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RETÓRICA PEQUENO DICIONÁRIO DAS (RE) CRIAÇÕES POLÍTICAS

Na natureza e em política nada se cria. Transforma-se tudo. Tome-se como exemplo este texto: "Há no povo uma grande sensibilização que só se pode chamar de patriótica: um interesse novo pelo Brasil, um gosto de dizer o nome do Brasil, de falar que é brasileiro, de usar a bandeira, de pintar as coisas de verde e amarelo, de sentir o Brasil grande. (...) O controle da inflação, que parecia impossível, hoje já se considera conquista assegurada. A exportação cada vez maior e mais diversificada, as marcas Indústria Brasileira e Made in Brazil espalhadas pelas sete partes do mundo". O que se leu poderia, sem nenhuma modificação de monta, ser parte de peça publicitária do governo Lula. Não é. O texto foi redigido em 1970 pela escritora Rachel de Queiroz e publicado na revista O Cruzeiro . Aquele ano, o segundo do governo Médici, foi de entusiasmo com o chamado milagre brasileiro, sentimento que, em popularidade, suplantava a face dura do regime, com censura à imprensa e tortura de presos políticos. No estilo, o texto está carregado do que se pode chamar de ufanismo – termo popularizado pelo político, escritor e conde Affonso Celso, autor, em 1900, do livro Por que Me Ufano do Meu País ..., ou por que meu país me envaidece a ponto de eu me vangloriar dele.

No governo petista, o ufanismo está em alta. Em texto publicado na semana passada no jornal Folha de S.Paulo, Ricardo Kotscho, secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República, diz: "(O Brasil) vive um dos melhores momentos da sua economia nas últimas décadas, recuperando a credibilidade externa com a manutenção da estabilidade, (...) admirado por suas artes, seus aviões, sua moda, sua comida, suas modelos, seus esportistas nas mais diferentes modalidades". O ufanismo pode ser apenas uma manifestação de orgulho pelo país, infundada ou não. Às vezes, pode ser mais que isso e criar um ambiente em que criticar é quase antipatriótico. O ufanismo é apenas um dos termos do passado ressuscitados pelos políticos brasileiros recentemente. Com o intuito de contribuir para a exatidão do uso do vernáculo, tão vilipendiado no debate político, VEJA fez um glossário desses termos.

Gestapo

O que é: sigla em alemão de Geheime Staatspolizei, ou "polícia secreta do Estado". Pronuncia-se "guestapo". Em 1934, a corporação se especializou em prender e perseguir os inimigos do regime – judeus, esquerdistas, intelectuais, homossexuais, sindicalistas. No final da II Guerra Mundial, uma seção da Gestapo comandada por Adolf Eichmann coordenou a deportação de judeus para os campos de extermínio na Polônia.

Novo significado: em 8 de setembro, o ministro da Casa Civil, José Dirceu, utilizou o termo Gestapo – que ele pronuncia "jestapo" – ao se referir ao Ministério Público. Desde então, "Gestapo" no Brasil passou a significar apenas "autoridades com poder de investigação que insistem em apurar casos que o ministro José Dirceu prefere ver engavetados".

Fascista

O que é: membro ou simpatizante de algum governo ou partido inspirado no fascismo – que por sua vez foi o movimento político totalitário criado pelas classes dominantes européias para defender a propriedade, a religião e seus valores em reação ao avanço do totalitarismo comunista na região. O alemão Adolf Hitler, o italiano Benito Mussolini, o espanhol Francisco Franco e o português Antônio Salazar foram ditadores fascistas.

Novo significado: o ministro da Educação, Tarso Genro, em agosto chamou de "fascistas" os estudantes que o haviam vaiado na Assembléia Legislativa de São Paulo. Gilberto Gil já usou o mesmo termo para definir parte da imprensa. Como nem os estudantes de São Paulo nem os jornalistas têm poderes ditatoriais e/ou totalitários, depreende-se que o novo significado de "fascista" no Brasil do século XXI passou a ser "toda pessoa ou instituição que se manifesta de maneira barulhenta ou contundente contra qualquer medida tomada por ministros do governo Lula".

