezo de um acordo com os EUA traz muito mais prejuízos ao nosso país do que ao deles. Quando a ideologia passa a comandar a economia e a política, os danos logo se fazem sentir.


Segundo. Ora, a Bolívia foi uma particular beneficiária dessas posições ideológicas terceiro-mundistas, tendo imediatamente sido compreendida em suas medidas por nossos representantes diplomáticos. Em vez do país posicionar-se firmemente desde o início, terminamos por observar um espetáculo de aceitação do que estava ocorrendo. Parecia, num determinado momento, que o presidente do Brasil estava se tornando presidente da Bolívia, tal o grau de afinidade ideológica que estava sendo demonstrada. Não esqueçamos que os dois presidentes chegaram a se encontrar e se abraçar imediatamente após o decreto boliviano de nacionalização, na verdade estatização, que atinge principalmente aos interesses brasileiros.

Terceiro. A tática brasileira da compreensão, que se traduziu, de fato, por uma sucessão de recuos, mostrou-se, particularmente, ineficaz. A Petrobras chegou a declarar publicamente que a indenização das refinarias seria o menor dos problemas, como se as negociações indicassem um acordo possível. A compreensão, baseada na afinidade ideológica, estaria, enfim, produzindo resultados. Ora, há duas semanas das eleições brasileiras, logo depois de uma visita do vice-presidente boliviano ao Brasil, a Bolívia dá por decidida uma expropriação branca dos ativos brasileiros. Para que, então, a visita do vice-presidente boliviano? Para anunciar o que faria? Ou dizer algo diferente do que viria a fazer? A julgar pela reação dos governantes brasileiros, estes foram pegos manifestamente de surpresa, confirmando a segunda dessas hipóteses. Cabe, assim, uma outra pergunta: por que procuraram enganar os “companheiros” brasileiros?

Quarto. Os “companheiros” brasileiros foram enganados, porque os representantes bolivianos estão muito mais preocupados em fazer avançar os seus interesses, exibindo a sua pouca lealdade ideológica. Poder-se-ia dizer que eles defendem melhor os seus interesses do que os governantes brasileiros. Neste sentido, dada a sua incompetência gerencial e a sua ausência de recursos, eles simplesmente decidiram atacar o caixa de uma companhia estatal brasileira. Na verdade, passaram a negociar com dinheiro alheio.

Quinto. Num momento eleitoral particularmente delicado, os governantes brasileiros foram forçados a endurecer a sua posição, sob pena de oferecer munição aos outros candidatos à presidência da República. Não o fizeram por convicção, mas premidos pelas circunstâncias. Ocorre, contudo, que os bolivianos procuraram explicitamente produzir esse malefício à campanha de Lula, achando que nem precisavam esperar duas semanas, para depois das eleições de 1º de outubro. Ou seja, eles procuraram explicitamente causar um dano político à campanha petista. Por que o fizeram? Talvez a resposta mais adequada seja a de que estão procurando reconfigurar o mapa político-ideológico da América Latina, conferindo a Chávez uma posição de maior liderança. O ditador-presidente venezuelano avança, enquanto o presidente Lula perde posições. Os “companheiros” parecem ter, agora, projetos políticos distintos, que passam pelo prejuízo causado a uma companhia brasileira, ainda mais estatal. Os conflitos ideológicos tendem a crescer, enquanto os interesses econômicos ficarão, deles, a reboque.

por Denis Rosenfield, filósofo

Impossível localizar as mensagens contidos no arquivo: guestbook/mensagens.txt

 

Site melhor visualizado com a resolução: 800x600 Navegador: Internet Explorer 6.0 Telefone para contato (0xx65) 9967-5291
Copyright © - Todos os direitos reservados por O Quinto Poder - 2003-2007