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A VERDADE SOBRE AS FARC

Sejamos sinceros: todo o mundo sabe das relações para lá de íntimas entre o PT (Lula à frente) e as FARC. (Se o leitor não sabe nada a respeito, é porque passou os últimos meses em Plutão ou, o que dá no mesmo, costuma ler os grandes jornais brasileiros. Sugiro que comece a se inteirar do assunto clicando aqui).

Nada mais justo, portanto, do que querer saber quem são as FARC. Há quem diga que são terroristas cruéis que, não bastasse, se meteram até o pescoço no narcotráfico. Há quem diga que são, isso sim, freedom fighters que, porque errar é humano, erram de vez em quando (matando inocentes, por exemplo). Os primeiros argumentam que há exaustivo material jornalístico e judicial em favor de sua tese. Os segundos rebatem dizendo que esse material é tendencioso porque produzido pela imprensa "burguesa" ou pelo próprio governo colombiano, parte diretamente interessada no conflito. Em quem acreditar? Talvez numa ONG, que não tem interesses comerciais ou políticos no conflito e que , afinal, goza do respeito da própria esquerda. Se ao menos houvesse um bom relatório de uma ONG respeitável sobre o assunto...

Pois a notícia é que há. Este relatório da Human Rights Watch (que descobri aqui) se preocupa primordialmente com a situação das crianças que integram as três forças irregulares do conflito colombiano (FARC, ELN e AUC), mas pode-se folheá-lo em busca de informações gerais sobre o modus operandi das FARC. Está tudo lá: julgamentos sumários, seqüestros, tortura e a brutalização física e psicológica de crianças. Leiam, é um dever cívico.

E se não quiserem ler, eu resumo.

Entre maio e junho de 2002, a Human Rights Watch entrevistou 112 crianças ex-combatentes, hoje moradoras de refúgios governamentais (aliás co-financiados pelos EUA) ou de instituições privadas que se dedicam a abrigar e recuperar esses sobreviventes da guerra civil colombiana. Com exceção do exército regular da Colômbia, todas as forças envolvidas no conflito usam crianças como combatentes. Estima-se que um quarto dos combatentes irregulares na Colômbia corresponda a menores de 18 anos. Um quarto do contingente das FARC seria constituído de crianças e adolescentes, contra um terço das forças do Exército de Libertação Nacional (ELN, guerrilha esquerdista) e 20% das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC; paramilitares de direita).

As crianças (algumas com apenas seis, sete anos) são atraídas pela propaganda dos grupos, que prometem dinheiro e prestígio aos que se alistarem. Buscando escapar de maus tratos domésticos, muitas crianças aceitam. O recrutamento forçado não é todavia, inexistente. Dos 112 menores entrevistados pela HRW, 13 declararam ter sido forçados a se juntar às guerrilhas (os grupos paramilitares não parecem recorrer ao recrutamento forçado com freqüência). Seis foram obrigados a servir ao ELN enquanto os outros 7 foram forçados a lutar do lado das FARC. Outros dois entrevistados alegaram ter sido "pressionados" a se juntar às FARC

Incorporadas aos grupos, as crianças começam de imediato o treinamento. Em geral, os menores de dez anos são encarregados do transporte de suprimentos, da obtenção de informações e de vigiar as redondezas. Os mais velhos (de 11 ou 12 anos) já lidam diretamente com armas e, como parte de seu treinamento, são obrigados a assistir a sessões de tortura e a execuções. Num estágio mais avançado do treinamento, os menores passam a ter um papel ativo: executam a sangue frio os prisioneiros de guerra e os "traidores". As crianças que mostram relutância no cumprimento dos deveres, que tentam desertar ou que dormem em seu turno de vigilância são submetidas a um "conselho de guerra". A pena mínima consiste em trabalhos forçados ou em ser atado a uma árvore por semanas, às vezes meses. A pena máxima, e corriqueiramente aplicada, é a morte. É comum que o algoz do "traidor" seja uma outra criança em fase de treinamento. Às vezes, o comandante da companhia aponta o melhor amigo do condenado para ser seu carrasco.

Se adultos e crianças são iguais dentro do acampamento, há diferenças entre os sexos. A HRW diz que estupros propriamente ditos são raros nos acampamentos, mas as meninas que engravidam (sobretudo nas FARC) são obrigadas a abortar.

Para não dizerem que eu minto ou invento, vão abaixo alguns depoimentos colhidos pela Human Rights Watch.

Depoimentos

Entre parênteses o leitor vai encontrar o nome fictício que a HRW atribuiu a cada criança, sua idade à época da entrevista (a idade de alistamento pode ser checada aqui) e a parte do relatório em que cada depoimento pode ser encontrado. Como meu assunto é as FARC, escolhi depoimentos de ex-combatentes desta organização. Há depoimentos semelhantes de ex-integrantes dos outros exércitos irregulares.

Decidi incluir também os depoimentos em inglês, conforme eles podem ser encontrados no documento. Fica o leitor alertado que, ainda que assistidos ou protagonizados por crianças, os fatos que vão narrados abaixo não são nem um pouco infantis. Duvida-se até que sejam humanos tout court.

