BOLÍVIA, DIPLOMACIA E IDEOLOGIA
O recente seqüestro do fluxo de caixa das refinarias
da Petrobras na Bolívia equivale, na verdade, a uma expropriação.
A companhia brasileira não seria nem indenizada por seus
investimentos naquele país. Se lá quiser permanecer,
deverá se tornar uma mera prestadora de serviços,
sem nenhuma liberdade para comercializar o seu produto. Difícil
considerar uma outra forma de humilhação, sobretudo
vindo da parte de alguém que o nosso presidente considera
como um “irmão”, um “companheiro”
com o qual comunga idéias. No meio de uma negociação
diplomática, os bolivianos simplesmente deram as costas para
o Brasil e deixaram clara a sua parceria estratégica com
Hugo Chávez. Cabe, portanto, a pergunta de como chegamos
a essa situação.
Primeiro.
A diplomacia do atual governo privilegiou os aspectos ideológicos
em detrimento dos nacionais, sem nenhuma preocupação
maior com os benefícios comerciais que poderiam ser auferidos
de suas iniciativas. As negociações em torno da Alca
foram praticamente encerradas, a partir de um anti-americanismo
primário. Em nome de um suposto redesenho da economia mundial,
o maior mercado comercial do planeta foi desconsiderado. À
parte a megalomania de atribuir ao Brasil uma força que o
país não tem, salta aos olhos que o desprezo de um
acordo com os EUA traz muito mais prejuízos ao nosso país
do que ao deles. Quando a ideologia passa a comandar a economia
e a política, os danos logo se fazem sentir.
Segundo. Ora, a Bolívia foi uma particular beneficiária
dessas posições ideológicas terceiro-mundistas,
tendo imediatamente sido compreendida em suas medidas por nossos
representantes diplomáticos. Em vez do país posicionar-se
firmemente desde o início, terminamos por observar um espetáculo
de aceitação do que estava ocorrendo. Parecia, num
determinado momento, que o presidente do Brasil estava se tornando
presidente da Bolívia, tal o grau de afinidade ideológica
que estava sendo demonstrada. Não esqueçamos que os
dois presidentes chegaram a se encontrar e se abraçar imediatamente
após o decreto boliviano de nacionalização,
na verdade estatização, que atinge principalmente
aos interesses brasileiros.
Terceiro. A tática brasileira da compreensão,
que se traduziu, de fato, por uma sucessão de recuos, mostrou-se,
particularmente, ineficaz. A Petrobras chegou a declarar publicamente
que a indenização das refinarias seria o menor dos
problemas, como se as negociações indicassem um acordo
possível. A compreensão, baseada na afinidade ideológica,
estaria, enfim, produzindo resultados. Ora, há duas semanas
das eleições brasileiras, logo depois de uma visita
do vice-presidente boliviano ao Brasil, a Bolívia dá
por decidida uma expropriação branca dos ativos brasileiros.
Para que, então, a visita do vice-presidente boliviano? Para
anunciar o que faria? Ou dizer algo diferente do que viria a fazer?
A julgar pela reação dos governantes brasileiros,
estes foram pegos manifestamente de surpresa, confirmando a segunda
dessas hipóteses. Cabe, assim, uma outra pergunta: por que
procuraram enganar os “companheiros” brasileiros?
Quarto. Os “companheiros” brasileiros
foram enganados, porque os representantes bolivianos estão
muito mais preocupados em fazer avançar os seus interesses,
exibindo a sua pouca lealdade ideológica. Poder-se-ia dizer
que eles defendem melhor os seus interesses do que os governantes
brasileiros. Neste sentido, dada a sua incompetência gerencial
e a sua ausência de recursos, eles simplesmente decidiram
atacar o caixa de uma companhia estatal brasileira. Na verdade,
passaram a negociar com dinheiro alheio.
Quinto. Num momento eleitoral particularmente delicado,
os governantes brasileiros foram forçados a endurecer a sua
posição, sob pena de oferecer munição
aos outros candidatos à presidência da República.
Não o fizeram por convicção, mas premidos pelas
circunstâncias. Ocorre, contudo, que os bolivianos procuraram
explicitamente produzir esse malefício à campanha
de Lula, achando que nem precisavam esperar duas semanas, para depois
das eleições de 1º de outubro. Ou seja, eles
procuraram explicitamente causar um dano político à
campanha petista. Por que o fizeram? Talvez a resposta mais adequada
seja a de que estão procurando reconfigurar o mapa político-ideológico
da América Latina, conferindo a Chávez uma posição
de maior liderança. O ditador-presidente venezuelano avança,
enquanto o presidente Lula perde posições. Os “companheiros”
parecem ter, agora, projetos políticos distintos, que passam
pelo prejuízo causado a uma companhia brasileira, ainda mais
estatal. Os conflitos ideológicos tendem a crescer, enquanto
os interesses econômicos ficarão, deles, a reboque.
por Denis Rosenfield, filósofo
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