UM ESPECTRO RONDA O BRASIL
Em
2002, o povo brasileiro foi às urnas e determinou que o PT
teria sua chance para governar o País. Com FHC, já
tivéramos a esquerda "burguesa" no poder por oito
anos, mas não bastava. As urnas disseram claramente que era
necessário algo mais à esquerda. Algo que, conforme
vinte anos de promessas, proporcionasse comida, saúde, educação,
saneamento e outros serviços básicos aos pobres, miseráveis
e desesperançados.
Após tantos anos do fim do regime militar, a esquerda, infiltrada
maciçamente na mídia e na educação,
já cumprira a lição de casa, fazendo com que
os menores de quarenta anos acreditassem que não havia uma
revolução comunista em marcha nos anos 60. Pelo contrário,
passaram a acreditar piamente que, quando a democracia estava para
florescer, os militares deram um golpe de estado e implantaram uma
ditadura sanguinolenta apelidada de "anos de chumbo".
Finalmente, em 2003, representando os "éticos"
e os "puros" na política, o PT assume as rédeas
do governo, em eleição inquestionável. Aliás,
o PT não, e sim a sua principal tendência (entre as
várias e antagônicas que o compõem): o Campo
Majoritário (CM). As demais tendências apenas compuseram
a vasta frente de esquerda formada para a batalha, cabendo-lhes
pouquíssimos cargos nos primeiro e segundo escalões.
A tática das frentes foi perfeita, e parecia que a revolução
socialista decolaria de vez no Brasil. Quando estivesse implantada,
haveria lugar e momento para que trostkistas, leninistas, maoístas,
chavistas, castristas et caterva disputassem o poder.
Iniciado o governo, as primeiras surpresas: acertos com o FMI, alta
de juros, apoio de José Sarney, ACM, Roberto Jefferson e
de tantos outros caciques e partidos políticos que, por anos
a fio, haviam sido combatidos e tachados de corruptos e fisiologistas
pelo próprio PT.
Os casos "Celso Daniel", "Waldomiro Diniz" e
"Diógenes do PT", havidos na seqüência,
causaram alguns estragos, mas, como foram rapidamente abafados,
não tiveram muitas conseqüências junto ao eleitorado.
Apenas pouco mais de um ano foi necessário para que mais
surpresas viessem: deputados e senadores, agora alcunhados pejorativamente
de "radicais", foram expulsos por, paradoxalmente, defenderem
a mesma plataforma que todo o partido defendera desde sua criação
no ABC paulista nos anos 80. Isolados do poder, estes passaram a
esbravejar com toda a razão: o que é isso, companheiro?
Passa-se o tempo, mas o "Fome Zero" e outros programas
sociais tidos como prioritários não conseguem sair
do papel...
Ainda antes de completar três anos em Brasília, a surpresa
definitiva: a alta cúpula do partido, e talvez muitos de
seus políticos menores, estão enrolados em tantas
denúncias de corrupção como nunca o Brasil
viu antes. Não bastassem as malas para pagar o mensalão
e os empréstimos não lidos e pouco explicados, veio
a suprema humilhação: até dólares na
cueca foram descobertos! Ao que parece, nunca a expressão
"dinheiro sujo" foi tão bem colocada!
Enquanto os "radicais" do partido vibram de alegria e
os não-votantes no PT assistem de camarote, agora é
o Presidente da República e seus milhões de incrédulos
eleitores que exclamam: o que é isso, companheiro?
O momento é tenso e recomenda cautela, especialmente para
aqueles que acreditam que este é o fim do Partido dos Trabalhadores.
A vibração das correntes radicais e os ataques ferozes
aos próprios companheiros de partido, estão a fornecer
um indício de que algo está para mudar. O estonteamento
e a paralisação política do Presidente e do
governo com as denúncias de corrupção, de favorecimentos
e de fisiologismos, aliados à necessidade de oferecerem soluções
rápidas e nomes aparentemente ilibados, podem levar o partido
a recorrer àqueles que sempre defenderam as mesmas bandeiras,
as quais todos nós, mais antigos, conhecemos sobejamente.
Miguel Rossetto, Dilma Roussef, Olívio Dutra (só para
citar os gaúchos) e outros já estão no governo
e são inatacáveis, pelo menos até agora. Se
as correntes "mais à esquerda" tornarem-se igualitárias
ou majoritárias no preenchimento dos primeiro, segundo e
terceiro escalões, a orientação política
do partido (e do governo) poderá sofrer uma brusca guinada.
Até agora, a tática de seus líderes era ocupar
tanto espaço quanto fosse possível, infiltrando seus
simpatizantes em todos os setores do governo federal, dos estados
e dos municípios. Assim, num segundo momento, ou poderiam
tomar o poder respectivo pelas urnas, ou montar uma feroz resistência
caso isso não acontecesse.
No entanto, com a precipitação dos acontecimentos,
tais correntes agora podem ser ungidas ao mando sem quase fazer
esforço. A lógica é arrasadora: para permanecer
no poder com credibilidade "reeleitiva" (estamos a um
ano das eleições), o PT necessita provar que possui
quadros éticos e incorruptíveis. E quem, dentre seus
dirigentes, aparenta tais qualidades, senão os integrantes
das correntes mais à esquerda? Quem ainda defende as bandeiras
históricas do partido? Quem está mais próximo
do MST e dos demais "sem-qualquer-coisa"?
A propósito, vale ressaltar que roubos, assaltos, desvios
de dinheiro e outras ações similares são apenas
chamadas de "expropriações" e perfeitamente
justificadas internamente pela esquerda revolucionária, como
é testemunho o nosso passado recente e o presente em vários
locais da América Latina e do mundo.
Nesse grande contexto, é relevante observar que o PT, enquanto
governo, não está implodindo, mas sim apenas uma ínfima
parcela de sua corrente majoritária que, pega no "contra-pé",
deverá retirar-se da vitrine para realizar a costumeira e
histórica auto-crítica. Da reorganização
político-ideológica que emergirá, é
razoável, parafraseando o primeiro parágrafo do prefácio
do Manifesto Comunista, supor-se que "um espectro ronda o Brasil".
E esse espectro é preocupante...
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