"Eu tinha uma amiga, Juanita, que se meteu em encrenca por dormir em serviço. Tínhamos sido amigas na vida civil e dividíamos uma tenda. O comandante disse que não interessava se ela era minha amiga. Ela tinha cometido um erro e tinha que ser morta. Fechei meus olhos e disparei a arma, mas não a atingi. Então eu atirei de novo. A cova estava bem ao lado. Tive que enterrá-la e jogar terra por cima. O comandante disse: "Você se saiu muito bem. Apesar de ter começado a chorar, você se saiu bem. Você vai ter que fazer isso muitas outras vezes, e vai ter que aprender a não chorar."(Ângela, 17 anos, parte 3)

"(I had a friend, Juanita, who got into trouble for sleeping around. We had been friends in civilian life and we shared a tent together. The commander said that it didn't matter that she was my friend. She had committed an error and had to be killed. I closed my eyes and fired the gun, but I didn't hit her. So I shot again. The grave was right nearby. I had to bury her and put dirt on top of her. The commander said, "You did very well. Even though you started to cry, you did well. You'll have to do this again many more times, and you'll have to learn not to cry.")

"Eles nos ensinam história: a história de Che Guevara ou Jacobo Arenas ou marxismo-leninismo, todo dia, das 3:00 às 4:00 p.m. Nós líamos. Não ensinavam matemática ou ciências, apenas sobre política, armas, as regras da FARC. Antes de sairmos para a luta, há um discurso: "Estamos saindo para defender a Colômbia, para que haja igualdade, para ajudar os pobres, para que os ricos não tirem dos pobres." (Marta, 17 anos, parte 8)

(They teach us history: the history of Che Guevara or Jacobo Arenas or Marxism-Leninism every day from 3:00 to 4:00 p.m. We read. There isn't any math or science taught, only politics, weaponry, and the FARC's rules. Before we go out to fight, there is a talk: "We are going out to defend Colombia, so that equality can come--to help the poor--so that the rich don't take from the poor.)

"Eu estava há nove meses nas FARC quando eles me mandaram matar um amigo, Edison. Ele era meu melhor amigo. Ele tinha matado alguém por acidente. Eu não tive escolha. Você tem que fazer porque é uma ordem. Tinha havido o conselho de guerra e eu tinha votado não. O comandante me disse: "Já que você votou não, você é que vai matá-lo". Quase todo o mundo tinha votado a favor de sua morte. Apenas quatro de nós votamos não." (Elizabeth, 15 anos, parte 9)

(I had been in the FARC for nine months when they ordered me to kill a friend, Edison. He was my best friend. He had killed someone by accident. I didn't have a choice. You have to do it because it's an order. There had been a war council and I had voted no. The commander told me, "Since you voted no, you will be the one to kill him." Almost everyone else had voted in favor of killing him. Only four of us had voted no.)

"Sete semanas após minha chegada houve um combate. Eu estava com muito medo. Foi um ataque dos paramilitares. Nós matamos uns sete deles; eles mataram um dos nossos. Nós tivemos que beber seu sangue para dominar nosso medo. Só os amedrontados tiveram que fazer isso. Eu era a mais amedrontada de todas, porque eu era a mais nova e a menos experiente." (Adriana, 15 anos, parte 10)

(Seven weeks after I arrived there was combat. I was very scared. It was an attack on the paramilitaries. We killed about seven of them. They killed one of us. We had to drink their blood to conquer our fear. Only the scared ones had to do it. I was the most scared of all, because I was the newest and youngest)

"Em meu primeiro combate, eles capturaram dezoito membros das AUC. Eles torturaram e mataram todos eles. Primeiro eles os amarraram e os trouxeram de volta para o campo. E o comandante da companhia chamou todos os recém-chegados que ainda estávamos em treinamento para ver como é que eles matavam. Nenhum de nós sabia ainda como torturar ou matar para obter informação. Eles cortavam fora os dedos dos prisioneiros, primeiro eles tiravam as unhas, o nariz, e cortavam fora as orelhas. Eles abriam os estômagos dos prisioneiros e tiravam os intestinos com uma faca, enquanto os prisioneiros ainda estavam vivos, e depois eles os matavam à bala. E nós assistíamos, e algumas crianças ficavam enojadas e vomitavam. O comandante dizia que era fácil, que um dia nós teríamos de fazer aquilo. Era feio, terrível. Durante um bom tempo depois disso eu pensei na morte." (Dario, 15 anos, parte 11)

(In my first combat, they captured eighteen AUC members. They tortured and killed all of them. First they tied them up and took them back to the camp. And the company commander called all of us recent arrivals who were still in training over to see how they killed. All of us who didn't know yet how to kill or torture to obtain information. They cut off their fingers, first they removed their nails, their nose, and they cut off the ears. They cut open their stomachs and removed their intestines with a knife, while they were still alive, and afterwards they shot them. And we watched, and some of the kids left because they got sick and were vomiting. The commander said that it was easy, that one day we would have to do it. It was ugly, terrible. For a long time after I thought of
death.)

Pergunta singela

E então, o que se pode concluir de tudo isso? De minha parte, só enxergo uma moral nessa história: as FARC são inegavelmente uma organização terrorista que não poupa nenhum recurso para conseguir o que pretende. Julgando seus ideais acima de qualquer outra coisa, matam e obrigam a matar, torturam e obrigam a torturar. As execuções sumárias, as sessões de tortura e os seqüestros não são exceção - ao contrário, fazem parte do dia-a-dia nos acampamentos. As FARC não poupam nem mesmo as crianças, seja como executores das penas, seja como suas vítimas. A pergunta que não quer calar é: por que é mesmo que o governo do PT (que decerto não ignora, e aliás não tem sequer o direito de ignorar, isso que a Human Rights Watch documentou), por que é que o governo do presidente Lula apóia essa abominação? Hein?


Fabiano Moraes | 10/7/2003 03:55:00 AM
Colaboração: Cel RR PMMT Léo G. Medeiros

   

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