Liberdade de expressão

Significado original: na melhor tradição do poeta inglês John Milton (1608-1674), liberdade de expressão sempre foi um direito natural – ou seja, ela não pode ser dada por governantes, só pode ser restringida ou suprimida. Escreveu Milton: "Onde é grande o desejo de aprender, é também grande a necessidade de discutir, de escrever, de ter opinião. Porque a opinião, entre homens de valor, é conhecimento em formação". O cerceamento da liberdade de expressão é fato comum, especialmente nos regimes totalitários do século XX, como o comunista e o nazista. Goebbels defendia o controle dos meios de comunicação. Lenin dizia que os intelectuais não eram o cérebro de um país, mas sim o excremento.

Novo significado: no Brasil moderno, a "liberdade de expressão" deixou de ser um direito natural e absoluto, passando a ser encarada como algo que – na avaliação de ministros do governo e de tribunais superiores – "é relativo" ou exige "precondições para ser exercido". Diante disso, o novo significado de "liberdade de expressão" passou a ser, no Brasil, "a liberalidade do governo com a publicação de todo artigo ou reportagem que contenha opiniões diametralmente opostas às convicções oficiais ou que relate aspectos da vida pessoal e profissional de autoridades que elas prefeririam manter longe dos olhos do público".

Democracia

O que é: o dicionário Aurélio a define como "doutrina ou regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição eqüitativa do poder".

Novo significado: mesmo tendo sido o termo mais vilipendiado do vocabulário político em todos os tempos, ele ganhou ainda mais indefinição no Brasil contemporâneo. Companheiros petistas definem como "democráticos" regimes de força como o de Fidel Castro, ditador no poder há meio século em Cuba, e o de Omar Bongo, há 37 anos mandando prender e mandando soltar no Gabão. Portanto, o novo significado de "democracia" no Brasil deve ser "todo regime simpático a Brasília em que o povo não tem força suficiente para tirar do cargo o governante que se pretende eterno".

Modernidade

O que é: o termo se refere a várias correntes artísticas do século XX – surrealismo, dadaísmo, suprematismo, cubismo, fovismo etc.

Novo significado: em uma entrevista, o líder do Movimento dos Sem-Terra, João Pedro Stedile, declarou: "Não existe nada mais moderno do que sonhar com o socialismo". Dado o fato de que o chamado socialismo real desmoronou em 1991, com a derrocada da União Soviética, o significado de "modernidade" mudou. "Modernidade", pelo menos a de Stedile, só pode significar algo parecido com "nostalgia de um movimento político que teve 75 anos para mostrar sua viabilidade na União Soviética, mas que desabou por sua própria corrupção e ineficácia".

Stalinismo

O que é: deriva de Josef Stalin, o sucessor de Lenin na União Soviética, país que governou entre 1924 e 1953. Foi um dos ditadores mais sanguinários de todos os tempos. Estima-se que cerca de 1 milhão de pessoas tenham morrido nos gulags, campos de concentração stalinistas. O regime comunista fez em torno de 20 milhões de vítimas entre 1917 e 1953, a maior parte delas no período stalinista. Paranóico, o ditador mandava matar inimigos e aliados que pudessem fazer sombra a seu reinado.

Novo significado: como a oposição não podia ficar de fora da onda de recriação vernacular inaugurada pelo governo, o senador Tasso Jereissati, do PSDB, lascou um "stalinista" para descrever a tentativa de aliados do PT de usar dados sigilosos coletados pela CPI do Banestado para fustigar parentes seus. Pelo despropósito do uso da expressão, Tasso acabou de criar um novo significado para essa palavra. "Stalinista" no Brasil agora é "qualquer um que investigue a família Jereissati usando dados surrupiados ilegalmente da CPI" e, por extensão, "todo político que reclame dos métodos de cooptação do PT no Congresso, mesmo que eles em nada sejam diferentes de tudo que se fez no passado".

Fonte: Revista Veja edição 1872, 22 de setembro de 2004
Colaboração: Osório Elias Resende

 

 

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